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Quinta-feira
Sentimento de culpa nenhum. Nessa semana minhas lembranças estão nubladas por uma nuvem de álcool (neurônios boiando). A amiga que veio agora, que está aqui em Madrid e com quem eu posso passar pouco tempo por dia (porque alguém tem que sustentar esse continente, e em euros é mais difícil) trouxe na bagagem, além de carinhos, lembranças e cigarros, um outro amigo.
Bom, era um desconhecido meu. Agora virou "chapa", "truta". Espero não perder esse contato.
***
E ansiedade, ansiedade! Amanhã, ou seja, em 28 horas, sai o meu vôo para a Suíça. Zurich, prepare-se! Você nunca mais será a mesma depois da minha passagem por aí!
Pobre da minha aluna. Quem mandou me convidar? Agora vai ter que me aturar um final de semana inteiro!
Ah, e um segredo (que eu estou atrasado e tenho que ir correndo): vamos pegar um trem pra ir pra estação de trem mais alta do mundo. Eu amo trens. Está voltando essa paixão irracional!
postado por: guilherme Quinta-feira, Novembro 30, 2006
Palpites pelo mundo:
Quarta-feira
Alguém vive sem sentimento de culpa? Que mundo, que mundo! Se você bebe coloca em risco a sua vida e a de outras pessoas ao se comportar de maneira estúpida em situações que exigem reflexos e agilidade motora. Atravessar uma rua, saltar o vão entre o trem e a plataforma, dirigir, tomar um elevador.
Ah, você não bebe. Mas você come? Sabia que muitos alimentos (suspeito que todos eles) favorecem o surgimento de tumores? Comer é cancerígeno. Isso sem contar que você precisa evitar a obesidade, precisa evitar o colesterol, os açúcares; precisa balancear sódio e potássio, precisa ingerir vitaminas em quantidades razoáveis (em excesso a C, por exemplo, pode sobrecarregar os rins). Sem contar as gorduras trans. Não sei se por essas terras se fala em gorduras trans, mas por aqui são as vilãs da vez. Eu sempre fui apologista da manteiga em detrimento da margarina, mas ninguém me ouvia. Por fim a verdade veio à tona. Mas o problema é o tom apocalíptico: os cruasans do meu café da manhã dominical matam. E todos os salgadinhos, e as frituras industriais, senhor.
Ok, você é vegetariano convicto, só come verduras cruas, mede toda a alimentação e se sente realizado por ter a melhor dieta do mundo. Também não bebe, que não precisa disso (quem precisa de uma bebidinha quando se tem uma cenoura, um salsão ou um nabo!). Mas você anda de carro? E o efeito estufa? você toma banho com chuveiro elétrico? Precisamos economizar energia. Você toma banho? A água é um recurso escasso. Seu chuveiro é a gás? Um combustível fóssil, meu Deus, que atraso. Precisamos de energias renováveis, precisamos aumentar as reservas internas do país, economizar água, economizar eletricidade, economizar nossos próprios corpos, manter-nos saudáveis, dormir bem, comer direito, não beber, não fumar.
Fumar. Chegamos ao ponto que eu queria. Se depois de todos esses complexos de culpa não me deixarem fumar um cigarro, ora, por favor. É muita maldade. Mas vocês acreditam que até nisso se metem? Olhem só o recado que eu recebo quase diariamente naquele site de relacionamentos:
"Gostaria de se ver livre do cigarro?
Fumenol - O fim da sua dependência nicótica.
Parar de fumar agora é mais fácil que tirar doce de criança.
Deixe de fumar sem crises de abstinência ou engordar..."
Dependência nicótica; mais fácil que tirar doce de criança; não engorda! Não engorda! Pelo menos não tem essa hipocrisia do câncer de pulmão - as pessoas têm medo mesmo é de engordar e ficar velhas e feias. Aparência não é tudo, claro. Mas é quase.
Qualquer dia eu escrevo sobre a pressão que os homens sofremos, de todos os lados, para que atinjamos a ereção perfeita e , se não eterna, infinita enquanto dure.
***
Consideração do dia feita, vamos ao que importa: ontem chegou a outra amiga que veio de passeio à Europa e, claro, não pôde deixar de vir a Madrid. Está alojada, segundo minhas novas recomendações, na pensão da Sra. Anuncia. É a pensão onde ficaram os dois brasileiros quando chegaram aqui, os colegas da USP. Pois ela e o marido se lembraram de mim e reiteradamente agradeceram a recomendação da hospedagem.
E fomos, à noite, fazer o meu famoso tour pela cidade. Claro, a versão reduzida: bacalhau, jerez e só. Uma bebedeira terrível. Me deitei às 2h15 da manhã. E acordei às 7h, às 7h10, às 7h20 e de dez em dez minutos até as 8h, quando, com vergonha na cara, saí correndo pra tomar banho.
Mas isso não importa, ai, como estou distraído. O legal é que hoje, depois de eu trabalhar, vou levar a amiga pra passear mais, e vamos dar uma voltinha de carro na cidade também.
Que gostoso é ocupar todos os espacinhos livres entre as muitas aulas que eu tenho que dar esses dias.
postado por: guilherme Quarta-feira, Novembro 29, 2006
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
Quatro anos; aprendeu a ler sozinho porque queria aprender português. Quando tinha 3!
Adora trens. Passei uma hora e meia sentado no chão construindo um ferrorama e indicando vagões, janelas, passageiros e locomotiva.
Semana que vem vamos pintar animaizinhos!
postado por: guilherme Segunda-feira, Novembro 27, 2006
Palpites pelo mundo:
Domingo
- Você parece um gato, sabia?
- Eu? Gato? Imagina! Sempre me achei mais parecido com um cachorro.
- Cachorro nada; é gato.
- Será porque ronrono assim...
E ronronou no ouvido dela, os dois enrolados em lençóis e camas.
- Não. É porque se apega mais aos lugares que às pessoas.
Será possível?
postado por: guilherme Domingo, Novembro 26, 2006
Palpites pelo mundo:
Sexta-feira
Me enfiei no locutório nojento de novo, só por uns minutos, só pra ver se tinha emails.
Tinha. Isso alegrou meu dia um pouco. É que cancelaram outra aula hoje, que porcaria. E cada vez que me cancelam uma aula surgem dois personagens: o professor e o avarento.
O professor pensa que o aluno vai ficar muito tempo sem português; o avarento, que o aluguel vai ficar mais caro no final do mês.
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E o que importa tudo isso? Estou é com saudades.
postado por: guilherme Sexta-feira, Novembro 24, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
E então ele pergunta pro outro como é estar apaixonado só por uma pessoa de cada vez.
O outro ri e acaba não respondendo. Mas a pergunta é séria! Faz já uns anos que ele não sabe como é; o coração está sempre dividido. E não é esse amor fácil, esse amor que a gente vai levando, isso que alguns chamam de amizade, não, não. Esse amor também ataca o coração, é pior que colesterol, pior que hambúrgueres tamanho XXG do Burger King, mas não é desse amor amigo que estamos falando. (e que o Llosa chamou de "amizade até o tutano", uma imagem tão feia como a minha "amizade visceral")
Estamos falando, bem, ele está falando do amor que rasga, do amor ciumento, do amor sofrido.
Ou seja, do mais divertido deles!
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E ontem eu fui de novo ao bar de Jerez buscar a garrafa. Mas fui com minha aluna, e aproveitamos para tomar quatro tacinhas do vinhozinho. Plena quarta-feira.
Isso sim é vida mansa.
E olha que ontem a minha dúvida, em casa, era se lia antes o Vargas Llosa e via o noticiário depois ou se via antes um seriado enlatado e lia durante as notícias. Ou seja, planos mais de engorda de gado que de vida no estrangeiro.
***
Surpresa da noite: começaram a acender as luzes de Natal espalhadas pelas ruas do centro da cidade. Por enquanto estão fazendo provas. Em alguns dias todas estarão acesas e vai correr um rio de lágrimas dos meus olhos.
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Surpresa do dia: o youtube. Ok, eu sei que sempre vou a reboque dos outros, que nunca sei dessas tecnologias, que sempre anuncio essas coisas como se fossem a maior novidade do mundo e todo mundo já mais que conhece.
Eu já conhecia, tá? Eu sou moderno e estou antenado com as coisas que estão rolando no momento, o que tá pegando, o que vai na crista da onda.
Coisa de gente prá-frentex, como eu.
Mas hoje o que eu descobri foi incrível, maravilhoso. Procurando um vídeo da Simone (que está cantando aqui que o que não tem juízo nem nunca terá, o que será que será) encontrei a póprrria cantando A Cigarra com o Milton. Imagens dela cantando! E logo encontrei ela cantando com a Elizeth Cardoso o Barracão de Zinco.
Vocês ouviram? A Elizeth Cardoso, o vídeo, ela em movimento. Que mulher, que dama, e que voz.
E assim fui, seguindo as sugestões do site comprado pelo google por uma cifra incalculável, passando de Simone a Milton, de Milton a Chico, de Chico a Caetano, de Caetano a Bethânea, de Bethânea a Chacrinha, a blitz, a Marisa Monte, a Novos Baianos. Perdi mais de uma hora prazerosíssima diante do computador da faculdade com meus fones de ouvido autistas. E valeu a pena.
***
Por falar em fones de ouvido, bem lembrado. Desde que cheguei aqui queria fazer um comentário sobre os fones de ouvido. Deve ser coisas dessa geração iPod. Por aqui todo mundo anda, nos trens, metrôs, ônibus e pelas ruas, com fonezinhos de ouvido. Todo mundo é exagero, mas muita gente sim senhor.
E o que mais me assombra: os jovens, quando saem em bandos para supostamente se divertir, também vão com essas coisas postas. E não é compartilhando os fones como nós, da minha geração fita K7 (que se escreve assim mesmo, K7) fazíamos nas excursões do colégio com a viação Manzalli. Cada um leva seu par de fones postos.
Até mesmo namorados, se beijando, se abraçando, namorando cada um com sua trilha sonora.
É autista ou não é a sociedade? Onde foi que erraram todas essas mães? E os hambúrgueres, a obesidade infantil, o sedentarismo (eu sou anti-esporte, mas não sou sedentário: da minha casa até o bar de Jerez é uma bela caminhada!), esses Play Station Portable, esses celulares com MP3 e televisão embutidos?
Onde vai parar o mundo, pergunto eu.
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E o coração dessangrando, dessangrando. Também, tantas emoções na última semana, pff.
postado por: guilherme Quinta-feira, Novembro 23, 2006
Palpites pelo mundo:
Quarta-feira
E o que a gente faz quando se desespera? Pois vai tomar um vinhozinho, comer umas azeitonas que tudo passa.
Ontem o dia foi bastante grande, é verdade: aulas na faculdade de manhã, à tarde aula na empresa, depois duas particulares na seqüência. E passei o dia inteiro comendo uma banana e duas barrinhas de cereais da Kellogs.
Aliás, pausa para explicação. Eu sempre disse que uma barra de cereais me provocaria um revertério fatal dada a sua alta dose de saúde. Mas, como a cavalo dado não se olham os dentes, estou comendo pouco a pouco as 10 barrinhas que a minha aluna da sexta-feira me presenteou. É que ela começou a trabalhar na Kellogs e ganhou uma tonelada de cereais. Nas próximas semanas virá o Choco Krispies - a única fraqueza que eu carrego da infância, além do amor pela minha avó.
Saí do metrô cansadíssimo e não fui para casa. Queria passar por um bar de Jerez para pegar a garrafa que eu tinha encomendado. Não estava pronta. Ora, não ia perder a viagem: pedi ali uma tacinha e comecei a conversar em inglês com um dinamarquês que estava em Madrid na sétima Conferência Mundial do Vinho de Madrid (a conferência é de Madrid, não o vinho). Sua vida é provar vinhos, conhecer países, combinar vinhos com alimentos, descobrir cepas exclusivas.
What a Life!
No meio do meu moment of joy o telefone toca. Que surpresa, senhores, era a minha chefe! Eram 22h30. Eu ainda estava na primeira tacinha (de duas) e pensando em como sentiria falta de passar por um bar lindo daqueles num dia de semana antes de ir pra casa. A chefe diz que tem um novo trabalho: aulas para um menino de quatro anos de idade.
Claro que eu topei. Mas esse vai ser o maior desafio da minha vida!
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A janta em casa foi excessiva, como sempre é depois de muitas horas com fome. Feijão branco com tomate, cebola, arroz e choriço, tudo bem cozido e, pra dar liga e ficar em ponto de papa, um ovo quebrado em cima da sopa e rapidamente misturado. Uma delícia!
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Já falei um pouco sobre comunicação escrita, comunicação por telefone. Esqueci de dizer uma coisa. Uma conversa telefônica é um registro temporário e fugaz. As memórias de emissor e receptor traem seus donos e amenizam ou agravam comentários feitos num passado, quando não simplesmente apagam esses comentários e inclusive os registros das conversas.
Mas uma carta ou um email não. E o melhor é quando essa carta ou esse email é escrito com pressa, no calor de um momento, no afã de compartilhar um sentimento forte, ou uma decisão. Pronto. É uma instantânea (se diz isso em português?) definitiva e absolutamente fiável de um instante. É a testemunha de quem você, emissor, foi naquele segundo.
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Adeus batucada, adeus batucada querida.
postado por: guilherme Quarta-feira, Novembro 22, 2006
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
E o blogger parou de funcionar. Quer dizer, ver meu blog na internet agora é impossível e ninguém está lendo isso que eu escrevo.
O importante é que eu estou fudido e mal pago: Fazendo uma projeção dos meses de novembro e dezembro o resultado é desastroso para as economias.
Melhor parar de viver bem e de curtir a cidade. Adeus bares, adeus jazz, adeus boêmia.
E bem vindo seja ao menu oficial o saborosíssimo macarrão de atum, esse da vida inteira.
postado por: guilherme Segunda-feira, Novembro 20, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
No mundo moderno as pessoas se comunicam de três maneiras:
Uma é pessoalmente. Na verdade, a única é pessoalmente (isso se admitirmos que existe a comunicação de fato entre duas pessoas; eu confesso que sim, além de acreditar no Estado, eu também acredito na comunicação).
A outra seria por telefone (ou seja, apenas voz) e a última por escrito.
Estar longe de pessoas com quem eu costumava me comunicar pessoalmente me fez provar sensações novas com os outros dois meios, o escrito e o telefoneado. E acabei chegando a algumas conclusões.
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Escrever é mais fácil. É fácil e ao mesmo tempo é perigoso, mas é muito cômodo. Você se senta diante do computador (ou diante de uma mesinha com uma folha de papele uma caneta, isso dá exatamente na mesma) e escreve uma mensagem, curta ou longa, expondo seus sentimentos em relação ao destinatário, contando-lhe alguns aspectos curiosos do seu dia-a-dia, alguma anedota, se for o caso alguma aflição. E logo pergunta sobre os sentimentos do destinatário, suas aflições, seu cotidiano; se for o caso, comenta algumas passagens da última missiva, dando sugestões e cobrando uma atualização da história.
Que as vidas são todas histórias, como livros, que vão sendo escritos e contados. Quando uma pessoa morre, todos nós ficamos sem saber o que aconteceria naquele livro. E, pior, ela deixa de fazer parte das nossas tramas, e, talvez mais trágico ainda, ela nunca saberá mais nada acerca da vida de nenhum de nós que continuamos vivos.
Voltando à carta (ou e-mail): a facilidade dessa comunicação, e por isso mesmo seu ponto frágil, é que não temos à disposição a reação imediata do destinatário. Quando falamos pessoalmente vemos uma mudança de fisionomia e mudamos o rumo da conversa; pelo telefone, há o tom de voz que nos ajuda a seguir outro rumo. Por carta, nada. É impossível. Dizemos tudo o que pensamos da maneira como pensamos e de uma só vez; o destinatário não tem tempo de argumentar. E faz isso só depois, quando pode já não ter solução e quando tenhamos já metido os pés pelas mãos e estropeado uma relação bonita.
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Telefone: como já mencionei na parte dedicada às cartas, a conversa telefônica dá a oportunidade ao destinatário das nossas mensagens de se manifestar enquanto escuta nosso discurso. Isso quer dizer que tem mais poder de alterar o discurso do emissor, e nós, emissores compulsivos, podemos tomar mais cuidado, medir palavras ou mudar o rumo da argumentação.
Normalmente uma conversa telefônica funciona da seguinte maneira (pelo menos as conversas telefônicas que uma pessoa distante recebe depois de muitos meses em "silêncio"): primeiro o "alô" na língua do país onde a pessoa distante está morando. Embora ela saiba que quem liga liga desde o país de origem, dizer "Hola", ou "Hello", ou "Hallo", ou "Da" é melhor, acrescenta ao folclore e anima a pessoa que telefona a telefonar mais vezes.
É a maneira mais fácil de alegrar quem telefona: deixar bem claro que não esperava a ligação e que ela está realmente falando por telefone com um país estrangeiro.
Depois, o momento surpresa e o reconhecimento da voz. Quem liga espera uma grande felicidade por parte de quem recebe a ligação. Normalmente não é necessário nenhum esforço aqui, a felicidade existe. É realmente um momendo de dita, que o responsável pela ligação aproveita para elogiar e exaltar o receptor da chamada.
Então, aproveitando o gancho da tradicional pergunta, feita ainda na fase da dita, o famoso "coméquicêtá?" entre risos, o receptor da ligação telefônica (no caso do estudo, o emissor de informações) começa a contar ao seu pobre destinatário muitas e muitas coisas, seu dia a dia, suas últimas histórias, seus detalhes, suas façanhas, suas angústias.
E no momento das angústias, quando entre elas se conta a saudade das pessoas queridas, o emissor de informações se dá conta de que a pessoa que fez a ligação também pode ter coisas para contar. E então, nessa fase já final da ligação, pergunta rapidamente sobre as novidades dessa pessoa, sobre amigos em comum, comenta algum caso anterior.
No final da ligação, geralmente cortada por questões orçamentárias, as duas partes se elogiam mutuamente, exaltam a relação existente entre elas e desligam com o coração mais leve. E só então quem recebeu a ligação de surpresa se dá conta de tantos sentimentos que não foram compartilhados, tantas coisas que você sempre quis dizer praquela pessoa e nunca disse. Mas a ligação telefônica já acabou.
Não é assim?
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Agora façamos um exercício retórico. Eu recebo uma ligação telefônica defeituosa - sim, existem falhas na comunicação de ordem técnica - e, seguindo os passos explicados acima, a ligação se corta ainda na primeira fase, a da dita. Em poucos segundos, outra ligação e nova fase da dita. Novos problemas técnicos.
A chamada é adiada em meia hora. E esse é o problema. Quando uma pessoa liga e avisa que ligará em meia hora o que é que você faz? Você pensa no que vai dizer. E você pensa nessa pessoa, e sabe o que vai fazer e sabe o que vai acontecer - no caso, que ela vai ligar.
E ela liga. A dita já passou, você não age mais involuntàriamente. A conversa é um pouco mais calculada. No entanto, embora você esteja dizendo coisas que não diria num momento de dita, o seu interlocutor tem a chance de se manifestar.
Acrescentemos, no entanto, outra falha técnica: digamos que o telefone se transforme em uma estrada de mão única. Ùnicamente as informações do emissor (no caso, eu) chegam até o receptor. Como numa carta. Mas com entonação de voz. E sem chance de se bloquear.
E é então que se dizem coisas com uma sinceridade tremenda.
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Duplas estrelas para me revoltar contra Berna, na Suíça. É uma cidade ilhada. Impossível chegar de avião, impossível chegar de ônibus. Trens, sim. Mas com conexões que não são informadas pela internet.
E revolta contra o messenger também, que nos rouba um tempo enorme que poderia ser empregado na confecção de um bonito e articulado email.
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O dia, hoje, resolveu chover em Madrid. E me esfriar os ossos.
O coração ele não esfria.
postado por: guilherme Quinta-feira, Novembro 16, 2006
Palpites pelo mundo:
Terça-feira
E não é que o primo irlandês deu o ar da graça?
E, sortudo como é, o sol também resolveu passear por Madrid intensamente nesse final de semana supostamente prolongado (eu trabalhei na sexta-feira, assim que nada de prolongamentos aqui).
O que quer dizer uma visita do primo? Quer dizer que na sexta-feira, desde a meia-noite até as 5h da manhã ficamos na rua, de bar em bar, andando pelos meus cantinhos preferidos. Quer dizer que no sábado a bebedeira misturou vermuths, cervejas, vinhos brancos, tintos, vinhos de Jerez, gin tonica. Foi uma senhora bebedeira, dessas que eu gosto.
E o domingo foi só curtindo a ressaca, com sanduichinhos no parque do Retiro.
Agora uma coisa fascinante: acreditem ou não, ele saiu daqui gostando mais de Madrid. Como se fosse possível gostar pouco, não sei o que as pessoas têm que não se apaixonam de cara por aqui. Vejam, ele chegou ao cúmulo de me dizer diversas vezes que Madrid era a grande decepção dele nas viagens pela Europa. Ora, por favor.
***
E a semana já começou, com seus trabalhos, com suas temperaturas baixas pela manhã (2 graus ontem, 4 graus hoje), com altas durante a tarde (18, 20 graus) e com um sol maravilhoso e um céu sempre azul.
Já começo a me despedir desse lugar. Fazendo as contas, me restam poucos dias de ócio por aqui, filhos.
Que nervosismo!
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Por outro lado, é até bom: o meu prédio está desabando. Bom, o prédio não, mas os canos de água sim. São de metal, parece cobre, devem ter 100 anos, um horror. A cada semana é um vazamento novo. Agora nosso cano inunda o apartamento de baixo e o cano do nosso vizinho de cima nos inunda a cozinha e os dois banheiros.
E parece que vai haver reforma. Reforma durante o inverno. Que tal? Todos fechadinhos dentro de casa, o pedreiro, o encanador, o pintor, a mulher da administradora do imóvel.
E justo quando o companheiro de piso vai ao sul sem data pra voltar por motivos familiares e a companheira resolve ir passar uma larga temporada em outras plagas.
Mereço?
postado por: guilherme Terça-feira, Novembro 14, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
Eu bebo sim, estou vivendo
tem gente que não bebe e está morrendo
Hoje é feriado em Madrid, mas não na cidade onde está a minha faculdade.
Ontem eu saí com os meus alunos da empresa, para uma happy hour. Que se transformou numa happy-noite-inteira. Cheguei em casa às 6h30 da manhã.
E agora vem esse remordimento, essa culpa por não ter ido mais uma vez às aulas. Por quê? O sentimento de culpa, digo. Eu sei porque não fui à aula.
Bebida não faz mal a ninguém
água faz mal à saúde
Um brinde! Gin Tônica!
postado por: guilherme Quinta-feira, Novembro 09, 2006
Palpites pelo mundo:
Quarta-feira
Nossa, que saudade que deu.
Na segunda-feira, depois de escrever esse último post, fui pra casa e cozinhei feijão preto. Sim, aqui tem feijão preto, mas ninguém compra e não se vê por todo lado.
E sabem quanto tempo o feijão preto demora pra cozinhar numa panela convencional? Olha, mais de três horas. Que absurdo! Como eu já escrevi, dá tempo de almoçar enquanto o feijão cozinha e ter fome de novo pra quando fica pronto.
Mas deu saudade. O feijão reativou sinapses carinhosas.
E é o que eu preciso, de carinho. Ontem chegou uma mensagem de celular transoceânica pra mim. Um olá ardido, desses que picam a língua. E hoje a caixa de emails também tinha surpresas das que emocionam.
Isso é muito importante quando você está vivendo a melancolia de uma semana com frio e chuva, sofrendo o acosso de sua chefe (ontem eu resolvi olhar as chamadas no telefone celular: tem 20 atendidas e 28 perdidas dela nos últimos dias) que, ao contrário da maioria dos chefes, toma atitudes que prejudicam o meu trabalho, o trabalho dela e os ganhos de nós dois.
No meu currículo eu preciso escrever que eu tenho experiência em lidar com pessoas com distúrbio bipolar do humor que consomem cocaína em doses industriais e vivem em abstinência de algum calmante. É o quadro que melhor explica o comportamento da mulher que está drenando minha saúde.
Ou será o álcool que drena a saúde? Acabou toda a bebida de casa, e isso provoca crise séria em mim. Preciso de umas gotinhas pra relaxar quando chego em casa. Hoje vou à licoreria.
***
Ontem eu não nadei. A preguiça foi maior que eu. Mas já li o Tennessee Williams, li o Becket (que o primo vem da Irlanda agora e eu não podia deixar lição de casa por fazer, né?), estou lendo uns contos ótimos do Millás e planejando atacar um Llosa.
Para não perder o costume, continuo comprando bilhetes de avião. Acrescentem àquela lista de viagens o final de semana de 13 e 14 de janeiro na Irlanda.
"A gente vai levando, a gente vai levando..."
...que também sem um cigarro, sem a cachaça e sem um carinho ninguém segura esse rojão.
postado por: guilherme Quarta-feira, Novembro 08, 2006
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
Que dia mais horroroso, senhor do patrocínio!
Primeiro que tive que acordar muito cedo - o que já não é muita novidade. A diferença é que ontem me rebelei e, em vez de me deitar na cama às 20h30 para às 21h estar dormindo tranqüilamente, fui bater perna. Eu sou assim, não resisto a um chamado para um bar, para um papo, para uma companhia. Ainda mais à noite.
Não sei a que horas eu fui me deitar. Sei que às 23h os dois colegas brasileiros saíram de casa, meio encabulados, preocupados com a minha hora. Eu já tinha desencanado de descansar.
Resultado disso (ou talvez disso mais uma série de fatores): dei uma aula ruim de manhã. Depois fui pra casa, me deu tempo de almoçar porque a aluna das 11h30 cancelou a aula, comi rápido um macarrão e saí atrasado para as aulas da tarde. Saí atrasado porque tive que falar com a chefe no telefone.
E é tanta dor de cabeça que eu gostaria de não ter, tanta, tanta. Preciso ganhar na loteria e parar de trabalhar. Se bem que hoje só de dar uma boa surra na chefe eu ficaria feliz.
Que feio.
Resultado da tarde: não gostei das aulas que dei. Frustração.
***
E o Diazepan vai começar a comer solto: ontem saí, apaixonado de novo, pelas ruas de Madrid. Fui até a Fnac. Só para constar, eu vou andando até a Fnac (alguns leitores aqui já conhecem o trajeto, outros vão conhecer em breve - ui, que emoção), e a rua estava cheia, o tempo estava frio e nublado, mas era um dia lindo.
Entrei na loja querendo comprar Chavela Vargas, algun disco antigo, uma dessas coletâneas mas dela mais jovem. Pois não havia. O que havia sim era uma coletânea do Simon e Garfunkel (eu sou brega, muito brega), outra do Milt Jackson. Comprei Norah Jones.
E Tennessee Williams.
Depressão total.
postado por: guilherme Segunda-feira, Novembro 06, 2006
Palpites pelo mundo:
Sábado
Era uma vez um homem que viva uma fantasia. Era um estereótipo o homem, uma coleção de estereótipos.
Ele tinha frases que gostava de dizer sempre: não durmo à tarde, nunca como porcarias, não gosto de trocar a noite pelo dia, prefiro sopa a frituras, não gosto do calor, não há lugar como o nosso lar.
Estava feliz o homem-estereótipo (vamos chamalo homótipo, para resumir). Era tão convicto de seus próprios estereótipos, e os vivia tão intensamente que um dia, o dia mais feliz da sua vida - ele jamais se esqueceria - uma pessoa lhe disse, plagiando a frase, que ele era uma caricatura de si mesmo.
Homótipo não cabia em si de felicidade. Quase chorava.
Mas os anos se passaram; ele continuou com essa frase na cabeça, além das outras tantas verdades absolutas estereótipas, e foi aumentando sua perversa coleção: não dirigia embriagado, não consumia drogas, nunca maltratara um animal, jamais traía a confiança de um amigo, respeitava as normas (qualquer que fosse), não praticava esportes, preferia viajar por terra a viajar de avião.
Seus estereótipos eram para ele uma prisão. Ao mesmo tempo, eram sua âncora.
Um dia aconteceu o inevitável: um a um, o homótipo se deu conta de que seus estereótipos estavam sendro traídos. Não restava um a salvo, um sequer. Embora soubesse no coração que já não era aquela caricatura, que não era previsível e que sua palavra não tinha nenhum valor, continuava repetindo as mesmas frases e dizendo as mesmas coisas. Homótipo não era mais nada que suas frases agora.
Homótipo desapareceu, sumiu. Se perdeu no mundo, se perdeu no seu próprio mundo, escapou da sua jaula, que agora era de fumaça.
E foi cantar e viver junto com aquele homem que perdeu a carteira.
***
Melancolia, vê se muda de endereço.
postado por: guilherme Sábado, Novembro 04, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
Vida louca vidaaaaaaa!
Não, não estou numa fase Cazuza. Mas é que essa vida é cheia de loucuras. E parece que eu procuro mais e mais.
Ontem foi o feriado aqui. Não hoje, como é aí, e vocês estão fazendo feriado prolongado e indo pra praia em vez de ler essa merda. Aqui foi ontem. E eu acordei às 5h da manhã e fui pra Guadalajara podar árvores.
É, amores, a vida Erasmus tem suas surpresas. Um dos meus alunos precisava de dois ou três homens fortes, viris e atléticos (alguém aí duvida da minha força, virilidade e atletismo?) para podar uma plantação de chopos - uma árvore com a qual se fazem caixas de frutas.
E lá fomos eu e os dois companheiros brasileiros que estavam doidos por um emprego podar as árvores. Guadalajara está a 1 hora de trem de Madrid, e tínhamos que estar lá às 8h. Por isso acordar às 5h.
Eu fui dormir às 0h, que sou responsável. Mas os amigos se encantaram com as celebrações do dia das bruxas e ficaram de festa a madrugada inteira. Conclusão: estavam podres. Mas viram o espetáculo das ruas madrilenhas cheias de brujas, payasos, monstruos, calaveras, calabazas e outras fantasias de horror.
A jornada foi de cinco horas, e o trabalho, muito pesado. Voltamos podres pra casa, eu cheguei às 15h e fiz uma comidinha.
E aí começou o dia. Fui passear com a mãe da Laura (alguém se lembra da Laura, a minha companheira de piso que é ao mesmo tempo a dona do apartamento - quer dizer, pra quem eu pago o aluguel - ?) e compramos postais no museu do Prado, e andamos pelo Paseo del Prado. E a luz, a temperatura, tudo me lembrou os meus primeiros dias na cidade. Ok, me apaixonei de novo.
No final do passeio fomos até a Mallorquina, uma cafeteria/doceria clássica (desde 1890, pra quem gosta de datas) instalada na Porta do Sol. E que lindo momento, eu e a Susana tomando um chocolate quente e olhando a cidade pela janela. Quando parecia que não podia melhorar, quase me vêm as lágrimas - mariachis se instalaram bem debaixo da janela.
Voltei e dormi como uma pedra das 20h às 0h45. Nessa hora acordei, ou acho que acordei, e fui me encontrar.
Acho que foi um sonho, não foi de verdade. Mas sabem que hoje apareceu uma moeda de 1 peso mexicano na minha carteira? E uma dor nas costas insuportável, e nos braços, e no corpo inteiro.
Maldito seja o trabalho: o trabalho faz as pessoas hostis.
Hoje já fui trabalhar, claro, com muita dor, muito sono e com a moleza proporcionada pelo relaxante muscular que comprei na farmácia. É um milagre que eu esteja escrevendo desde aquele locutório nojento de sempre.
E tomei uma decisão: amanhã vou até a imigração espanhola pedir pra ter um número de estrangeiro. Nunca se sabe. Ele demora três meses para ficar pronto, e se algum dia eu volto, pois, já está feito.
Quero me cadastrar na prefeitura também. Quero deixar minha marca por aqui.
Quanta bobagem faz um ser humano. Deve ser aquela história de querer ser eterno, de querer perenizar algumas coisas, alguns momentos...
Daqui a poucos minutos saem dois aviões daqui: um pra Buenos Aires e outro pro México. E meus dias ficam um pouquinho mais vazios.
postado por: guilherme Quinta-feira, Novembro 02, 2006
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