Quarta-feira

Vou fazer um post meio sem vontade. Mas me sinto obrigado pelo momento. Coisas de gente perturbada.

Ah, mas não se preocupem, eu não estou perturbado.

***
Ontem foi o grande jogo da Espanha contra a França. Sim, falo desse porque o do Brasil eu esqueci, sinceramente, e só consegui ver os 15 últimos minutos num boteco em Atocha, o primeiro que eu vi quando desci do ônibus.

Mas à noite foi bom: me preparei psicològicamente e fui até o marco zero da cidade (já tinha ido antes, na sexta-feira passada, à Praça Colón, mas agora é tarde pra contar) ver o jogo num telão instalado pelo governo da província de Madrid. Muito bom isso, aquela massa de espanhóis, todo mundo apinhado na Puerta del Sol, todos os lugares de onde se via o telão estavam tomados e eu fui tentar dar a volta por trás (para no final quem sabe dar a volta por cima e achar o melhor lugar pra ver a vitória da Espanha contra a França.

Mas, de repente, olha a surpresa: o que é a banca de jornal da praça todos os dias havia se converte num cineminha: instalam ali no meio uma televião (de plasma, detalhe) e sobre um peão no telhado da banca para mexer a antena. Todo o povo que não conseguia ver o telão sentou ali na frente e começou a ver o jogo ali.

Eu, vejam a coincidência, encontrei no meio dessa plateinha uma colega aqui da faculdade.



Olha aí um visual do negócio, o gordinho trabalhando, as carinhas ansiosas dos espanhóis. O telão era patrocinado por uma rede de televisão que transmitiu todos os jogos do mundial; na banquinha, passavam pela concorrente.



E eu me sento, e o gordinho passa na frente pra vender suas bebidas geladas e seus petisquinhos.

Começa o jogo, acho que nos 17 minutos a Espanha faz o gol de pênalti, a praça vem abaixo, a plateinha vibra! E cantamos, e comemoramos, e eu com a esperança de tempos melhores.

Ok, empate. Empate, empate, isso é tranqüilo, a gente é bom nos pênaltis. O ânimo continua, todo mundo cantando "A por ellos, oé, a por ellos, oé" ou então "este partido lo vamos a ganar".



Mas a França faz dois a um. Um silêncio aterrador, uma coisa tristíssima. Mas de repente vem novo ânimo e o povo volta a gritar. É essa coisa de que espanhol é forte, garrido, pode acabar com um touro, por que não com um galo? E vamos gritando. Até que fazem o terceiro gol. Aí todo mundo fica de pé, começa a ir embora, triste mesmo, um silêncio terrível. Só cortado por uma voz embargada. Uma menina chorando e gritando coisas como "Vai receber a aposentadoria, seu velho careca filho da puta", em referência ao Zidane, ou "Árbitro gilipollas de mierda, ven que te enseño que es una hóstia, hijo de puuuuuta", e daí pra baixo. Chorava.



E agora acho que a Espanha é Brasil contra a França, embora aqui não haja um sentimento forte de copa do mundo. Pena, se tivessem passado a coisa ia ficar bem animada por aqui. Dizem que é a primeira vez que a Espanha joga tão bem numa copa.

E aí? Será que dá Brasil ou a maldição de 98 e de 86 vai nos perseguir?

***
Adivinhem quem chegou em casa hoje? O celular! Muito bem, essa noite vou pôr pra carregar. Quero só ver a demanda reprimida, milhões de pessoas querendo me telefonar o dia inteiro, linha congestionada, muitas mensagens de texto acumuladas nos sistemas da Telefonica. Vai ser um momento mágico.

***
Ontem, antes de sair pro jogo, resolvi dar um relax e tomar um whisky. Claro que botei uma Chavela Vargas, gritando no quarto. E então ela começou a cantar

arráncame la vida, arráncame la vida

e eu olhando pra garrafinha de whisky, pro cigarro na mão; comecei a cantar pra eles, né?

"Arráncame la vida
con el último beso de amor
arráncame la vida, toma mi corazón

Arráncame la vida
Y si acaso te hiere el dolor
Ha de ser de no verme
Por que tus ojos me los llevo yo"

E não é que o povo da rua escutou? E começaram a gritar pra mim (um grupo de moças jovens), pedir pra eu cantar mais, mais alto, pra eu descer. Ridículo, papelão.

Mas às vezes é bom se divertir sozinho.

postado por: guilherme Quarta-feira, Junho 28, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Hou, agora finalmente mais impressões sobre a Alemanha - um pouco mescladas já com esse efeito devastador que a memória tem sobre o objeto recordado, somado ainda às impressões que ver as fotos depois nos dá, junto com sentimentos que essa cidade em que estou agora evocam.

Sim, estou na minha cidadezinha do coração.

E, primeira impressão que eu preciso registrar: tenho cada vez mais certeza de que escolhi a cidade certa para vir. Ok, um rio faz muita muita falta, é verdade. Mas ainda assim, desértica (ótimo para a minha saúde), é aqui que eu me sinto mais em casa. Detesto esses papos, mas é que Madrid tem uma "energia", ou algo assim. Me explico?

A Alemanha é uma graça, mas é verde demais. E úmida também. Mas não pode ser isso, deve ter algum componente mais. Acho que é porque a cidade é menor (650 mil habitantes, um bairro!), ou porque as ruas são mais abertas, com menos prédios colados um ao outro. Aliás, deve haver uns 10 prédios em Frankfurt, todos eles com mais de 50 andares! Essa é a impressão que dá! Tudo plano e de repente os arranha-céus.

E agora essa é pra deixar meu primo arrepiado: não sei se era pela copa do mundo, mas é certo que na Alemanha as coisas não são tão corretas quanto na Irlanda. Nem tão caras como lá - na verdade são até mais baratas que em Madrid. É, um lugar gostoso, mas eu não conseguiria morar ali, fazer meu intercâmbio nessa cidade. Falei isso pro querido que lá está vivendo e que lá me acolheu, e ele até confirmou de certa forma: é bem difícil conhecer gente, entrosar-se.

Para se ter uma idéia, ele mora num alojamento de estudantes que tem, imagino, uns 10 quartos. Em cada quarto há um estudante. Pois pela manhã o máximo que você encontra é cada estudante indo até a cozinha comunitária do andar, pegando as coisas do café-da-manhã e voltando pra fazer o desjejum no quarto, sozinho. Isso me parece muito estranho. Mas sabem qual é o diabo? O diabo é que a gente se acostuma.

E chega mesmo a fazer inveja o estilo de vida dele por lá: não estilo de vida, sei lá, as condições e tudo: eu bem disse, e logo, e ainda enviei e-mail a outras gentes dizendo o memso - a vida dele lá é de Erasmus: conheceu gente de vários países, conversa diariamente com italianos, búlgara, russo, franceses, alemães, brasileiro. E cada um deles sempre tem um amigo que fala outra língua, ou que vem de outro país. Coisas de cosmopolitismo estudantil.

Aqui a minha Espanha é meio o canteiro da Europa, o que está de ladinho. (Nem comento as condições do vizinho de trás aqui, esse país pequeno de costas pra Europa e olhando pro mar, esperando sabe-se que D. Sebastião). Há menos Erasmus, é verdade. E eu não quis conhecer nenhum, também devo admitir. Levo uma vidinha quase de imigrante, com a casa, o emprego, o supermercado. Hoje tive que comprar uma lâmpada nova pra cozinha.

Nossa, quanta divagação. Ninguém vai ler isso, né? Ok, eu ponho umas fotos pro texto ficar mais leve.



Esse aí é o castelo onde eu, meu primo e a namorada dele nos enfiamos na beira do rio Rhein, naquele belo passeio já descrito. Dá até saudades das sensações desse dia, fazendo minha dose de turismo, deslumbrado com a sensação de primeira vez. Era a primeira vez que eu via o rio Reno, e os parreirais do vale, e os castelos, e as cidades.

Claro que não podia faltar a sessão ridículo: no castelo, o guia proibiu todo mundo de usar flash em uma das salas. Mas aí se empolgou com os brasileiros e, quando todos os alemães saíram da tal salinha protegida, ele colocou um elmo na cabeça de cada um de nós e tirou uma foto com flash e tudo. Ai, senhor, que ridículo:



Claro que o meu elmo tinha que ser o maior de todos, e o mais medonho.

Bom, esses foram os últimos momentos com meu celular. Depois ele foi perdido para sempre (ou quase, vamos ver se os Correios são capazes de trazer um envelope com um telefone de Dublín até aqui. Santa incompetência. Saudades do Sedex. Hoje tem jogo do Brasil e eu vou torcer pelos Correios. No Brasil só funcionam duas coisas, os Correios e o Itamaraty. Pois aqui nem isso!

E enquanto esperava o trem pra voltar pra Frankfurt, consigo essa bela imagem, sem sentido nenhum. É uma passagem sob os trilhos da linha que vai de Rüdesheim a Wiesbadem, linha paralela ao Rhein num bom trecho. E o homem corria na bordinha do rio. Ao fundo, um vilarejo. Simpático, não?



E aí, no dia seguinte, foi a vez de encontrar a família da minha aluna alemã. Fantástico. Sachenhausen é esse bairro onde nós estamos, o mais típico:



E comer alguma coisa que começa com Rübs...



Seguindo com o discurso monótono lá de cima, a Alemanha também foi uma lição de humildade. Quem me conhce (ah, cinco leitores, deixem-me por um momento disfrutar da sensação incrível de que escrevo numa tribuna para milhares de leitores, de que preciso buscar entre os rostos algum olho conhecido para conseguir me confessar) quem me conhece sabe que eu tenho esse viés ditador domesticado. Ele ainda se manifesta na sua forma mais meiga, que é tentando proteger as pessoas, saber de tudo que se passa na vida de cada um, tomando as dianteiras nas decisões, essas merdas que eu sempre faço. Coisas simples como fazer o pedido no restaurante para a mesa toda em vez de esperar que cada um peça a sua coisa.

Pois na Alemanha não deu muito certo. E tive que exercitar a minha humildade, olhar com olhos de cachorro faminto para o amigo-intérprete e pedir, implorar, que ele me traduzisse o que o vendedor queria saber. Ora, se eu tinha pedido meio quilo de cerejas, qual podia ser a dúvida? Claro, ela queria saber se eu precisava de sacolinha. Rá, se eu precisava de sacolinha!

É bom ser humilde às vezes. Mas também é difícil perder velhos hábitos. No último dia, no Kebap, eu me levantei para pagar - esqueci completamente que não sabia sequer perguntar "quanto custa". Pois levantei, olhei pra balconista, olhei pra trás (o amigo já ria) e fiz aquele sinal típico, esfregando polegar contra indicador e médio, com cara de dúvida. E ela me responde "Ich macht das", ou seja, eu faço isso. Pelo menos a resposta entendi. E, claro, o valor vem em alemão bem cabeludo, logo apontado no visor da máquina registradora. Vergonhoso. Não fosse pelo amigo, ah, senhoras e senhores, acho que eu ainda estaria no aeroporto tentando descobrir qual é a linha de trem para chegar a algum lugar. Rá, nem isso, estaria na máquina de tiquetes automática, tentando descobrir qual botão apertar.

Pensando nisso, os alemães também inventaram modos bons de se comunicar com os turistas durante a copa. Placas que dizem tudo sem uma palavra:



Vai dizer que não é genial? E tudo para que os mares de torcidas conseguissem se enfeitar ainda mais, e emporcalhar ainda mais a cidade. Vejam algumas imagens inéditas e sensacionais (imaginem o Galvão gritando isso) dos holandeses na praça central de Frankfurt:



E a limusine deles:



Ai, senhor, baguncei toda a ordem! Dane-se! A Alemanha é fofa e simpática, e essa mulher não me deixa mentir:



Estava ali, numa rua do centro, fazendo uns pretzels, eu acho, com a cobertura favorita de cada um. E sorria, sabendo-se fotografável. Lembro que nessa hora eu saquei o whisky da mochila e dei um golinho. Pequenininho.

E o álcool é diurético, nos obriga a ir ao banheiro. Mesmo assim não se pode perder o pique da copa...



Agora seção recordar com carinho:

Esses são os amigos franceses e o amigo frankfurtiano. Estamos na praça imunda onde antes cantavam os holandeses e argentinos, abraçados e bebendo cerveja quente. Descobri que esse negócio de cerveja gelada é uma tolice sem tamanho.



E depois eu comendo as minhas cerejinhas na Leipziger Straße, um sol de quase dezembro, o doce azedo das Kirschen... uma delícia de tarde:



Fora que essa rua é a rua do meu filósofo, né? Leipzig e (piada com absurdo temporal, observem e riam muito) seu otimismo panglossiano (rá, demais a piada-axímoro) são a minha cara. Um otimisto tão absurdo que chega a disfarçar de cor de rosa as lembranças mais doídas e os arrependimentos mais graves. Dourar a pílula, em muitos casos. Naquela hora eu fiz aquilo porque julgava que era o melhor. Ok, exercício de humildade. Teoria da vara: a arrogância não se transforma em humildade simplesmente buscando a humildade - é preciso buscar a humilhação.

Leipzig, pra você:

Bom, a viagem se acabou e com ela esse post, grande e chato demais. Só queria aproveitar a oportunidade para dar outro presente para uma dos cinco leitores; outro presente fotográfico para essa mocinha das cartas. Essa mesmo que reclama no espaço dos comentários aí de baixo que eu não convido e não sei mais o quê. Pois você viaja comigo pra caramba, viu? E essa foto eu tirei pra você, e nem precisou pedir, nem por carta, nem por email.

Disfrute:

postado por: guilherme Terça-feira, Junho 27, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Agora o lugar é mais tétrico que ontem: estou no subsolo de um dos prédios da Johann Wolfgang Goethe Universität.

E esse prédio tem uma historinha (inha, inha). Foi construído para uma empresa química (quem me dera ter a memória eterna) e inaugurado em 1931, bem na República de Weimar. Aí, com o nascimento do terceiro Reich, a indústria foi proclamada de interessa nacional e passou a fabricar aquele gás (mostarda, laranja, nunca sei a cor) usado nos campos de concentraßao para eliminar os que ameaßavam o espaßo vital da Alemanha.

Isso aconteceu até 1945. Depois, claro, os tempos mudaram, a democracia se instalou aqui, o centrinho de Frankfurt, que estava todo "kaput" foi reconstruído e, como nao podia deixar de ser, o prédio da indústria química se transformou em algo mais útil para a sociedade de entao: base militar do exército norte americano na Alemanha. Muito útil, realmente.

Foi assim por 50 longos e penosos anos. Até que, em 1995, com a ida dos americanos dessa terra, as instalaßoes, enormes, foram doadas para a Universität. E aqui estou eu, no subsolo.

***
Estou eu e uma carga de coisas na cabeßa completamente inusual - vi uma aula de duas horas sobre marxismo, algo sobre alienaßao do trabalho, subjetividade da alienaßao, alienaßao primordialmente objetica, Feuerbach, Hegels, senhor dai-me os sais bentos que eu nao agüento! Pelo menos era tudo em inglês, eu sabia O QUÊ ele dizia, mas nao compreendia nada.

O tempo segue majoritariamente cinza. Uma coisa, isso! Poxa, custava um solzinho? Vou ver o jogo da Argentina na beira do Rio, no telao, tomando a cerveja mais barata da minha vida desse lado do charco, vou tirar umas fotos, finalmente, e curtir o movimento copa. O movimento turismo já foi - só faltou a coisa típica dos turistas, que é subir nos lugares altos e olhar a cidade. Acho que o 33º andar da universidade de ontem (Bauhaus, Bauhaus) faz as vezes muito bem.

postado por: guilherme Quarta-feira, Junho 21, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Do trigésimo terceiro andar da torre da universidade Johann Wolfgang Göethe, em Frankfurt, mando sinais de fumaßa.

E serao apenas rápidos sinais, que eu nao consigo escrever muito tempo sem acentos, sem tils e sem cedilhas!

***
Cheguei no sábado à noite, como planejado, e encontrei o querido daqui. Depois por pouco nao perco o meu primo, no encontro que marcamos às 21h no McDonalds da Hauptbanhof. É estaßao central em alemao, que mico de língua! Nao sabia se as palavras na rua eram nomes de pessoas ou datas de reconstrußao das coisas.

Por exemplo, uma estátua e logo abaixo escrito NEUBAU 1732. E eu pergunto quem era o NEUBAU.

No domingo, viajei com o primo pela beira do rio Reno, num vale lindo com parreirais, um calor desgraßado, um castelo medieval, um restaurante...

E no restaurante gastei todo o meu alemao: Ich möchte ein Eis mit eins Kirsch und zwei Zitrone. Isso deve soar como "Eu quero um sorvete com um cereja e dois limao". Ele entendeu, me senti o máximo.

Depois pego o trem pra voltar pra Frankfurt, que meu primo ia pegar o aviao pra Irlanda diretamente do vale do Reno. O trem sai uma hora depois do que eu pensava e eu descubro que deixei o celular no carro alugado! Rá! E era no telefone que eu tinha o telefone do amigo aqui, pra quem deveria ligar e dizer "cheguei, vem me resgatar".

Depois de morrer de medo de ter pegado o trem no sentido contrário, trocar de trem com a ajuda de uns russos, ser obrigado a falar por uma hora com uma colombiana chata que sentou do meu lado (e perguntou com a maior naturalidade "¿Hablas Espanol?", como se estivesse escrito na minha cara, sacou uma cerveja e comeßou a contar a própria vida) cheguei à Hauptbanhof e consegui, por métodos milagrosos, ligar para o amigo. Ufa!

Mas foi intensa a sensaßao de estar sozinho na cidade, nao saber o idioma. Que medo. Como é aleijante nao falar nada do idioma local, senhor.

***
Atenßao: tudo isso se passou no domingo. O trem eu peguei às 18h10. Cheguei na Hauptbanhof às 19h50. Sim, perdi o jogo do Brasil inteirinho. Mas foi muito legal torcer pela Coreia na margem do rio Main (acho que é esse o nome), assistindo o jogo num mega-telao montado ali no meio, com colunas de sustentaßao dentro d'água e com barquinhos que passavam e atrapalhavam a platéia!

***
E ontem foi o dia de conhecer os pais e a avó da minha aluna alema. Foi das coisas mais divertidas, e a lástima mais uma vez é que eu nao falava alemao. A avozinha, de 88 anos, uma gracinha, nos acompanhou numa parte do passeio, planejado na Espanha, mas depois foi pra casa. Estava cansada porque já tinha ido nos pensionistas e tomar um café com uma amiga. Mas foi lindo ela mostrando o centro da cidade (que foi todo kaput na guerra, depois kaput num incêndio), contando que os ingleses estavam tao azuis (bêbados, no alemao mais antigo e formal) depois do jogo que se jogaram na fonte da justißa. Tentou me contar a história do nome da cidade, mas meu alemao nao chegava, e o ingles dela também nao.

Registre-se que ela falava algumas palavras de inglês, aprendido já na década dos 80 anos de vida!

Vimos a igreja onde os pais se casaram 43 anos atrás e fomos atrás de um lugar típico pra tomar Äpfelwein - vinho de maßa, ou a típica Sidra Cereser, mas azeda/amarga. Uma delícia. E foram jarras e jarras, e a conversa com os pais dela fluía.

O amigo, que serviu de intérprete, se divertiu muito no passeio (ainda bem, achei que ele pudesse ficar entediado por já conhecer a cidade ou algo assim.) e conheceu a Frankfurt profunda, onde os bares têm comida típica. Eu comi algo que comeßava com rübs e era uma carne macia e cor de rosa. O amigo comeu um joelho de porco, provamos uma gelatina de carne de porco picadinha e uns filés com molho de sete ervas. Tudo uma delícia.

E bebendo o tal vinho de maßa, eu já entendendo alemao de orelhada. Coisa mágica! Aprendemos o que era o queijo com música (käse mit music/k) - um queijo forte, acebolado, que durante a digestao e no processo de liberaßao de gases produz uma música. Saborosíssimo.

Depois fomos a outro bar, comemos salsichas e mais Äpfelwein, e uma cachaßa de maßa forte também. Muito boa a maneira como nos entrosamos, eu e os pais dela. Confesso que estava com um pouco de medo de como seria, e correu tudo bem. Ficamos mais de 6 horas juntos!

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E agora aqui estou eu, pondo a vida em dia, vendo que meus pais nao escutaram os planos que eu tinha na hora de comprar a passagem pra cá (sim, eles vêm), mandando o endereßo de Madrid pro meu primo enviar o meu telefone por correio... E ansioso por comer um Äpfelstrudel. E quem sabe aprender mais umas palavrinhas de alemao.

postado por: guilherme Terça-feira, Junho 20, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Sim, eu vi o jogo num bar, com a bandeira do Brasil nas costas. Mas não teve muita graça, o povo não estava vibrando e eu acabei indo na deles, ficando tranqüilinho.

E preocupado com o futuro dos meninos de ouro. Humm... É meia-dúzia?

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No El Pais de hoje saiu um texto dizendo que o Alckmin é candidato, e que não se sabe por que o PSDB escolheu o candidato com MENOS CARISMA do partido!

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Faltam umas 72 horas pra eu viajar pra Alemanha. Estou ansioso. E hoje trabalhei o dia inteirinho, estou super cansado e com uma fome do diabo.

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O casal de italianos que eu conheci na Irlanda me mandou um email; talvez venham pra Madrid depois de julho. Acho que em julho eu sou obrigado a passar por Florença, vocês não acham?

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Ah, é! E dinheiro pra isso?

postado por: guilherme Quarta-feira, Junho 14, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Vou contar uma coisa: o ufanismo já me contagia por natureza, mesmo quando estou aí, mesmo quando o ufanismo é bobo. Mas estando uma pessoa longe da sua terra natal o nacionalismo ganha um matiz mais delicado e mais intenso.

Mais ingênuo!

Ainda mais quando a sua terra é simplesmente a MAIS falada dos últimos dias, com fotos exclusivas, com entrevistas com o Ronaldinho, com a biografia das chuteiras dos Ronaldos (explicando as diferenças técnicas), reportagens falando da copa de 50, da de 58, das de 62, 70, 82 (ugh) e 94, Zidane e comentários sobre 98, sucesso absoluto de 2002 e, céus, a maior esperança em 2006.

Parece muito bobo mas não é.

Eu vou é ver esse jogo de daqui a pouco num bar qualquer do meu bairro (que só vai dar na TV paga, e eu não estou pra pagar TV), enrolado na bandeira do Brasil, claro! Ui, que angústia, que ansiedade!

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E os planos pro verão? Quer dizer, os planos de viagem? Já estou com o estômago na garganta!

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Se lembram da prova de história do jornalismo que eu fiz? Se lembram? Pois bem, os anuncio que tirei um 9. E que metade da turma reprovou, e que minha amiga que estudou pra cacete tirou um 8, e muitos cincos por aí. Fiz um bom trabalho. Vou beber por isso, que eu mereço!

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Apesar de ser essa a semana mais cheia de trabalho do mundo, hoje eu folguei o dia todo. Delícia! Pus os emails em dia, olhei mapinha na internet e tudo o mais. Descansei! Ufs! Que no domingo a depressão é tão grande que ninguém consegue descansar...

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Quero mandar um beijo! Estou contente e carente! Ah, e sonhei com a minha avó! Depois eu conto, depois eu conto.

postado por: guilherme Terça-feira, Junho 13, 2006
Palpites pelo mundo:



Sexta-feira

Tomando uma liberdade que não tenho, copio aqui um post de um dos blogs listados aí ao lado:

"dez minutos depois de estar parada no buraco do metrô, entre a estação tiradentes e a armênia, toca o alarme do aviso, e eu penso finalmente vão dar uma explicação. eis o que segue:

- estamos parados porque tem um trem à nossa frente. eu não posso bater esse trem no outro.

naturalmente o vagão inteiro caiu na risada.

o ambiente ficou mais humano."


É que isso me lembra uma coisa que eu precisava escrever sobre o metrô e o trem de Madrid. Aqui esses transportes são mais humanos que aí, embora essa qualificação não seja típica de uma rede eficiente.

Pois vejam o que acontece quase sempre: o maquinista (alguém ainda sabe o que é isso) aperta o botão do apito que avisa do fechamento das portas. Mas as portas não se fecham automàticamente - ele tem que apertar outro botão. E, sempre olhando pelo espelho retrovisor, espera que os passageiros que vêm correndo pela plataforma saltem antes de fechar as portas e seguir viagem.

Na sexta-feira passada, quando fui pra Alcalá de Henares, eu e a aluna alemã corremos para pegar um trem que saía naquele minuto. Chegamos pela traseira do trem e as portas tinham acabado de se fechar. O maquinista nos viu pelo espelho e gentilmente nos abriu as portas outra vez.

Isso me surpreende. E traduz um pouco do que eu sinto em Madrid.

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Eu deveria escrever sobre a minha avó, mas nunca encontro o tempo ou a inspiração. É preciso, necessário e urgente.

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Ah, e a grande novidade da semana - embora isso seja um valor muito relativo, isso de grande novidade; acontece tanta coisa em uma semana! - é que comprei uma passagem da Lan Chile para visitar o querido que está em Frankfurt (aquele mesmo que veio pra cá em fevereiro, busquem aí nos arquivos). Vou ficar 5 dias por lá, aproveitando que o pasto onde estava a minha vaca gorda secou e eu entro no período quase sem trabalho - ou seja, com mais tempo e menos grana.

E não é só. Vou sentir o clima do país sede da Copa; vou me encontrar com o meu primo que está morando na Irlanda (ah! por essa nem eu esperava!) e vai ver Portugal X Irã (jogaço) no sábado 17 - justo o dia que eu chego. Vamos tomar uma cerveja, evidente, que não é todo dia que os aeroportos registram a chegada de dois Alpendres a uma mesma Alemanha.

Estou ansioso. É bom voltar à atividade.

***
E se alguém estranhou o post aí de baixo, eu tranqüilizo: não estava sob efeito de nenhum psicotrópico, nem mesmo bebida alcoólica! Era só emoção mesmo. Chavela, música, minha droga!

postado por: guilherme Sexta-feira, Junho 09, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Jakobson explica, queridos, ele explica! Estava ali, nas funções da linguagem; só eu não percebi:

Função fática: centrada no contato (físico ou psicológico); tudo o que numa mensagem, serve para estabelecer, manter ou cortar o contato (portanto a comunicação) concerne a essa função, que manifesta, essencialmente, a necessidade e o desejo de comunicar.

Entenderam? Manifesta o desejo e a necessidade de comunicar - mas não comunica.

É por isso que às vezes eu faço um post que não diz muita coisa; ou mando um email sem muito sentido, sem mensagem, sem novidades. Às vezes é só um sinal desses que eu preciso enviar; outros dias é só um sinal desses que eu preciso receber.

***
Na quarta-feira passada (uf, faz 8 dias) foi o show da Chavela Vargas. Isso eu conto rápido: eu não fui. E quanto arrependimento.

O quê? Não conhecem a Chavela? Rá.

***
Antes disso, porém, naquele domingo em que eu fui fazer trabalho na casa da minha companheira de classe e conheci a grega que mora com ela (alguém se lembra?; acho que não, cada texto desses é estéril, e morre no segundo seguinte ao que é lido. Pena), como eu dizia, naquele domingo a grega leu a sorte na bôrra do café.

Ok, eu sei que bôrra não tem acento. Mas como se diferencia de borra, o verbo, na terceira pessoa? Hein? Ele borra a parede com bôrra de café.

Sabem o que estava na minha bôrra? Pois eu conto, que òbviamente vocês não sabem: estava uma rena dessas da Papai Noel, mas com os chifres enormes, enormes. Estava também um vulcão muito grande, mais alto que largo, e fumegante; ao lado do vulcão, ondas de uma praia, ondas muito altas.

Decifra-me ou te devoro? Pois eu decifrei até aí. Não conto que aí é demais, vocês também têm que usar a cabecinha. Só que eu escondi uma coisa: na borra também aparecia outra figura, ao lado da rena Papai Noel; uma figura misteriosa e que não tem conexão nenhuma com tudo o que eu decifrei.

Ao lado da rena está um cavalo-marinho. Alguém tem uma pista? Por favor, os comentários estão abertos e eu lembro que podem ser anônimos.

***
Isso foi um domingo. O outro foi esse que passou - olha como eu sou inteligente, sei olhar o calendário. Nesse domingo que passou, dia 4 de junho, eu acordei cedinho para comprar o jornal e ler as notícias tomando café, como um burguês dos anos 50, vendo o movimento da rua (óbvio que o café eu tomei na cafeteria, não em casa).

Poderia comentar um monte de coisa do jornal, mas não vou fazer. Porque não interessa a ninguém! A alguém por acaso interessa um perfil dos moradores do bairro onde se gesta agora a terceira onda de violência em Paris? Quem se importa? Alguém quer saber sobre os imigrantes que saem d'África em barquinhos com o lema "Barcelona ou o Inferno"? Bah!

No domingo esse eu voltei pra casa e me ligou de novo a Tatiana - não, não comecem a imaginar coisas: eu tenho poucos amigos mesmo aqui, e ela é a que mais me liga para inventar programas - para irmos tomar uma cerveja. Tudo bem, já era quase meio-dia! Fomos na Revuelta, que está justo na Calle Latoneros (eu estou na Cuchilleros) e tomamos uma cervejinha cada um, comemos um bacalhauzinho frito cada um. Depois o namorado da Tatiana me avisa que na praça Mayor, nesse mesmo dia, haverá um cozido madrilenho.

Em poucos minutos eu arrasto os dois pra lá: um palco montado, em cima os velhinhos vestidos com a roupa típica, cravos vermelhos (eu tinha um na cabeça, presente da Tatiana). Roubando com os olhos, aprendi um passo do Chotis, a dancinha de Madrid. Já me pus a dançar com uma velhinha - ela tomando cerveja, eu já tinha tomado a minha, que compramos uma garrafa num desses "chinos" para beber mais e gastar menos - a cantar com ela, a me divertir.

Quando menos espero, chamam a MariPepa de Chamberí ao palco. Ela é a cantora típica por excelência, e saiu-se com a de sempre:

Por la calle de Alcalá
con la falda almidoná
y los nardos apoyaos en la cadera,
la florista viene y va
y sonríe descará
por la acera de la calle de Alcalá.

Y el gomoso que la ve
va y le dice: Venga usté
a ponerme en la solapa lo que quiera,
que la flor que usté me dá
con envidia la verá
todo el mundo por la calle de Alcalá.


O pior é que eu já estou decorando... E por aqui já descobriram que não me podem deixar cantar.

Depois do show, abrem umas grades e começam a distribuir, 100% grátis, o tal cozido madrilenho. Não poderíamos comer em silêncio, né?

Cocidito madrileño
repicando en la buhardilla,
que me huele a hierbabuena
y a verbena en las Vistillas.

A mirarte con ternura
yo aprendí desde pequeño,
porque tú eres gloria pura,
cocidito madrileño.


Vêm ali os grãos-de-bico, os pedacinhos de galinha, lingüiças, carnes suspeitas. Tudo feito com amor em gigantes panelas do exército espanhol - que tinham pintada na lateral uma bandeirinha da Espanha - e devorado por pessoas idosas. Algumas levavam de casa as tigelinhas para comer, e os talheres. Lindo!

E claro, depois de comer precisei descansar um pouco. A siesta.

Ninguém mais está lendo, que isso está grande e chato. ¿Qué nos importa?

Sabe o que acontece quando se dorme? Não, não quero dizer que se sonha. O problema é que nesse caso, no caso da minha história, eu vou acordar na quarta-feira anterior, não no domingo mesmo em que eu estava fazendo a siesta.

Vamos fazer assim: eu fico ali dormindo e vocês vêm comigo até a quarta-feira anterior.

***
A Chavela Vargas fez um show em Madrid, num teatro a 500 metros da minha casa. E eu não fui. E por quê? Por estupidez, por achar que não ia dar tempo, por achar que seria caro o ingresso, por pensar que já estava esgotado.

Realmente não daria tempo, que eu saí da minha aula às 20h30 - justa hora do show. Mas, pera aí: a Chavela nasceu no mesmo ano que a minha avó, nasceu em 19. Tem 87 anos (essa é fácil pra mim: é só somar a idade com a que minha avó morreu com os anos que faz que eu sinto a sua falta). E cantou na quarta-feira passada. E eu não fui. Estúpido? É pouco.

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Acordei no domingo à noite e pensei: vou à Fnac comprar um CD da Chavela Vargas. Acho que por masoquismo comprei um ao vivo no Carneggie Hall. Rá!

No meio do disco ela diz "I'm sorry, no puedo hablar inglés" e desata a rir. Depois emenda: "This is most beautiful song the world. The name is Simples Cosas".

E eu comecei a escutar em casa. Baixinho. E a voz dela, e a história dela, e tudo isso me indicou um caminho: a garrafa de whisky. Um gole. Outro gole. Rá, mais um gole. E essa música é boa, mais um gole, tabaco, gole gole, sem gelo, claro. Comecei a cantar junto com ela, mexendo as mãos. Estava sozinho, gritava já. Louco, completamente. Ouvi uma vez, ouvi pela segunda. E aí chegou o meu compañero de piso, com a tradicional pizza dos domingos. Pausa no whisky - Chavela segue, agora com Norberto acompanhando na voz -, enfiamos a pizza goela abaixo e ele começa a me acompanhar. Estava bêbado mas prestei atenção: ele tomou duas tacinhas com gelo. E eu segui sem gelo, e sem contar as minhas.

Quando decidi, depois de ouvir pela quarta vez o disco, já uma hora da manhã, ir pra cama, olho para garrafa: seguramente ali se foi mais de meio litro.

E quem agüenta não beber ouvindo Chavela? E quem segura o coração quando ela canta chorando que "a las cosas simples las devora el tiempo"? Ou que "uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amó la vida"? E a voz safada que diz "ponme la mano aquí, Macorina"?

La barca en que me iré
Lleva una cruz de olvido
Lleva una cruz de amor
Y en esa cruz sin ti
Me moriré de hastio


E a mais forte, a 8 - quer dizer, impossível descobrir qual é a mais forte nesse disco - que diz algo assim :

Y vámonos, donde nadie nos juzgue
Donde nadie nos diga que hacemos mal
Ay, vámonos, alejados del mundo
Donde no haya justicia
Ni leyes, ni nada, nomás nuestro amor


Foi no meio desse mundo, no meio desse espírito, que me deu uma coisa e eu resolvi usar a função fática da língua - peguei o celular que tem menos de um euro de crédito e fiz uma chamada pro Brasil. Desliguei depois do primeiro toque como correm as crianças que nas fotos do Doisneau tocam a campainha de alguma porta de Paris. Sorri com a cara da Amèlie Poulain, olhando pra uma câmera imaginária que não me filmava.

Liguei de novo. Desliguei outra vez, com o mesmo riso!

Tómate esa botella conmigo
El en último trago nos vamos...


E pensei: vou ligar pra mais pessoas. Repeti a operação. E sempre com o sorriso maldosinho, de travessura. E me senti bem, e bebi mais whisky, e liguei de novo. Quatro números, duas vezes para cada número pelo menos.

Nada me han enseñado los años
Siempre caigo en los mismos errores
Otra vez a brindar con extraños
Y a llorar por los mismos dolores


Jakobson, um brinde!

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Ressaca, rá, isso aposto que é o gelo que dá! Acordei meio tontinho, meio enjoado - mas nada que um café da manhã e um banho não resolvam. A manhã de segunda-feira marca um passo, nobre leitor que me acompanhou até aquí, para a minha integração à vida espanhola.

Comprei dois pares de alpargatas. Quê? Branco? Bege? Não: verde um par, vermelho o outro.

E dei uma aula ótima na empresa nesse dia, uma hora e meia de pé, sem nem me dar conta do passar do tempo, sorrindo para os executivos, fazendo piadas, ensinando - foi um prazer!

Aliás, dar essas aulas é um prazer! E cada pessoa pra quem se ensina é um mundo inteiro que se abre, oportunidades, histórias. Na sexta-feira, por exemplo, eu dei uma aula em Alcalá de Henares, num dos pátios da universidade de Alcalá de Henares, aquela mesma do século XVI! E justamente para a aluna alemã, a que mais aprende e mais estuda. São pequeninos prazeres como esses que dão o gosto de cada dia.

Hoje está com gosto de... hummm... frutas vermelhas.

Deveria estar com gosto de laranja, mas o problema é que o sol se escondeu atrás das nuvens. Está nubladinho.

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Nubladinho, mas segue quente. Hoje já distribuíram o número de emergência para casos de calor. Alguém se lembra de quantos velhinhos morreram aqui e na Itália em 2003? Pois ontem à noite estava um calor gigante quando eu saí de casa, às 22h, para tomar cerveja numa terraza (como é que se chama isso, hein, o lugar do bar que tem mesas na calçada?) com a querida que esteve no Brasil. Que gostoso! E olha que eu falei tanto do Brasil, e cantei outro tanto, que ela ficou com saudades de novo, e vontade de ir visitar... me detenho no texto porque me falta a palavra. Ir visitar o quê? O Brasil? Não. O que ela quer visitar é a soma de lugar, gente e momento. Essas três coisas juntas. É de um combo desses que eu tenho saudades. E um não funciona bem sem o outro.

Quer dizer, acho que gente funciona muito bem! O problema é que só com um número enorme de pessoas é possível reproduzir a dinâmica de gentes, para reproduzir o ambiente que ela conheceu.

Eu vou voltar pro Brasil. Pra mesma casa. Pro mesmo banco. Pro mesmo jardim. Tudo será igual, mas estarão os mesmos perto de mim? Eu já sei que não serei o mesmo.

E quando se começa a escrever ao mesmo tempo em que se pensa é sinal de que o silêncio urge. Ainda mais que amanhã eu tenho prova de história do jornalismo na Espanha. ¡Qué fuerte!

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Tudo isso foi escrito escutando Chavela. "Que no somos iguales, dice la gente..."

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E, mais forte, no final de La Llorona ela grita, com a voz rasgada, esganiçada, desesperada, "si ya te he dado la vida, llorona, que más quieres, quieres más"

postado por: guilherme Quarta-feira, Junho 07, 2006
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