Sexta-feira

O locutório onde eu estou, que tem os teclados ensebados e as letras apagadas, está agora com um cheiro de perfume feminino muito forte. Já espirrei umas três vezes, mas a memória olfativa persiste apesar da rinite atacada.

E a minha memória olfativa me conta que já faz umas duas semanas que Madrid parou de ter cheiro de verão. Madrid estava com um cheiro de verão desde a primavera, desde o final de maio o cheiro de tudo era diferente. E eu não sei explicar como diferente, só sei que era diferente.

Em maio os metrôs cheiraram a suor, aquele cheiro azedo horroroso, insuportável. Era meia-estação, o ar condicionado não estava ligado e já fazia calor; todo mundo ia agasalhado porque na rua fazia frio. E, por conseguinte, cheirava muito mal.

Mas esse cheiro passou no verão, e parece que todos os cheiros passaram no verão. O cheiro do verão é cheiro de nada.

Desde duas semanas atrás (ou três) Madrid voltou a ter os cheiros de quando eu cheguei aqui. Os cheiros invernais de alguns fornos a lenha e parrillas argentinas da calle Tetuán, onde tomei minhas primeiras cervejas em companhia do já falecido amigo do meu pai que me acolheu. Alguns perfumes que passam por mim na rua, mais fortes, menos cítricos, menos doces, me remetem àqueles dias.

O metrô tem esse cheiro, as comidas têm esse cheiro tão típido daquelas lembranças meio distantes agora. E olha que chega a dar saudades dessas lembranças que, olhando bem, eram um pouco torturantes.

E por isso eu me vesti de melancolia hoje. Porque tudo está com esse cheiro de ontem. E minha casa também, o apartamento: tem o mesmo cheiro de cigarro abafado e de roupas amontoadas, um cheiro específico, forte, igual ao que tinha quando eu entrei pela primeira vez e me senti à vontade, e senti que era meu lar. É o mesmo cheiro, e é meu lar mais que nunca, meu abrigo do mundo.

Se eu fosse o homem do tempo, diria a previsão para hoje: "Pancadas de triste vindo pelo oeste, com possibilidades de sorrisos amanhã pela manhã".

Pancadas na cabeça, acho que é disso que eu preciso. Ou meia hora de...

postado por: guilherme Sexta-feira, Setembro 29, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Ardia. Ardo? Arde. Adilooooosoooo....

Delirava mesmo. E no meio do delírio viu onde ela morava, a filha da puta. Parecia um sonho, e era um sonho, embora ardiloso, ou seja, produto do arder, mas sabia agora onde ela morava. Foram meses, anos. O tapete estava quase pronto, não tapete de pisar que ele não fazia tapete de pisar, ardia de ódio quando pisavam o tapete, fazia o tapete de pendurar, pendurado, tapete pra enfeitar, quadro de tapete sem moldura. O tapete era típico daquele nojo burguês do século XIX, quase do século XVIII, quase de 1721, quando foi fundada a fábrica de tapetes. Que mal gosto, pendurar na sala um tapete com a própria cara. E aquela cara estúpida, com aquele maldito olho estúpido, aquele maldito olho verde estúpido como ela toda e como todas as gerações passadas e vindouras (ardia) seriam: estúpidas.

Saiu descontrolado. Fazia muito frio na rua, e ele voltou, voltou correndo e pegou o lençol, meio úmido, meio quente. Fazia calor, na verdade, mas como ele ardia fazia frio, e ele saiu correndo com o lençol no meio da rua, enrolado no lençol, correndo. Correu até o endereço da estúpida. Será que ela não se dava conta de que o tapete não ficava pronto nunca? Não adiantava. Ele fôra à oficina de pintura, dera conselhos, é menos verde, é mais ou menos transparente, é mais água do Caribe que folha de arbusto - água do Caribe é azul - não é, é verde, verde assim meio transparente. Essa não serve, faz outra. E o trabalho andava, e fazia calor na fábrica, e o vermelho era labareda, chama dessas que parece amor, dessas que ardem, mas o vermelho ele tinha acabado. Tinha feito tudo, a roupa, o rosto, o sorriso, o tom exato do branco, rá, branco, amarelo sujo podre, típico de gente estúpida, até o antibranco dos dentes era perfeito, o fundo, o pêlo do gato. Ele adorava acentos diferenciais, ele escrevia tapête também. Ele ardia, ardia desde sempre, desde que de criança tomou amor pelo tapete. Ardia de paixão, ardia de loucura, que toda paixão arde.

E correu pelas ruas, que não ia pegar táxi, andando chegava mais rápido, ele podia saltar, ele saltava de um prédio a outro, ele corria mais que tudo no mundo, só que o lençol era pesado. E era amarelo também, era da côr dos dentes, era sujo, estava úmido. Ele saltaria pra sempre, como já tinha saltado, como saltava de criança, quando comia mel.

Mel quente, mel, olha só, mel meio amarelo meio transparente, e corria, queria um mel feito de algas do Caribe, um mel salgado, olha o mel aqui nas minhas mãos, salgado, mel de algas, essa é a cor, mel de álgas, correu mais, sabia qual era a cor, tinha na mão um daqueles milhares de bilros, bilro, seu estúpido, bilro é aquela bobina que se usa pra tecer um tapete desse nível, bilro é o que usam as rendeiras do nordeste, bilro é uma bobina de linha ou de lã, de madeira, lã enrolada numa ponta, na outra um espeto - serve para assentar a lã no tapete, aquele maldito tapete vertical com aquele sorriso sujo, típico de quem não riu de nada na vida, de quem nunca ouviu o quebra gelos quebrar gelos na Noruega e que achava que o gato, a festa e a foto eram o melhor do mundo.

Corria suando, suando doce que de salgado bastava o mel, e ardia, ardia, o asfalto ardia porque a lua era quente, a lua naquela noite era quente, ele jurava. E o bilro embaixo do braço, o tom quase perfeito. Ardia o bilro na mão, ardia, o verde era aquele, era preciso, o tião da oficina de pintura quase se matou, mas conseguiu fazer um verde-mar-do-caribe sem nem saber onde era o Caribe, só que o verde não casava com a foto, não era perfeito, e eu sou perfeito, eu sou perfeito, estou sentindo hoje mais do que nunca.

Chegou. Tomou ar, limpou o suor que fazia os olhos arderem, cuspiu no chão aquele cuspe do atleta, aquele cuspe viscoso, tocou a campainha mil vezes, tocou e tocou e ela abriu, a cretina, com camisola rosa - só uma estúpida dormiria de camisola numa noite tão fria, mas ela não disse nada, ela não teve tempo: ele gritou Estúpida! e segurou com força o pescoço dela, segurou com a força que economizara por anos e anos, que quando faço um tapete delicado desses a força é minha inimiga, sou carinhoso, mas sei te machucar, estúpida, idiota, e com a ponta do bilro furou primeiro o olho direito, ela gritou, cala a boca, furou o olho esquerdo. Com a delicadeza de sempre na mão esquerda, que ele era canhoto e tinha orgulho dos trabalhos que fazia sendo canhoto, preencheu aquele vazio de sangue dos olhos com a lã, a lã era perfeita, a direita, bruta, imperfeita e burra como sempre é a direita, segurava o pescoço, o mundo tinha que ser perfeito, nada que não fosse perfeito estaria num dos seus tapetes, vivia para consertar o mundo, nem que fosse a custa de ardê-lo inteiro antes, preencheu os olhos dela com o verde certo.

E ardeu.

postado por: guilherme Quarta-feira, Setembro 27, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

O Álvaro Pombo escreveu Contra Natura, e eu estou lendo.

E depois do pote de ouro, encontrei as pessoas de mãos dadas. E sonhei.

Porque aqui e não em todo lugar? Que todos passem pelo pote de ouro. E que aprendam com Paula e Bebeto.

postado por: guilherme Terça-feira, Setembro 26, 2006
Palpites pelo mundo:



Domingo

É sofrimento demais. Hoje leio o El Pais e encontro, no meio das notícias, no miolo do jornal, aquela que deveria ser a notícia mais importante do dia e causar a maior polêmica jamais vista: o governo espanhol, daquele senhor de quem eu tanto gosto, o Zapatero, aumentou a parcela do imposto de renda destinada à Igreja Católica para o ano que vem!

Sim. Era de 0,5% e mais uns quebrados, e agora será se 0,7% redondinho. Deve ser o prêmio por fazer a vida de tanta gente um inferno. Que vergonha dessa religião. Que desapontamento com o governo que peitou papa, bispos e cardeais e legalizou o casamento homossexual. Não se enganem pela pequenez da porcentagem. São 175 milhões de euros em um ano. Rá.

A seguirem com isso, vou pedir financiamento para grupos de extermínio de inspiração neonazista, ou para as senhoras católicas de Santana, ou ainda pra Al Qaeda.

Aliás, o Bin Laden parece que morreu. Boatos.

***
Mas vamos ao que importa de verdade: ontem tivemos aqui na minha Madrid a primeira Noche en Blanco - ou virada cultural. À diferença da nossa paulistana, a madrilenha começou às 21h30 e terminou com a música para o amanhecer no parque do Buen Retiro.

E eu acompanhei tudo, acompanhado pelos dois uspianos recém chegados: saímos pra rua umas 22h15. Andamos até a Praça de Espanha, depois até o templo de Debod. Pra beber, coca-cola misturada a um rum barato, que já vem misturado com bel. Ou seja, um xarope, ideal para o frio que pegamos a noite inteira. Do Templo de Debod, onde havia música do mundo, fomos para os Jardins do Palácio Real, passamos pela fila para ver o concerto de órgão na capela desse mesmo palácio, fomos para os jardim das Vistillas ver um circo português... e tinha acabado.

Não contentes, subimos para a rua Fuencarral, onde havia DJs e música ao vivo na rua. Pois chegamos lá debaixo de garoa e... tinha acabado também. Eu mantinha o ânimo! Fomos para o Centro Cultural do Conde Duque e fizemos uma fila pra uma exposição sobre matemática. Uma estação ciência monotemática, com cubos para montar, simulações de probabilidades... Aí nós três ficamos mais de duas horas. Ok, a matemática pode ser divertida.

Às 3h da manhã, já junto com o amigo espanhol e uma pequena trupe sua, seguimos para o Círculo de Belas Artes. Lá haveria jazz. Demoramos muito pra chegar, com o cansaço já se adiantando. Pois a fila era gigante, e era pra cafeteria. O auditório estava lotado fazia duas horas!

Já eram 4h passadas quando resolvemos seguir o meu plano: ir para a Real Fábrica de Tapetes, fundada em 1721 e funcionando no mesmo edifício e do mesmo jeito desde 1891. Que viagem maluca! Chegamos lá às 5h15 da manhã, e a porta estava fechada! Mas o guia anunciava visitas até as 6h, ora essa! Com outros que chegaram também à porta fizemos um mini-motim muito educado e conseguimos montar a última turma do tour pelos teares, onde, às 5h30 da manhã, funcionários continuavam fazendo tapetes que eram obras de arte. Um trabalho doentio. Absurdo. E surreal, às 5h30 da manhã.

Depois era a hora da música para o amanhecer. Fomos ao Buen Retiro, fazia um frio terrível. Entramos por uma porta distante do local dos acontecimentos, mas próxima da Fábrica de Tapetes (pra se ter uma idéia, a fábrica de tapetes fica por trás da estação de Atocha). E pouco antes das 7h começou uma música do leste europeu num canto. Dançamos um pouco, eu nessa hora era o único animado e acordado. Vinte minutos disso e fomos ver uma fanfarra dessas bem complexas, que interpretavam trechos de zarzuelas. Eu já contei o que é zarzuela, hein, nem vou contar de novo que é uma espécia de opereta espanhola do século XIX, algo como o teatro de revista com castanholas. E aí fomos buscar o prato grande: a música de Nova Orleans.

Qual quê, qual nada: não conseguimos encontrar (nessa hora éramos só os três brasileiros) e vimos o céu clarear assistindo a um grupo de Mariachis com quinze elementos, na frente de um dos portões do parque. Depois café da manhã, o jornal do dia, um pão fresco e, antes de dormir, ainda li a matéria das páginas 2 e 3 sobre... Lula e Alckmin!

Todos estão assombrados com o poder de Lula de superar os escândalos de corrupção.

Meu mulato inzoneiro...

postado por: guilherme Domingo, Setembro 24, 2006
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Sexta-feira

Nossa, passou pouco mais de uma semana, mas parece que faz uma eternidade que eu estava de quatro esfregando o piso da cozinha.

Tantas emoções.

No domingo chegaram dois uspianos que, como eu, vieram fazer esse intercâmbio pra essas terras. Conforme tinha prometido, fiz tudo o que estava ao meu alcance para ajudá-los na chegada, os primeiros passeios pela cidade, as primeiras dicas. Quem me conhece sabe que eu adoro fazer esse tipo de coisa, e que faço com o maior prazer. Os coitados é que devem estar já de saco cheio de tanto ciceroneamento.

Isso foi no domingo, olha só!

Na segunda chegou a amiga do tango. Ficou só três dias, mas acho que andamos uns dez quilômetros em cada um dos três. Sabem, o tour básico. E falamos, e nos emocionamos, e contamos histórias, colocamos a fofoca em dia!

E ainda por cima o trabalho voltou. Estou com algumas horas boas aí por semana, mas o problema é que pagam pouco. Quer dizer, pagam o mesmo que pagavam antes, eu é que queria mais. Só pra arrumar sarna pra minha cabeça peguei uma numa cidade que está a uns 100 quilômetros daqui. De trem. Vou levar mais de um hora pra chegar dentro do trem. Uma hora e meia desde a minha casa. E a aula começa às 8h da manhã. Todas as segundas-feiras.

Martírio.

***
Sim, a minha Madrid é muito diferente da Madrid de todo mundo que veio pra cá. E de todos que eu conheço que vivem aqui. Segundo minha mãe (sim, esteve aqui também), eu já não enxergo os defeitos da cidade. Claro que sim, que enxergo. Mas vejo também tantas coisas bonitas...

***
Um dos meus alunos vai trabalhar no Brasil por um ano. Em São Paulo. Em Taboão da Serra. Me perguntou se era uma cidade bonita. Não consegui mentir.

***
E a viagem, e a viagem? Triste é que eu não posso colocar as fotos por enquanto. Sabem como é, quem dirige não fotografa, e a companheira de viagem, amiga pra vida inteira, está já no Brasil com a sua câmera carregada com as lembranças físicas da maioria do trajeto. Minha máquina só foi desembainhada da Itália pra frente. E eu sou péssimo documentador quando viajo acompanhado.

E, pensando bem, sem as fotos fica pouco pra contar. Mesmo com as fotos. Não consigo reproduzir aqui os metros de estradas que pegamos, nem explicar a sensação que é estacionar em Sigüenza, por exemplo, no caminho de Madrid para Zaragoza, e subir a pé até um antigo castelo, passando por uma rua de pedra, com casas de pedra, com tudo fechado por causa da hora (e do sol, senhor, que canícula); ou de subir em outra cidade, essa pobre já anônima, só porque da estrada se via um arco romano. E lá fomos nós ver o arco romano.

E qual a sensação de o ar-condicionado do carro exalar odores diferentes a cada acionamento? Começamos com queijo, logo passamos a brócolis e depois a bosta pura. Qual não foi a nossa surpresa ao descobrir, na cidade onde dormimos perto de Andorra, que não era o ar-condicionado que fedia: era toda a região, adubada e fértil.

Esse foi o primeiro dia.


postado por: guilherme Sexta-feira, Setembro 22, 2006
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Quarta-feira

Cinderela: passei seis horas hoje esfregando o piso da minha cozinha, lajota por lajota. Está limpo.

A Rádio Cultura AM toca Olhos nos Olhos.

E esfria.

postado por: guilherme Quarta-feira, Setembro 13, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Já é a segunda vez que eu abro o blog pra postar, mas tá difícil nesses dias.

Só anuncio que o verão, ao que parece, escolheu hoje pra acabar - está nublado e fresco. Um pouco triste.

Mas sobretudo está vazio.

postado por: guilherme Terça-feira, Setembro 12, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

Recém-chegado e sem fôlego! Tantas emoções.

Preciso de um retiro espiritual para digerir todo o roteiro de cinco mil, oitocentos e oitenta e oito quilômetros por (seguindo do post anterior) Mônaco, Gênova, Siena, Florença, Roma, Nápoli, Amalfi, Sorrento (te voglio benne, sai), Pompéia, Veneza, Verona, Bérgamo, os Alpes, Barcelona, Valência e Madrid.

Haverá mais detalhes, mas só quando eu esteja de volta no eixo, de novo no prumo; assim que eu descer das nuvens, deixar o Brasil ir embora e de novo me encontrar nessa cidade.

postado por: guilherme Segunda-feira, Setembro 11, 2006
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