Sexta-feira

Patalosa

Minha avó nasceu em 19 e morreu em 99. Em 09, fosse viva, não diria mais a sua deliciosa "tem dia que é noite". Desesperada com o andar da carruagem, soltaria um sonoro "tem semana que é noite".

Mas o importante é que cheguei em casa às 23h40. Não era nem de perto o que eu tinha em mente para essa quinta-feira idiota de uma semana cujo fim não vem nunca, emendada de um fim de semana com plantão estafante de 9 horas seguidas por dia. Não é o cansaço do plantão. É o cansaço da falta de pausa.

Mas aí chego e vejo a testemunha. A única que está em casa me fazendo companhia. Colada na cantoneira do armário da cozinha, perigosamente perto do arsenal de bebidas que trava uma guerra fria com meu fígado. Com seus olhos avermelhados parece dominar toda a cozinha. Suas asas imensas, pretas, não sabem fechar com o charme das de uma borboleta. Ficam ali, abertas, exibindo a envergadura ameaçadora, imóveis. No começo não vi a patalosa.

Desde o meio da tarde havia decidido: cozinharia as três sobrecoxas de frango que comprei na feira de terça. Frango fresquinho, muito bom. Pois passaram-se duas noites e nada de eu cozinhar. Era hoje.

De onde eu estou, a patalosa me vê de canto de olho. Eu quase esqueço dela, mas de repente sinto essa coceira no calcanhar, certamente causada por algum fio da meia, e logo me vem aquele corpo peludo, gigante - é quase um mamífero.

No trabalho, além do trabalho normal, aquelas demandas de última hora. Acabei me fodendo: em vez de sair entre 20h30 e 21h, como de costume, lá fiquei eu até bem passadas as 23h. O frango em mente, mas já me desiludindo. Como preparar as sobrecoxas sem deixar a casa inteira cheirando? E o ânimo de fritar alho e cebola a essa hora? Se nem para aceitar um convite para noitada jet set eu tive vontade, imagine pelar uma sobrecoxa. Mas, mãos à obra. Só que de terça a quinta é tempo o bastante para a sobrecoxa começar a cheirar. E um cheiro meio ruim, confesso; perdi o tesão. Guardei panela, guardei alho e cebola intocados e toca preparar uma saladinha.

De repente a vejo. Não sei ainda o que fazer. Tentei pensar em coisas bem horríveis, em maldades do mundo, em oportunidades de emprego que surgem, nos levam a pedir aumentos em nossos empregos atuais para depois nos negarem a vaga que já era certa. Pensei em virgindade, pensei em vício, pensei em fraqueza, em fraude, em frustração, em pobreza. Apelei para relações familiares complicadas, para amigos de quem sentirei muita falta e que, no espaço de dois meses, vão partir - 1 para o Japão, 1 para a Alemanha e 2 para a Holanda. Pensei na crise - ok, aí comecei a me descongelar mãos e pés e pude abrir a geladeira e pegar os elementos-salada - e no desemprego, pensei que era um péssimo momento para trocar de emprego anyway, em concurso público. E consumo de energia, e Carmen Miranda, e murmurei o samba, enrolei o pé na passadeira. Quando dei por mim, tinha feito a salada.

Na hora do sal, me aproximei e, com o canto do olhos, vi a patalosa. De novo o frio na barriga, o pequeno golpe de desespero. Não sei o que fazer, sinceramente. Abandonei a salada temperada para murchar sozinha em cima da pia. A dúvida é se faço um miojo, se como só salada e frutas... Mentira! A dúvida é se entro de novo na cozinha. Eu gosto de saber o que fazer em ocasiões assim. Acho que parte do que sou é esse ser que sempre sabe o que fazer, e que sempre se oferece para ajudar. Troco pneus e detecto problemas em carros, cozinho, passo, lavo, esfrego, desinfeto, passeio, dou itinerários de ônibus, de carro e a pé. Tenho uma agenda de telefones com nomes e números de todo mundo que conheci desde 2001. Residenciais e celulares. Até mesmo os números antigos eu mantenho. Quando me ligam pedindo, eu tenho.

Mato baratas, ratos, formigas. Acompanho viagens de guincho. Dicas de turismo, mudanças, companhia em shopping, melhores ofertas de móveis, eletrodomésticos e roupas.

E de repente, a patalosa. Símbolo maior da frustração que é não saber 1. a que veio 2. aonde vai 3. como vai 4. como está conseguindo ir.

O pior é que minha avó saberia o que fazer. Essa imensa mariposa preta não pode estragar o pouco de bom que ainda tem no mundo, no dia, na noite, na madrugada.

O Caetano está cantando.

O cuco parou.

Não sei consertar relógios.

postado por: guilherme Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
Palpites pelo mundo:





De Mel
Mind the Gap
Em Preto e Branco
Torre de Papel
Poluição d'Idéias
suco
Tabacaria
La vie en rose
Retalhos do Mosaico




Atual
Arquivo