Quarta-feira

Parece, e é, completamente idiota e óbvio. Mas atravessando a Henrique Schaumann hoje me veio uma coisa na cabeça: temos potencial e vontade para ser tanta, tanta coisa. É até injusto que o meio em que estamos nos conduza tanto para o que seremos afinal.

Como uma sementa jogada no solo fértil ou infértil. Pode ser uma planta estúpida e medíocre, ou uma planta legal pacas. E que culpa tinha a semente?

postado por: guilherme Quarta-feira, Setembro 26, 2007
Palpites pelo mundo:



Sexta-feira

Mozart compôs sei eu quando o seu concerto nº21 para piano e orquestra.

Mal imaginava este senhor o que estava causando então. Escute o concerto clicando aqui.

E venha junto comigo nessa loucura absurda:

No primeiro movimento, você vai sentir o desejo quase incontrolável de espancar alguém. Bater mesmo, com vontade, estilo laranja mecânica ou coisa pior. Ontem eu estava pensando, antes de me deitar na cama, que o melhor objeto para se espancar alguém seria um taco de baseball feito de fibra de carbono. Mas, não. Melhor seria aço escovado, mais pesado, mais duro, mais contundente. Que bobagem, meus amigos, que bobagem. Finalmente Mozart me acendeu os olhos e, já na cama, decidi: o melhor seria um osso, um fêmur amarelado desses que se vêem nas catacumbas de Paris ou na capela dos ossos de Évora. Alguém aí viu o filme "Mamãe é de morte", do John Waters? Pois se viram, peguem aquela cena em que a atriz espanca a senhorinha até a morte com um pernil de porco.

Por mais cruel que possa parecer, é importante que o espancamento seja lento e que desfigure o espancado pouco a pouco. Com ou sem seu consentimento, isso não importa. O importante é que o ato de espancar com esse objeto contundente dure por volta de doze minutos, com intervalos nos adagios da música e com fúria nos stacatos do piano, se é que existem stacatos no piano.

No último quarto do movimento, a melodia se suaviza visìvelmente e o piano, antes bruto, acaricia. Da mesma maneira far-se-á com o objeto contundente, acariciando o corpo já desfalecido para depois ir pressionando aos poucos as regiões mais machucadas. Termina, claro, com o último golpe na cabeça, o esmigalhar do crânio, o som surdo.

Segundo movimento: é bem mais lento e suave. Até ontem eu pensava que seria o movimento dos golpes com objeto perfuro-contundente - um cutelo, talvez. Não, melhor uma faca afiada e o som delicado de pulmões perfurados, pleura rasgada. Mas ontem à noite foi o momento da revelação: eu havia visto no começo da semana num box pequenino dentro da revista Wish Report ("dedicada a um público que conhece as melhores coisas da vida", nas palavras do JR Duran) uma foto do Johnny Luxo nu, sentado numa cadeirinha de madeira, com as pernas fechadinhas, inteiro amarrado com algum fio. Esse é o movimento. A dança não é mais que um corpo humano sendo enlaçado por um fio qualquer, nem tão grosso a ponto de tapar a pele, nem tão fino a ponto de cortá-la e nela desaparecer. A pressão na medida certa, a ligeira gangrena. Bem devagar, o corpo se enrola, se espreme, pele que avermelha, empalidece e depois escurece, roxa, azul. A boca tapada com uma mordaça. Cada vez mais alta a música; a cordinha vai subindo, apertando tórax, chegando no pescoço, que evita até o final do movimento. Ainda não sei se quem dança é o corpo ou se quem dança é a pessoa que amarra. Termina o movimento, pescoço esmagado com toda a força, último suspiro.

Terceiro movimento: aqui não há dúvidas. Nunca pestanejei, nem ontem nem antes. Desde sempre esse foi o movimento da queda. A pessoa é empurrada bem no começo e cai durante os sete minutos do movimento. Começa em queda livre, mas logo vai batendo nas pedras do barranco e quicando, dá saltos, rodopios, destroça-se aos pouquinhos. Nos momentos mais improváveis, minha imaginação alimentada com Mozart faz a pessoa quase conseguir se agarrar numa aresta, mas ela escorrega, fica por um dedo... e cai de novo, de novo, de novo. O céu infinito e um ponto de vista que acompanha a queda dão a impressão de imobilidade quando a queda é mais acentuada. Esfola-se, perde a forma, rola e rola agora o tempo todo em contato com o solo pedregoso; levanta um pó animal, diminui o ritmo, acelera, vai rolando. D'um salto repentino, a massa arredondada que já foi um corpo cai num mar calmo. Silêncio.

Antes gostava mais do primeiro movimento. Me parecia violência mais pura, mais gostosa. Hoje eu mudei de idéia. O segundo movimento é muito melhor, muito mais delicado e mais sofisticado. Ouvindo aqui a música pela enésima vez, estou decidindo que primeiro o corpo, suspenso no teto, gira e se enrola no fio. Mas depois, amigos, depois sou eu mesmo quem aperto, giro, danço, rodopio em torno do que já é quase um casulo e estrangulo. Esse é o melhor, sem dúvida.

E depois falam de vídeo-games. Tolos, tolos. Mozart, crianças, Mozart.

***
Num dia mais tranqüilo conto o que me dá quando eu escuto a Cavalgada das Valquírias. Hahaha, era uma piada!

***
Comentando sobre isso com um amigo, ele disse uma frase ótima: a música é boa quando nos provoca algo. Ainda que seja o indizível; o quase impraticável.

postado por: guilherme Sexta-feira, Setembro 21, 2007
Palpites pelo mundo:



Quinta-feira

A grande graça de um blog, se comparado a um diário de papel, é que o blog realiza aquilo que eu acredito seja o desejo secreto de todos que mantêm um diário: que as intimidades sejam roubadas e lidas.

Isso aqui hoje em dia se parece mais com um diário do que com um blog pròpriamente dito. Só eu leio mesmo. Mas vamos a ele.

Acabei saindo do fundo do poço e conseguindo me livrar um pouco da lama. Mas sempre fica esse cheiro de bosta.

Na terça-feira foi o começo de despedidas. Uma amiga nova vai-se pra minha terra querida, pra minha Espanha. Preciso municiá-la de informação afetiva, que é o que eu mais tenho dali.

Aliás, por falar em terra querida espanhola, no domingo passado (além da história mais maluca que minha família jamais viveu, de uma festa de aniversário dupla e de uma ressaca por ter chegado às 7h da manhã em casa, estando em festas de aniversário e reencontros de turmas desde às 14h do sábado) eu fui beber a provável aprovação do novo colega de firma na prova da OAB.

É aquele que trouxe consigo um pedacinho da Espanha em forma de mulher amada.

Pois a mulher amada é bárbara. Por insistência do companheiro, ela começou a falar em espanhol comigo. No começo foi meio difícil, precisava reacender aquele pedaço do cérebro já adormecido. Mas com umas cachacinhas, hum, e com o bom papo sobre política, história e televisão espanholas, o espanhol voltou. Até fui elogiado no meu sotaque e ligeireza de fala - como nos velhos tempos, nos tempos da felicidade eterna.

Olha só! Acabei de descobrir por que não me desvencilho da Espanha. Eu sabia que não era eterno; mas vivi como se fosse infinito enquanto durou.

É, negada. Perdi a hora de passar dessa pra melhor.

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Adivinhem com quem vou comer sanduíche de mortadela no sábado??? Com Ela, claro.

postado por: guilherme Quinta-feira, Setembro 20, 2007
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Dá a impressão de que só eu faço concessões às vezes. Claro, talvez os afazeres cotidianos de todo mundo sejam melhores que os meus, ou mais importantes.

Às vezes dá no saco.

postado por: guilherme Terça-feira, Setembro 18, 2007
Palpites pelo mundo:



Quinta-feira

Do fundo do poço e tirando a lama de cima, vêm as notícias:

No último sábado, no meio do feriado em que a promessa de viagem pr'um lugar melhor não se cumpriu, fui almoçar com Ela. Fomos, na verdade, um grupinho pequeno. Foi absurdamente bárbaro e assombroso. Primeiro que A peguei na cada d'Ela, pus no carro, levei até o Gato Que Ri. Tomamos eu uísque ela caipirinha, depois comemos, falamos de festas do boi no norte do país, do rodeio de Barretos, do Carnaval. De televisão, música. E tudo sem gravar, só por conversar e conviver.

Agora, detalhezinho: ontem foi Ela quem me telefonou. Pela primeira vez eu vi no meu celular "Ela chamando". Amanhã vamos gravar uma entrevistinha sobre cinema.

***
Esse é só uma pequena parte d'um fim-de-semana alcoólico ao extremo. Na quinta eu achei que estaria já a caminho da cidade maravilhosa, mas deu errado. Acabei indo ao cinema e bebendo só um cafèzinho. Vi Santiago, mas pra sempre esse filme vai estar associado a outras coisas. Que saco! Sexta acordei tarde, estive com meus pais e resolvemos ir comer fora. Tomamos o golpe de whisky habitual antes de sair, e lá no restô alemão aqueles canecões de chopp com salsicha e bisteca em pedacinhos.

Aí começou o negócio: na volta, em casa, eu e mamãe bebemos whisky com o meu licorzinho francês, o Chartreuse. Bebi tanto que caí dormindo na cama, das 19h30 até as 23h30. Merda. Perdi o compromisso que tinha marcado com um amigo.

Sábado vocês já tiveram a primeira parte da farra gastronômica com Ela. Depois eu fui até os cantos mais escondidos da cidade buscar aquela que não apenas não pôde me receber na cidade maravilhosa como tampouco pôde ficar por lá no feriado. Fomos jantar, mas não tínhamos fome (os dois comêramos feijoada). Então façamos hora! Fomos ao meu café, eu tomei uns whiskinhos mais. Aí sim, o restaurante.

Eu juro que insisti pra que fosse o Terraço Itália. Ela que negou, a sem-graça. Mas os motivos eram bons. Daí acabamos indo numa cantina aqui em Pinheiros mesmo, sem fome nenhuma. Pedimos antepasto e os cardápios. Ligamos pr'outra amiga, de quem nos lembramos e estivemos ali por muito tempo, só picando o pãozinho com sardella e tomando nosso vinhinho italiano. Passava já das 23h quando pedimos de novo o cardápio para escolher o nosso jantar! E, claro, fomos os últimos a sair da cantina, que já estava com metade das lâmpadas apagadas.

Esticamos a noite nós dois no Fran's Café, onde, pasmem, a dose de whisky não é ruim e tem preço super razoável. De lá saímos às 4h da manhã, um absurdo!

Pra depois, no domingo em família, eu, papai e mamãe esvaziarmos mais de um litro de whisky na casa do meu avô. Assim, coisa básica, antes do almoço, picando uns embutidos com pãozinho. E o almoço foi a reunião de muitos restos de coisas - inclusive daquele macarrão com vôngole do sábado.

Nossa, quanta coisa acabei falando! É que foi um feriado bom, bem bom, antes da semana negra (que, ainda bem, começou a clarear).

***
Abri essa merda de blog pra escrever sobre a viagem no tempo que eu fiz ontem. É um negócio mágico! Todos os dias pego um ônibus que sobe a Rebouças. E sempre ficava parado naquela fila imensa de ônibus, todos entupidos no corredor logo antes do cruzamento com a Fairy Lime. Pois ant'ontem eu decidi que aquilo era impossível e insuportável: desci do ônibus no ponto do Eldorado e fui, passo normal, andando pela calçada.

Ultrapassei uns doze ônibus. Doze. Saindo à mesma hora, cheguei no trabalho mais de quinze minutos antes!

E ontem resolvi marcar um ônibus qualquer que passasse pelo ponto antes d'eu conseguir chegar lá para apanhá-lo. Fui até o ponto, peguei um qualquer e repeti a técnica. Não é que eu ultrapassei aquele ônibus que eu vira passar e que não pude pegar? Ou seja, eu cheguei antes do que se tivesse chegado antes! Máquina do tempo!

Hoje deu errado. Eu desci no tal ponto e, quando olhei o corredor de ônibus... estava vazio. Dei meia-volta, entrei no ônibus que vinha atrás do meu e, ufa, só perdi uns minutinhos.

***
Na terça fui a uma festa de aniversário. Aquilo foi importante, tem que ver. Ali começou a subida pra fora do poço.

postado por: guilherme Quinta-feira, Setembro 13, 2007
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

Fim de semana agitado. Não só o fim de semana, como o fim da semana passada. Muitas emoções.

Na quinta, bebedeira no meu café de sempre.

No sábado, churrasco com uma turma com que eu costumava me reunir mais de uma vez por semana em 2005, e que eu abandonei por completo desde a volta da Espanha.

É tão gostoso rever algumas pessoas, sentir o carinho que temos por elas e que elas têm por nós...

E ontem, domingão, mamãe chegou de Portugal. Tinha ido pra lá como quem vai pra Praia Grande, meio de sopetão. Três semanas depois, voltou. A cena foi ótima: abre a porta lá e ela sai empurrando um carrinho com a rodinha quebrada e carregado com 27 litros de uísque.

Cada um tem a família que merece, né?

Agora recomeça a semana, com a vontade agridoce de estar sozinho e tranqüilo, mais a insegurança de se saber vivo.

***
Ah, esquecia já de comentar sobre o jantar com Ela na quarta-feira. Fui ao tal lançamento, vi dezenas de pessoas indo até ela e pedindo praticamente a bênção - digamos que Ela roubou a cena na festa. Brilhou mais que o autor e que o livro.

Maior honra pra mim não houve: fomos jantar juntos depois, eu, Ela, o sobrinho e o empresário. Só que eu me animei tanto que resolvi pagar a conta - uma gentileza, quase uma retribuição depois de tantas contas pagas por ele.

Mas tinha que ser bem no fim-do-mês? E justo no dia em que pedimos pintado na brasa? Ai ai ai.

postado por: guilherme Segunda-feira, Setembro 03, 2007
Palpites pelo mundo:





De Mel
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Tabacaria
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