Segunda-feira

Nossa, escrevi o último post esperando inspiração na quinta-feira passada. Aconteceu tanta coisa, mas tanta coisa de lá pra cá, que nem deu pra respirar! Parece que faz um mês!

Na quinta-feira eu aprendi muito sobre mim mesmo, e desaprendi um outro tanto. Enlouqueci um pouco mais, me livrei de alguns traumas, deixei alguns tabus. Em conseqüência, a cabeça entrou em colapso de contradições, e nada do que era claro e evidente agora é.

Como esse último parágrafo mais ou menos. Tudo confuso. Vamos lá. Alguém se lembra dum moleque que queria comer polenta na terra onde se comia purê? Aquele menino, que está num dos posts desse blog, agora está gordo de tanto comer polenta e purê. E gosta dos dois! E aquele outro, que pedia a entrada, a salada, a bebida, que adorava tudo e saltava o prato-principal pra ir pra sobremesa? Então, esse aí agora come o prato-principal também. De purê ou de polenta.

E sabem mais o quê? Aprendi que colocar uma carta num envelope é muito mais fácil que colocar 2000 fôlderes dentro de 2000 envelopes. Fiz isso na sexta-feira, ajudando a minha amiga alemã a envelopar uns papéis do festival de cinema onde ela trabalha. É uma loucura!

Aprendi que nem todo estado é laico, e que vivemos o mundo do avesso. Mas sobre isso eu vou escrever um conto em breve, vocês verão.

Verão nada, que ninguém agüenta mais esse calor!

Ah, verdade: Madrid está vazia por causa das férias de verão. Todo mundo foi embora, ficou só o sol e eu. E amanhã chega o querido da Alemanha. Ai, o pobre; acostumado com aquele clima ameno, verão de 35 graus no máximo. Vai sofrer! São treze agora as vítimas fatais do calor na Espanha neste verão, ui ui ui. Se fizessem as estatísticas no Brasil, nossa! Quanta coisa não acontece por causa desse calor!

O sábado foi mais ameno, com comida típica espanhola - aprendi também que adoro frutos do mar - e momentos de tranqüilidade, livro, jornal.

E por fim o ontem foi fabuloso, outra vez na piscina na serra, com o calor, com o sol, com o vento fresco das montanhas, com a água fria e limpíssima da piscina pública...

Estão vendo? Meu dia a dia exterior é muito cotidiano. Agora se vocês vissem o que se passa dentro da minha cabeça, nossa.

postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 31, 2006
Palpites pelo mundo:



Quinta-feira

Ui, me deu até vergonha agora: por essas coisas da vida, acabei lendo os arquivos dessa tribuna de um ano atrás, de julho de 2005.

Que dias intensos! E que maneira de contar as coisas... Agora é assim, mais preto no branco, mais diário oficial. É, acho que acabou o lirismo. Que isso do lirismo cada um tem uma quota, e eu gastei a minha.

Gastei nada: empreguei em projetos de amor que se sublimaram.

***
E você está certíssima: eu amo demais, eu vôo pelo mundo que amo, arrisco até dizer que me exagero.

Lindo esse reflexivo: eu me exagero! Eu me como, eu me fumo, me exagero, me canto, me bailo comigo mesmo, me aproveito.

Me aproveita?

***
Hoje à tarde vou até aquele escritório perto do consulado do Brasil para imprimir o mapa da minha viagem por essas terras! Ui, falta exatamente um mês para que ela comece! Bom momento para ir até lá com o carioca gordinho e fazer mapa, e planejar paradas, onde dormir... A vantagem é que ele já fez uma viagem parecida, conhece as estradas e as alternativas!

***
Queria escrever aqui, contar coisas. Mas me falta algo. Deve faltar o lirismo, que coisas acontecendo, rá, isso abunda!

postado por: guilherme Quinta-feira, Julho 27, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

Olha só: o calor continua, e parece que fica cada vez mais forte.

***
Não é preciso estar sozinho para estar sozinho; é muito fácil cavar um abismo sob meus próprios pés.

Se eu me entendesse, minha vida seria mais fácil; acho que preciso me internar numa bolha até me conhecer de verdade, e só depois começar a me relacionar com seres-humanos. Até aí, plantas, objetos, animais pouco comunicativos...

***
Ontem fui a uma piscina aqui perto de Madrid, na serra. É uma piscina pública, paga-se uma taxa de 5,70 euros e pode-se passar o dia todo ao sol, deitado na grama, lendo o El País e mergulhando numa piscina de água mineral cercada por montanhas parecidas com aquelas do lago que eu fotografei na Irlanda. É realmente incrível.

E finalmente peguei uma corzinha, que me custou uma quase-insolação. Da insolação não tive os efeitos mais nocivos, só um pouco de enlouquecimento.

***
Das coisas que eram e não são mais: depois de amanhã, dia 26 de julho, eu preciso acordar muito cedo! O vôo Madrid-São Paulo com escala em Lisboa sai daqui às 9h da manhã. E devo chegar em São Paulo por volta das 5 horas da tarde.

Impressionante: se eu voltasse mesmo agora seria estranhíssimo; parece que eu tenho muito mais coisas a fazer por aqui!

Talvez eu tenha feito uma rápida ponte-aérea mental. Preciso aterrissar.

***
E, se eu voltasse mesmo depois de amanhã, sabem o que aconteceria? Segundo os informes que me chegaram, um dos meus bares preferidos, o São Cristóvão, está cobrando consumação mínima de 25 reais por pessoa. Pelo menos foi isso que passou com alguém que eu juro que não mente. Triste.

Outro informe dá conta de que o bar mais especial da minha vida, o Cacilda, mudou a receita dos bolinhos de mandioca recheados de carne-seca. Que eles agora são farelentos, não mais com a consistência macia e aderente de outrora. E, pior que isso, mudou o desenho dos cardápios.

E parece que o Gianfrancesco Guarnieri morreu. Quanta urucubaca! Só falta o analfabeto se reeleger!

postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 24, 2006
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Sexta-feira

Tem um Hai Kai que é assim:

Solidão de inverno:
Um velho aquece as mãos
nas próprias mãos.

Eu inventei um mais ou menos assim:

Solidão de verão:
O menino vai ao cinema
com três tíquetes na mão.

Comprei entradas para três filmes da Filmoteca: às 18h, às 20h e às 22h.

Vou me divertir a valer, tá?

postado por: guilherme Sexta-feira, Julho 21, 2006
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Quinta-feira

Tudo o que é bom dura pouco. Ontem fui até a livraria comprar o Jodorowski e encontrei na parte de trás de um dos livros uma pequena biografia: ele é tarólogo, astrólogo... parei de ler.

Depois encontrei uma pilha de livros dele entre as seções de estorismo e de auto-ajuda.

E um dos livros pretendia revelar os segredos do tarot.

Por quê? Mas, insisto: leiam pelo menos um livro dele, o que eu li, "Onde melhor canta um pássaro".

***
Queria que minha vida fosse tão agitada quanto alguns pensam que é. Que eu fosse tão rico como outros pensam que eu sou.

E que me mordessem o lábio de uma vez por todas.

postado por: guilherme Quinta-feira, Julho 20, 2006
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Quarta-feira

Acabou o livro do Jodorowski, que pena. Acho que vou passar na livraria e comprar outro! É realmente muito bom, e eu fico decepcionado por ter tido que viajar até a Espanha para conhecer um autor chileno.

***
Momento-obituário. Agora me morre o Raul Cortez. Estou ficando assustado: daqui a pouco pode ser que morra o Paulo Autran.

Sabem, ele é muito amigo da Inezita e ela, com seus 81 anos, pode ser que receba um pouco mal essa notícia...

***
Hoje o dia tem uma frase. A que se consagra chamar "frase do dia". Pois eu troquei alguns emails com meu pai, e pedi pra ele responder logo, que eu tinha pressa de sair do computador. Ele demorou mais de duas horas e respondeu comentando que tem trabalhado demais na empresa (os mais próximos sabem qual empresa é): "Aqui está muito difícil, estou novamente com muito serviço; não é à toa que espanha não pára de crescer."

***
Fui conhecer o consulado brasileiro em Madrid! Que alegria, que bem estar: descubro onde é o consulado sabem como? Pela fila de gente que saía de dentro do prédio e se desenrolava pelo passeio.

Um horror. Impossível conseguir senha de atendimento sem chegar às 6h e dormitar na porta até as 10h, quando abre. Isso é um tratamento especial, pra que nós brasileiros nos sintamos mais pertinho da nossa pátria amada.

Fui para lá tentar conseguir uma carteira de motorista internacional, mas, bah, impossível que me respondessem. Para perguntar também tem senha, a senha de dúvidas. Para voltar no dia seguinte e fazer qualquer coisa.

Mas conheci, em contrapartida, um "despachante" carioca muito divertido. Um distribuidor dos panfletos me levou até ele, num escritório simples duas ruas mais adiante. No som do computador um Zeca Pagodinho. Á mesa dele duas mulheres, uma que queria se separar e outra que queria casar com um espanhol; as duas precisavam de documentos dos cartórios do Brasil, do Pará e do Mato Grosso do Sul. E lista de antecedentes criminais. E muita coisa, e muito dinheiro.

O despchante simpatizou comigo, ouviu minha história, disse que só era possível fazer isso no Brasil (que era impossível resolver em três dias pelo consulado) e que poderia me ajudar. Demoraria cerca de um mês e custaria 200 euros. Que tal? Pois é, econòmicamente inviável. E nisso ele concordou comigo.

Ficou empolgado com a minha idéia de viajar pela Europa de carro e abriu no computador um programa da Microsoft que faz planejamentos de viagens; tem mapas de todas as cidades, calcula distâncias, horas diante do volante, paradas, custos, pedágios. Até me convidou para ir lá um dia à tarde (que é maish tranqüiulo, disse com o sotaque carioca) que ele imprimiria o mapa para mim.

Mas o melhor foi ouvir tanta gente falando português do Brasil ao mesmo tempo, e cada um contando uma história mais esquisita que a outra, e todo mundo dizendo que conhece um "jeitinho", que tem um "conhecido" aqui e ali. Realmente o trambique tá no sangue!

postado por: guilherme Quarta-feira, Julho 19, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

O calor pede coisas leves, gazpachos, sucos, frutas.

E anedotas.

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Os espanhóis são os gênios do mundo. Ok, vão dizer que eu exagero, mas vejam só: os chineses inventaram o macarrão e os fogos de artifício; os brasileiros inventaram o avião e a bina; os italianos um monte de comidas fabulosas com o macarrão chinês e os tomates americanos.

Mas vejam os espanhóis: primeiro inventam a mayonese. Eu já contei isso? Não importa: inventaram a mayonese, que na verdade se chama Mahonesa. Salsa Mahonesa, porque, como a calabresa vem da Calábria, a Mahonesa vem de Mahón, a capital de uma das ilhas baleares, a Menorca.

A outra se chama Mallorca. Mallorca e Menorca, e isso já é maravilhoso.

Depois os espanhóis inventaram o pirulito. Era assim, um dono de uma doceria provava as balas que estavam sendo fabricadas espetando um garfo naquele melado e chupando. Arrá! Estava inventado! Mas sabem por que demorou anos ainda para sair no mercado? Era muito difícil grudar a bala no palitinho de maneira econòmicamente viável.

Não contentes, ainda inventaram o esfregão, essa coisa meio nojenta que raramente usamos no Brasil. Ou usamos e minha família é uma rebelde anti-espanhola (não comemos pirulitos, que minha mãe é dentista, não comemos mayonese porque não sei e nunca tivemos um esfregão.

Mas, amores, para ter qualquer coisa dessas é preciso passar por outro invento espanhol. Alguém imagina o que seja?

Não é o dinhero, seu bobo: é o código de barras!

Ou seja, calem-se chineses com seu macarrão e seus fogos-de-artifício.

***
Olha, dois posts seguidos com a palavra macarrão!

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No dia 15 completaram-se meus cinco primeiros meses de deixar a pátria-amada. Tenho sete pela frente, e um medo enorme: e dinheiro pra tanto? Haja trabalho.

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Esse post fica um pouco nojento a partir de agora: com esse calor eu estou fazendo um regime de pràticamente só nectarinas e sangria. Ok, por um lado pode parecer saudável, mas 12 nectarinas por dia, com dois litros de sangria é um pouco exagerado.

O importante é que comecei com as já famosas diarréias. Por hoje está tranqüilinho, mas os ruídos já indicam que amanhã terei surpresas.

E mais: tenho comido em média duas cebolas por dia. Seja num sanduíche, seja frita com salsichas, seja numa salada de atum com tomate e mahonesa, o fato é que tenho comido muita cebola. E eu juro que não é psicológico, que todo o cheiro de cebola se dilui no sebo produzido pelas glândulas sebáceas da minha orelha. Não é cera, é sebo, aquela gordura que escorre. Pois no meu caso escorre pouco; não sei por que se formam na pele da minha orelha umas bolinhas de sebo, bonitinhas até. Quando eu como muita cebola elas se proliferam.

Hoje, no calor do metrô e sem nada pra fazer, comecei a cutucar a tal bolinha e ela estourou. O cheiro de cebola misturado com o cheiro natural do sebo (que lembra um pouco um gorgonzola) foi nauseante.

Aqui entra o realismo fantástico.

E o pior é que não parava de sair essa secreção - pudera, com a quantidade de cebolas que comi - e escorria pelo piso da plataforma. O cheiro de cebola foi contagiando a todos no metrô, em todas as linhas; os trens tiveram que parar, que já deslizavam pelo sebo dos trilhos e não podiam brecar adequadamente.

Todos fugiram, todos correram. Mas uma alma, um bom anjo se aproximou de mim, pernas atoladas na sebola, ou no cebo, como preferirem, até os joelhos e, com sorriso angelical e um algodão nas mãos estancou aquela ceborragia. No mesmo instante, o universo, comovido com o gesto de amor daquele ser iluminado, ordenou que todo o cebo se transformasse em flores de maracujá, mas flores especiais, com o cheiro da fruta. E a própria flor que eu tinha diante de mim, com o algodão fortemente pressionado contra a minha orelha, me sorriu e, arrastando-me pelas ruas me segurando pelo lóbulo, me levou até sua família, ciganos nômades. Assim começa a minha história, assim começa a minha peregrinação pelo fantástico que é o mundo mesmo.

Leiam Jodorowski,

postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 17, 2006
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Domingo

Com esse calor? Nem fudendo.

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Hoje é aniversário do companheiro de piso e do meu padrinho (se alguém quiser ver o padrinho, é só ir na primeira página do arquivo, lá no junho de 2003 que tem uma foto da minha família inteira). Pro companheiro de piso preparamos uma surpresinha eu e um casal de amigos dele: forramos a cama com balas e bombons, colocamos bexigas e, no meio de tudo, nossos presentinhos (por acaso, quatro livros! Rá, que criativos!).

Mas o meu foi bem escolhido. Rubem Fonseca, "Secreciones, Excreciones y Desatinos". E aquele do Sándor Márai, "As Brasas" em português.

Acho que é o livro que eu mais vezes dei de presente pra alguém.

Pro padrinho vou ligar daqui a pouco. E assim vamos matando o domingo!

***
Dinheiro é o que move o mundo? Amor? Sexo? Violência? Crime? Rá, quanta bobagem: o que move o mundo são os ciúmes.

Duvida? Pense um pouquinho. Isso... Muito bem, estamos no caminho. Quanto você já fez por puro ciúme?

Eppur si muove!

postado por: guilherme Domingo, Julho 16, 2006
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Quinta-feira

Choveu em Madrid. E vocês não sabem como é isso - uma surpresa, uma surpresa boa, um oasis no meio do verão.

Está mais fresco. A terça-feira acabou nublada o dia todo, como ontem. Hoje começamos com sol, mas depois algumas áreas de instabilidade desceram do cantábrico para o centro da península (não, você não digitou weatherchannel por engano) trazendo um pouco de chuva e derrubando a temperatura pra baixo dos 30 graus.

Ufa, que frio.

Apesar disso, estou usando o meu quase-famoso short laranja que comprei dois dias antes de vir pra cá. Demais esse short.

Mas a chuva, a chuva. Aqui não chove muito, nem chove forte. Quase nunca há trovões (só porque eu escrevi isso acabou de cair um raio), o ar é super seco e as ruas, empoeiradas. E hoje choveu, e a chuva lavou um pouco o chão; com o céu nublado Madrid ganhou tons amarelos, pastéis, quase sépia. Os carros passavam pela água e fazia uma espuminha, meio de sujeira acumulada, meio de não sei que produtos químicos misturados ali no chão.

O engraçado é que todo mundo sabe que as chuvas duram pouco. Todo mundo estava com calor, todo mundo suando, todo mundo com pressa. A chuva não atrapalha o dia-a-dia do madrileño. E eu me incluo aí, que continuei caminhando com o povo mesmo debaixo de uma chuva relativamente forte (poucas gotas, mas grossas), mas nada fria.

E o conforto de saber que em minutos você se seca? Porque, rá, esse é o pulo do gato, o ar aqui continua seco! Não adianta chover, não, não; acho que o ar é impermeável. A roupa secou num instante, e os cabelos estão molhados ainda, mas é por causa do suor.

Tudo parece bem engraçadinho agora, mas a verdade é que saí de casa tristonho, e essa chuva me emoldurou o dia com perfeição. É que vi um filme, Leolo, alguém conhece? Eu nunca tinha ouvido falar, mas parece que é muito famoso. Pois esse, é bem triste - pelo menos pra mim e hoje, com umas lembranças na cabeça, macarrão do almoçono estômago e mensagens de texto no celular.

postado por: guilherme Quinta-feira, Julho 13, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Gente, vocês viram o papa aqui do meu lado? Pois é! Pouca gente do meu círculo próximo se importou. Eu inclusive esqueci do pobre alemãozinho, que deve ter derretido em Valência.

Sempre Valência. Acho que escapei do eixo dos acontecimentos.

***
E por falar em calor, ontem foi incrível. Em Madrid, segundo os dados oficiais, tivemos 39,3 graus. Vocês podem rir, achar que isso é pouco, dizer que no Rio de Janeiro é pior (e sem dúvida é, que a umidade destrói qualquer organismo vivo). Mas o calor seco tem dos seus caprichos. Saí de dar uma aula no Paseo de Castellana às 15h15, mais ou menos, e segui caminhando por essa avenida arborizada que é uma super vitrine de Madrid e que tem o capricho de mudar de nome: Paseo de Recoletos e logo Paseo del Prado. Pois, segui por aí passando por pontos importantes como os Correios, o Banco de España, a praça de Cibeles, a fonte de Neptuno, o museu do Prado. Realmente lindo.

Pois quando chegava em Atocha, caminhando no sentido norte-sul, sou atingido por um vento terrível, muito forte. E quente. E seco. Os olhos ardem, a pele queima, ainda que na sombra (claro, os 39,3 graus eram à sombra, e às 17h mais ou menos). Os óculos de sol esquentam muitíssimo, a tiara dos fones de ouvido, preta, começa a queimar o cocoruto e eu dou graças ao meu cabelo desgrenhado.

O vento que vem do sul é quentíssimo. E ontem em Sevilha e região tivemos os 43 graus.

Bom, mas o importante é que eu fui, com a amiga alemã, pra cidade de Aranjuez. Só para informar, fica ao sul de Madrid, ou seja, mais perto da fonte de calor.

Filhos, inacreditável. Quando a porta do trem abre (o trem, claro, tem ar-condicionado) nos sentimos entrando num forno, num grill, no inferno.

Acho que é isso, o inferno deve ser mais ou menos assim. Eu tenho certeza de que nunca experimentei sensação de calor como essa. E, devo admitir, é muito mais suportável que 30 graus paulistanos, com a puta umidade-não-permito-formas-de-vida. E vejam a situação: sentados debaixo de uma árvore, mesinha na calçada. os copos de cerveja esquentavam. Não é que a cerveja ficava "quente", é que o copo fervia. E os óculos. E o pão que trouxeram para acompanhar nossa saladinha e nossos peixinhos secava, torrava ao vento.

Não é exagero.

***
Exagerada é a Dalva de Oliveira, que está cantando aqui na minha orelhinha agora mesmo.

***
Sigo com a minha chamada "educação audiovisual": nos últimos dias vi muito Almodóvar: La Flor de Mi Secreto, Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, Átame, Tacones Lejanos... Estou apaixonado pela Marisa Paredes, mulher fracassada pessoalmente, alcoólatra delirante; perdidamente apaixonado pela Carmen Maura, mas não por qualquer Carmen Maura - pela Carmen Maura de Mujeres al Borde... . Recomendo altamente para quem não viu e, para quem viu, uma coisa: por que não me obrigaram a vê-lo antes?

***
Os dias de férias voam em boas companhias, com programas para todos os dias, com a sensibilidade de construir momentos especiais nas situações mais cotidianas. E se engana quem pensa que voltei aos tempos de passar horas diante da televisão - não só porque há coisa melhor pra se fazer a qualquer hora do dia ou da noite, mas também porque a antena do prédio pifou.

Melhor, pifaram ela. Funcionava muito bem, até os do bar que tem no piso térreo inventaram de colocar uma coisa digital lá em cima. Aí estropeou-se tudo (estou usando um espanholismo, eu sei; mas não tem palavra melhor). Desde sexta-feira estamos sem antena.

Sim, durante a final da Copa estávamos sem antena, e eu preferi jantar tranqüilamente com meu companheiro de piso (uma salada gelada, claro!) a me amontoar num bar para ver a partida. Boa escolha. Lamento não ter visto, ainda, a já famosa "chifrada" do viejo calvo gilipollas vete a cobrar la pensión hijo de puta.

O mais engraçado de estarmos sem antena é notar a diferença no comportamento do edifício. É pouco, mas tem mais gente olhando pelas janelas, olhando pra rua. Tem também mais música ecoando nas escadas, tem mais conversa, tem domingo com cantoria de flamenco até altas horas (já disse que meus vizinhos de cima são bailarinos? Pois...). Muda um pouco a rotina.

E no bar de baixo tem TV digital, mas não é pro meu bico.

***
Está na hora de acontecer alguma catástrofe por aqui de novo, pra que se lembrem de mim e me mandem uma mensagenzinha, um recadinho. Ai, que horror, Deus nos livre e que o papa nos abençoe essa terra linda, onde toda forma de amor vale a pena.

postado por: guilherme Terça-feira, Julho 11, 2006
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Quarta-feira

E aconteceu o terrível acidente de metrô em Valência, lá na costa sul. Ainda não sei bem o que aconteceu com o metrô, mas sei bem o que aconteceu no meu cotidiano.

Primeiro, minha mãe me ligou. Que estava preocupada, que não escutou se o acidente era em Madrid ou Barcelona e que quis ligar porque sabia que eu pegava o metrô.

Quando eu digo que foi em Valência, vem a pergunta: "mas lá tem metrô?". Assim funcionam as mentes maternas quando um filho está longe: qualquer coisa que passe num raio de 5 mil quilômetros seguramente afetou o filho.

***
Depois nao aconteceu nada. Até ontem. Ontem me ligou um querido, tentando fazer funcionar o skype, fazendo o skype funcionar e eu aprendendo a manter um diálogo emocionado com um delay de 4 segundos e um eco tremendo. Pena que os créditos acabaram aos 3 minutos de conversa, se tanto! Tanta coisa pra contar...

Minutos mais tarde, me liga uma menina que brilha! E eu imaginava seus olhinhos brilhando quando ela me ligou. Eu numa loja de sapatos no subsolo gritando no telefone em português, constrangendo a amiga alemã, companheira de tantas aventuras (inclusive ontem vimos a derrota germânica para nossos irmãos de sangue italianos). É que eu quis fazer uma surpresa, e comprei uma coisinha aqui em Madrid, dei uma personalizada escrevendo algumas coisas com essa letra linda que eu tenho, vocês conhecem, e pus no correio. E chegou ontem, para surpresa e júbilo!

E hoje mais emails surpreendentes, alguns que citavam logo de cara o acidente de metrô para depois perguntar novidades. Divertido isso. E emocionante.

Dá saudades? Dá. Vou ficar com saudades daqui quando voltar? Vou.

Onde fui amarrar meu burro?

***
Alguém se lembra do casal de brasileiros de meia-idade que eu conheci aqui em Madrid? Que me apresentaram a uma senhora de quinta idade que me deu duas cadeiras? Pois então, recebi um email do marido dessa senhora (o Juan, de 80 anos) dizendo pra eu passar pela casa deles porque havia um presente para mim, presente enviado pelo casal de meia-idade.

Vou para lá e recebo dois sacos de café brasileiro. O tal Juan teve que ir ao Brasil por algum motivo e por lá encontrou o casal. O casal se lembrou de mim e quis fazer um agrado. Enviaram os sacos de café, que o Juan trouxe com carinho e ainda me avisou por email! É demais, né?

Tudo isso aconteceu no domingo, pouco antes de eu me encontrar com as minhas alunas agradecidas.

Heaven, I´m in Heaven...

postado por: guilherme Quarta-feira, Julho 05, 2006
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Segunda-feira

Foi-se junho e com ele duas mamatas:

1. O meu abono mensal de transporte, que era válido para junho. Com ele eu pegava trens e metrôs "grátis". Agora é só caminhando.

2. Como não pego trem de graça, não vou até a faculdade usar a internet grátis. Sim, estou num locutório, meu companheiro já de longa data. Isso significa que as novidades serão menores, tudo mais condensado. Vocês verão!

***
Que dias tenho passado, senhor, mas que dias! Vocês não acreditam se eu conto.

A quarta-feira passada, essa eu nem lembro o que fiz. Que faz muito tempo, né? Bom, lembro que escrevi esse post aí de baixo. Mas o importante começa na quinta. Vou até uma agência (hummm) tirar umas fotos (não, queridos, não se preocupem - não era nu) para colaborar com a minha amiga alemã num cartaz de festival de cinema. Enfim, o importante é que fomos para uma praça genial que tem aqui no bairro de Huertas (um charme) tomar cerveja. E nos sentamos às 17h30. No começo eu, a alemã, outra professora de português, brasileira, e um amigo da amiga alemã. (Ufa, às vezes dá um trabalho preservar a identidade das pessoas não publicando nomes!).

Aí ficamos até as 23h30. Seis horas de bar, uma conta estratosférica, sete cervejas goela abaixo. Muito bom. E um pouco alcoolizado.

Saio daí com o querido que esteve no Brasil e vamos comer um eterno Kebap. E vou desesperado pra casa, que são quase duas e na manhã de sexta tenho que dar uma aula.

Parece tolo, mas esses momentos de conversa são tão importantes, tão bonitos.

***
Na sexta, ah, na sexta foi o dia todo de trabalho e depois ir ver a vitória da Alemanha (com a alemã, lógico) num bar com um argentino, uns sul americanos, acho que uns marroquinos também, uma japonesa. Divertidíssimo. E aí, vermouths e cervejas e sangrias depois, vou até o bairro gay com outro amigo que esteve por essas terras brasileiras participar um pouco da festa do orgulho. Uma semana inteira de festa, que culminou no sábado. Nessas ruas de Chueca eu fico até as 5h da manhã, batendo papo, bebendo com moderação, rindo. Que noite boa.

***
Sábado! Dou aula de português para a alemã, que apesar de amiga ainda quer aprender nossa língua (e aprendeu que o português do Brasil é mais bonito), almoçamos juntos e vamos para a parada gay de Madrid.

Senhor, aí eu não posso continuar. Não posso continuar por alguns motivos, vejamos:

1. Tenho 3 minutos de internet, e não quero fazer as coisas mal-feitas;
2. Aqui não posso colocar fotos;
3. Tem coisa que eu ainda preciso julgar de escrevo aqui ou não.

Noves fora, foi um dia maravilhoso. E tem uma anedota aí no meio, que pela segunda vez eu perdi a Chavela Vargas. Aguardem, aguardem. Fui deitar já clareava o dia.

***
Ontem foi dia de reencontrar duas alunas. Duas alunas daquelas que iam fazer uma prova de master. Pois fizeram, aprovaram e ontem saímos para comemorar. Dos meus 9 alunos, 7 foram aprovados. Isso é bacana, né? E alguns ainda me ligaram agradecendo. Coisa mais linda não há!

Mas deitei cedo. Acho que às 2h já estava em casa: às 3h30, na cama! Não posso perder o pique!

postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 03, 2006
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De Mel
Mind the Gap
Em Preto e Branco
Torre de Papel
Poluição d'Idéias
suco
Tabacaria
La vie en rose
Retalhos do Mosaico




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