Quarta-feira

Este post é um presente.

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Trecho de carta datada de 22 de março do corrente:

"...pensei em te mandar um livro do Alvinho [Álvaro de Campos], mas rapidamente (sic) lembrei que ele pesa muito. E, tchã-nan, tive a fantástica idéia de sugerir a você uma viagem a Portugal com o Alvinho debaixo do braço. Olha a cena, que fantástica: você em Portugal, que para mim é muito intimista (por causa do Alvinho), lendo o Alvinho! quer melhorar? Coloque-se ao lado da escultura do Fernando Pessoa nalguma rua em Lisboa, abra o livro na página do "Passagem das Horas", comece a ler e se emocionar e, nesse instante, have a picture taken [seja fotografado] (eu não sabia dizer isso em português com o sentido que eu queria, de um ser imaginário tirando uma foto sua sem você interferir. NOSSA! NOSSA! NOSSA! ---> Sim, essa sou eu recebendo a foto pelo correio, agitando os bracinhos, com lágrimas nos olhos, o coração disparado e uma emoção que eu nem sei explicar. [...]"

Voilà:

postado por: guilherme Quarta-feira, Maio 31, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Claro que além do roubo aconteceram outras coisas mais no final da semana passada.

Será que por elas vão se interessar os meus dois leitores?

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Como já disse, quinta-feira fui conhecer a hemeroteca municipal de Madrid. Estilo excursão do colégio, com a professora de História do Jornalismo como guia e alguns colegas (os interessados na aula). É demais pegar um jornal do século XVI (1659) e passar a mão pelo papel (claro que torturado pelo pensamento de que aquilo poderia se desintegrar), sentir o cheiro, olhar os sulcos da prensa de Guttenberg naquelas fibras ainda toscas. Realmente uma experiência fascinante.

E, claro, toda excursão tem foto!



Pela ordem: Cristóbal, eu, Alba, ser-desconhecido (é aluno de outro curso que a professora dá), Tatiana, a professora e a funcionária da Hemeroteca que nos ciceroneou.

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Pois no dia seguinte ao roubo eu fui até a casa da Tatiana fazer um trabalho para a faculdade. Não preciso dizer que ela fez quase tudo sozinha, a pobre. Eu só ajudava dando umas idéias e tal. E era a minha parte!

Mas o importante é que passamos um dia estupendo, com cervejinha, conversando na varanda, uma canícula assassina, almoçamos lasagna de atun e abobrinhas e outras coisas vegetais e eu conversei com a compañera de piso dela, a grega Sofia.

É delicioso falar com alguém que tem a mesma empolgação com línguas que eu... Fui um aluno exemplar, em alguns minutos saquei um monte de coisa do alfabeto, comecei a ler uns textos e ela, como boa professora que sabe explorar o raciocínio e compreende que a descoberta por si mesmo enche o ego de confiança e reforça o aprendido, me conduziu com habilidade pelos primeiros meandros dessa língua.

Não preciso dizer, dois leitores, que essa vontade se vem a somar com as outras que eu já tinha.

Ah, não se lembram? Não faz mal, eu conto: queria trabalhar por um mês num petroleiro, atravessar o oceano trabalhando, vendo como é a vida num navio, aportando em países esdrúxulos. Queria também aprender o ofício de relojoeiro - vou atrás disso assim que voltar ao Brasil, quero ficar de aprendiz numa oficina qualquer (qualquer que seja de um velhinho e que só conserte os de corda, claro). Quero aprender todas as línguas do mundo. E estudar história antiga. E saber mais e mais.

Porque quanto mais se sabe, mais se é.

postado por: guilherme Terça-feira, Maio 30, 2006
Palpites pelo mundo:



Sábado

Este post é uma história. Começou na quinta feira...

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À tarde aqui a televisão costuma pôr programas de fofoca. Se chamam "programas de corazón". Na quinta-feira umas pessoas inúteis discutiam sobre a violência em Madrid, principalmente os assaltos a casas. Virou moda aqui roubas casas. Impressionante. E se eu disser que os assaltantes fazem parte de grandes quadrilhas, e usam até mesmo ARMAS para roubar, vocês acreditam?

Deve ser horrível viver num país com esse tipo de violência.

Pois na televisão vi as pessoas discutindo, e um deles disse, com todas as letras, que esse problema de violência era culpa dos imigrantes que chegavam à Espanha. Principalmente os do Leste Europeu.

Me deu muita raiva ver alguém pensando assim, e falando assim, no país que há poucos dias eu elogiei como moderno e avançado.

Ontem, sexta, fui dar aulas na empresa na hora do almoço. Voltei pra casa, comi, descansei um pouco e às 18h30 fui dar a aula pra minha aluna alemã - adoro essa aula. Pois falamos sobre alguns verbos irregulares, fizemos umas frases de exemplo, alguns exercícios e então convidei-a para tomar uma cervejinha. Aceitou! Confesso que fiquei surpreso.

Vamos então à taberna Mentridana, em Lavapiés, perto de onde ela morava. E papo animadíssimo, falando em português os dois, eu sem conseguir tirar a capa de professor e corrigindo as palavras, as pronúncias e os verbos, tomamos uma, e outra, e outra. Clara, preta, long neck e de barril. Pois num dado momento ela começa a me elogiar, dizer que gostava muito das aulas e isso. E começamos a discutir se em espanhol o verbo para elogiar, além de elogiar, era "alabar" ou "alagar". Eu assegurava que era alabar, e ela, alagar. Me curvo para pegar a minha mochila, que estava no chão, ao meu lado e...

...não estava!

Sim, me haviam roubado. Eu, que nunca tive nada subtraído no Brasil (lembrem-se que a novela da Palio Weekend entre Amazonas e Apinajés não envolveu um roubo, mas tão somente uma tentativa de furto), (me lembrei de umas havaianas do projeto Tamar, é verdade, que me roubaram no Rio de Janeiro), tive minha mala roubada. Inteira!

E agora me lembro de um conto que li aqui, um conto grande, que se chama "La Maleta". É russo, e conta a história de um homem que deixa a URSS e vai para os EUA. Ele só tem direito a levar uma mala, e reclama no começo dizendo que as recordações de uma vida não cabem, mas depois cede, vai com a mala (que descobre ser até grande demais para as coisas que ele tinha) e vive por anos na América. Depois encontra a mala, fechada, do mesmo modo que estava quando chegou, e a abre. Dentro, algumas coisas. Cada uma tinha uma história.

Pois gostei da idéia e vou fazer o mesmo com a minha mochila.

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A mochila: na foto que eu publiquei aqui, foto tirada pela Italiana em que aparecemos eu e o italiano andando calmamente por Dublín, estou com essa mochila. Era a minha verde. Comprei com minha mãe quando fui a Portugal pela primeira vez, em julho de 1999. Sete anos, portanto. Levei-a a muitos lugares, e era uma mochila com personalidade, ainda que nada ergonômica. Me fez rir e lembrar dela porque cheguei a Portugal dessa vez, na semana santa, e tudo era muito diferente: o país, as condições, eu mesmo era outro. Só uma coisa não tinha mudado - a mala verde.

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Um dicionário de espanhol: era o Señas, dicionário muito bom. Estou lendo o livro do Kapuscinski, "Viajes con Heródoto", muito bom, e ele sempre fala sobre a muralha que constitui uma língua quando uma pessoa chega a um país e não consegue travar contato com os habitantes, e, por conseqüência, com a cultura. Pois bem, o meu dicionário era o meu martelo e o meu cinzel, era com ele que eu derrubava, tijolo a tijolo, essa muralha imensa que é outra língua. Além disso, era meu instrumento de trabalho - claro, era onde consultava minhas dúvidas e angústias quando os alunos me perguntavam alguma coisa absurda. Tinha a capa vermelha e preta. Era bom, e pesado, e bonito, cheio de fotos de passarinhos. Comprei em julho do ano passado, quando fiz o intensivo de Espanhol já com os olhos voltados para cá. À época eram quatro os olhos que viam Espanha e que iam às aulas, mas, por coisas dessa vida, ficamos dois pra lá, dois pra cá.

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Duas pastas roxas: uma quem me deu foi minha chefa aqui. Dentro eu tinha os livros de português (fotocópias, claro) que eu usava pra dar as aulas e para tirar outras cópias e dar aos alunos. Tinha também alguns textos de jornais brasileiros, que eu imprimo para dar aos alunos, sempre uma coisa moderna e dinâmica. Era velha e estava meio rasgada. Na capa estava escrito "aliás", porque era uma palavra que eu não sabia traduzir e tive que pensar muitíssimo. A outra pasta era nova, reluzente. Encontrei-a, vejam só, no lixo. Dentro dela eu levava todos os papéis da minha disciplina favorita, Historia del Periodismo en España. Textos, fotocópias, impressões de PDF. Umas 100 folhas de conhecimento. Tudo perdido. E vejam como é a vida, na quinta-feira fui com a professora de história e mais alguns companheiros interessados na disciplina (não por acaso são aqueles com quem eu me relaciono) visitar a hemeroteca municipal. Depois, saímos todos pelos bares de Madrid, com a professora. E fomos, claro, ao famoso Casa Labra, na Calle Tetuán, onde foi fundado o PSOE, partido do atual presidente Zapatero. Pois nesse bar eu falei que achava Espanha um país muito moderno e sem preconceitos, e todos me olharam com uma cara horrível - era um país com preconceitos. (Essa passagem será importante mais tarde, acreditem em mim!)

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Um caderno: esse caderno eu comprei nos primeiros dias de Madrid. Comprei numa livaria perto do bairro de Huertas, num dia que caminhava com os dois queridos que vieram aqui me ver no frio fevereiro. Tinha folohas quadriculadas, que usei para escrever cartas e tudo isso. E, além das folhas em branco, tinha todas as anotações da aula de história do jornalismo. Tinha também a planilha com a minha prestação de contas do mês de maio. Lá estavam as primeiras anotações que fiz quando cheguei, nomes de ruas, de cafés, pequenos mapinhas do centro, telefones de gente conhecida, telefones dos alunos. Meu telefone está numa das pastas roxas, está na capa de um dos blocos de fotocópias. Pois este caderno é o que mais me dá pena perder. As anotações, que eu anoto coisas absolutamente desimportantes e anedóticas, são irrecuperáveis!

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As chaves de casa: as chaves tudo bem, já fiz cópias. Mas havia ali algo mais - o chaveiro. O chaveiro minha avó me deu quando voltou de Roma. Ela tinha roubado num hotel, o Hotel Diana, do quarto 306. E eu andava com ele, feliz e faceiro, por Madrid.

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Um pacote de cigarrilhas e dois isqueiros: sem nenhum valor pessoal, sem nenhuma história e sem nenhuma graça.

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Pois imaginem a cena - eu me levanto na taberna e começo a girar em torno do meu próprio eixo, mãos na cabeça, boca aberta artificialmente em reação ao inesperado e absurdo. As pessoas acodem, perguntam, eu conto, saio na rua para olhar, recebo cumprimentos. A minha aluna querida não sabe o que fazer, fica preocupadíssima, se sente culpada.

Enquanto eu estou na rua, ela pergunta ao senhor que estava na mesa ao lado se havia visto algo. Ele diz que sim, que notou uma movimentação de uns "latino americanos desses com traços peruanos e roupas de trabalho". Que terrível. Eles são os suspeitos. Justo no meu país, onde a imigração era feliz. Ah, senhor.

Ela me pergunta então se devemos sair. E eu, calmamente, digo que não, que aproveitemos nossa cervejinha, que conversemos. E seguimos conversando até que escurece (umas 22h). Saímos com uma idéia: quem quer que houvesse roubado a mochila certamente jogaria fora aquele monte de papéis inúteis! Pois saímos os dois, em cena de filme, já meio bebinhos, abrindo todas as lixeiras, dessas que os caminhões recolhem automàticamente. Uma a uma, por várias ruas de Lavapiés (o bairro de imigrantes por excelência), abrimos os "contenedores", ou "basureros", ou ainda "cubos".

Exceto uma pata de porco, uma sacola de roupas, brinquedos, restos de frutas, um mickey mouse de meio metro de altura e os cheiros mais íntimos que se possa imaginar, não encontramos nada interessante. Menos ainda a mochila.

Paramos para usar o banheiro em outro bar e seguimos bebendo. Até a uma da manhã! Volto pra casa cansadíssimo, acordo a argentina para que me abra a porta, conto ràpidamente o acontecido e, bola pra frente.

***
Mas à noite bate a depressão. O "bajón", como dizem aqui. E durmo mal, e inquieto, e acordo achando que foi sonho o roubo e tudo isso que passa. Vou ao meio-dia para a casa de uma amiga, uma das que foi à hemeroteca, para fazer um trabalho. Choro as minhas pitangas e ganho um chaveiro - uma vaquinha de pelúcia, muito másculo.

E estou com vontade de sair desse locutório, em La Latina, e dar mais uma andadinha por Lavapiés... por si acaso...

postado por: guilherme Sábado, Maio 27, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Muito estranho isso. O post que eu publiquei na quinta-feira passada desapareceu. E era um bonito texto, rendia homenagem à minha avó.

O problema de confiar nessa coisa digital-informática-moderna é que agora isso fica irrecuperável. Vamos fazer um concurso, para ver se conseguimos, eu e os cinco leitores, reconstruir as memórias que a era digital apagou. Eu sei que falava de Aranjuez, do concerto de Aranjuez, que era a música favorita da minha avó. O que vocês acrescentam?

***

Confesso que estou angustiadíssimo. Um peso no peito que tá difícil agüentar. Sabem qual é a sensação que eu tenho? Que vou passar essa temporada em Madrid como passaria em São Paulo. Maldita hora em que eu fui arrumar trabalho. Agora não tenho colhões de deixá-lo para viajar, para ganhar milhagem e experiência e conhecimento de mundo e de gente.

E me falta coragem pra viajar sozinho também. Quero ver o sul da Itália, quero ver o leste, quero ver a Rússia, quero visitar os nórdicos, os saxões, os galos. Para cada itinerário eu imagino na minha cabeça uma companhia.

E, pior: para cada decisão que eu tomo eu penso no que as pessoas pensariam disso depois. É, eu não sei mesmo viver pra mim. Ou preciso aprender. Viajar sozinho sempre foi um problema. Este sou eu diante das minhas fraquezas, acabou a graça argumentativa, acabou o texto fluido e gostoso.

"Please don't confront me with my failures
I have not forgotten them"


Preciso que alguém me diga que tudo vai dar certo.

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Hoje é aniversário de outra criatura incrível. Passou um ano na Itália (ah, adivinhem com quem queria visitar as praias do sul desse país?), justo o ano passado que eu passei no Brasil inteiro. Chegou em terras tupiniquins no dia 2 de fevereiro. Foi direto para a cidade onde vivem os pais e de volta a São Paulo só no dia 11, no dia da minha despedida. Nos despedimos no sábado, depois na segunda-feira e na terça-feira.

Aliás, essa terça-feira 14 de fevereiro foi bem movimentada. (E, olha só, vem a ser aniversário de outra figura queridíssima). Pequenas coisas, pequenos detalhes que, agora, nesse exato minuto, estão fazendo meus olhos se encherem de lágrimas.

Se estivesse a mil quilômetros de distância, eu voltaria para visitar. Se estivesse no mesmo continente, eu voltaria pra visitar.

Bosta de oceano.

postado por: guilherme Quarta-feira, Maio 24, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Tanta coisa pra contar e tão pouco tempo! Em poucos minutos sairei daqui, de Getafe, ao sul de Madrid, para dar uma aula a uma estação de distância do aeroporto, no extremo norte. Ó, vida, ó, azar.

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Neste fim de semana esteve aqui a amiga brasileira radicada em Londres. Nos vimos na quinta à noite, bebemos cerveja, depois eu fui pra Aranjuez na sexta, dormi por lá, viemos no sábado pra Madrid e passeamos por aqui o dia todo!

É impressionante como a Europa muda as pessoas. E falo por mim e por ela! Mas no fundo continuamos sendo os mesmos. Foi muito boa a visita e a companhia, mas foi muito rápido e me pegou no final de uma semana de cansaço total! Imaginem que eu dormi a siesta no sábado! Estava arrebentado.

Com ela pra Londres foi um pedacinho da minha preocupação com as pessoas que eu conheço. Espero que esteja tudo bem.

***
E que coragem, viver em Londres. Frio, chuva. Brr.

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Também marcou o final de semana a chamada de uma amiga, dessas que dançam tango por essas plagas! Abençoada seja a telecomunicação. E amaldiçoada também: se aproxima tanto enquanto se fala e se escuta, o vazio que fica quando desligamos o telefone é terrível! Algo como a quarta-feira de cinzas. O silêncio depois da implosão de um edifício. O barulho dos trabalhadores de um cemitério fechando com cimento uma cova depois da morte-velório-enterro. Esse vácuo, esse vazio absoluto que faz pensar: foi verdade ou foi ilusão?

É ilusão com gosto de verdade.

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Como sabem, cultivo o hábito de ler os obituários dos jornais. O El País desse domingo, 21, tem duas coisas impressionantes (para mim) / talvez um pouco interessantes (para vocês, seres humanos normais com vida própria e coisas interessantes pra fazer).

1. Um anúncio tamanho grande diz assim:

"No passado dia 6 de abril de 2006 falece em Madrid, em conseqüência de um atropelamento na avenida de Ramón y Cajal, altura do número 101, muito perto da farmácia, o jovem de 18 anos

José Rafael Álvarez Pastor.

Agradecemos a testemunhas do acidente, que aconteceu às 7h40 do dia 30 de março, ou pessoas que possam contribuir com qualquer informação ou testemunho, que se ponham em contato com a família pelo telefone 999.999.999."

Impressionante, não? O formato é igual ao dos outros, texto miudinho, nome gigante no centro, cruz no canto superior esquerdo. A morte é assim, corriqueira, sorrateira. Pelo menos esse jovem tem um nome, uma hora, um acidente, uma história.

No mesmo El País, mas não nas necrológicas, leio que uma mulher foi encontrada morta na sua casa, num conjunto habitacional desses enormes, cheios de blocos iguais. Ao lado do corpo, sacolas de supermercado. A televisão ligada. A data das compras indica a época da morte: próximo do Natal de 2003. As sacolas tinham presentes e cartões para as irmãs e sobrinhos. A televisão ficou ligada por mais de dois anos. Ninguém sentiu a sua falta, nem os vizinhos se incomodaram com o ruído da TV nem com o mau-cheiro que a casa exalou nos primeiros meses. Sabem por que a encontraram? Porque o senhorio do apartamento cansou de enviar avisos de cobrança e resolveu, dois anos e 5 meses depois, ir pessoalmente cobrar o que lhe era devido.

E olha que essa senhora tinha família!

Pois, por falar em família, vamos ao caso número dois do obituário de domingo:

2.
"Em memória de
D. Miguel Ángel Albert García
Falecido em Madrid aos 27 de março de 2006, aos 82 anos de idade
D. Miguel Ángel Albert Fernandez
Falecido em Madrid aos 10 de maio de 2006, aos 56 anos de idade
A família agradece as inumeráveis mostras de apoio e carinho recebidas."

São pai e filho, se deram conta? São pai e filho. Mas o pai morreu primeiro. O que aconteceu? Um acidente, o pai morre instantaneamente e o filho fica hospitalizado? Ou será que esse filho não agüentou o mundo sem o pai?

Às vezes caminhar sozinho cansa muito.

postado por: guilherme Terça-feira, Maio 23, 2006
Palpites pelo mundo:



As más notícias chegam aqui.

No domingo era na página 5. Ontem se repetiu na página 5, mas o tom era um pouco mais alarmista. O El Pais de hoje, no entanto, já traz a manchete de capa e uma foto de presos ameaçando matar um refem com ferramentas como chaves de fenda e cinzéis. A manchete: "Las bandas criminales ponen en jaque al Estado de São Paulo".

Na página 2 do jornal, reservada à maior notícia internacional, sai assim o título: "El terror se extiende por todo São Paulo". Não preciso traduzir, né?

Que medo, que horror. As fotos que eu vi na Folha depois, um policial com uma escopeta pulando um muro na Penha, pessoas desesperadas "fugindo" para casa. Recebi até um email que comentava, casualmente, que já estava tarde, que eram 20h, hora do toque de recolher.

Já estou me vendo preso num terminal de aeroporto quando o poder for tomado por narcotraficantes.

***
Por falar nisso, adoro a cara que os espanhóis fazem quando comento que o dinheiro dessas organizações vem, na maioria, dos euros que se pagam por haxixe ou cocaína aqui nessas terras. Algumas coisas nunca mudam.

***
E meu emprego corre perigo. Minha chefe decidiu que não quer mais trabalhar com outros professores, que quer ser ela sozinha. Mas parece que essa é uma decisão que ela tomou agora mas só entra em vigor em setembro. Mistério! O que importa é que eu faço um bom trabalho, meus alunos gostam de mim (até me recomendam) e eu tenho aí umas aulinhas asseguradas, depois coloco um anúncio no mesmo El Pais, uns cartazes pelos bares do meu bairro. De algum jeito a gente sobrevive.

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As fotos ficam pra depois, que hoje eu dou uma aula no norte de Madrid daqui a uma hora e meia. Preciso correr!

postado por: guilherme Terça-feira, Maio 16, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

Um dia depois do outro, e o pêndulo flutua. A minha aluna de sexta, a alemã, disse que tinha adorado a minha última aula, que me adorava, que tinha passado a semana inteira pensando em português sobre a nossa conversa do dia anterior. Esse é o verdadeiro salário - pena que não paga o aluguel, só ajuda a dormir em paz.

E, à noite, chego em casa e está em cima da minha mesinha, no quarto, uma garrafa de Ballantines 12 anos. Um bilhetinho na caixa (caixa negra, linda): Felicidades pelo seu aniversário, parabéns à sua pessoa. Para que Cuchilleros 10 (nosso endereço) seja inesquecível. Um abraço, Norberto. Sim, foi o presente do meu companheiro de apartamento!

E depois o final de semana foi espetacular, por conta da festa de São Isidro. Fiz botellón (que é beber na rua) com uma colega da faculdade e uns amigos dela, vi uma zarzuela (espécie de revista de teatro, dessas de inspiração francesa do final do século XIX, começo do XX. Era comum na broadway também). Só que a zarzuela é temperada com aquele gostinho espanhol, um pouco do cômico, do absurdo, traços da cultura espanhola, desse verdadeiro folclore.

Vi música típica, vi danças tradicionais, vi gente feliz na rua as roupas de chulapa e chulo (ela com vestido, lenço na cabeça e um cravo rosa, ele de social e colete, com uma boina xadrez).

E conheci Madrid. Ontem, voltando meio bêbado pelo terceiro dia seguido pra casa (sábado meu café da manhã foi conhaque com anis às 11h, e meu jantar foi cerveja quente às 4h da manhã), comecei a pensar nessa cidade. Acho que Madrid é o que eu pensava que Londres era quando eu tinha 15 anos. Talvez Londres seja mesmo assim, não conheço. Mas Madrid é moderna sem perder o charme, sem perder a identidade. É feliz, é quente, é acolhedora. É um lugar cosmopolita com um pé provinciano, um sorriso maroto. Aqui eu vejo um marroquino, um subsaariano, um chinês, três índios peruanos e uma velhinha espanhola com saia estampada e meia marrom. E todos no metrô com ar condicionado. E todos se respeitando.

Na festa eu vi uma criança chinesa vestida com a roupinha de chulapa. Me emocionei muito. E mais ainda na hora do baile de ontem à noite, com música típica (chotis, jota, paso doble, cuplé) e milhares de velhinhos. Pois no meio dos velhinhos que dançavam estavam também uns jovenzinhos arriscando os passos. E mais no meio ainda, dançando muito bem por sinal, um casal gay. Um dos muitos que estavam na praça, mas um dos únicos que dançava a música típica.

É um país que soube dar um passo adiante.

postado por: guilherme Segunda-feira, Maio 15, 2006
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Sexta-feira

E depois da bonança, a tempestade!

Uma era claramente previsível: depois de viver um dia agitadíssimo, com telefonemas e tudo, e uma quarta-feira repleta de recados carinhosos, a quinta foi terrivelmente vazia.

Mais vazia ainda por causa da segunda tempestade: um dos lugares onde eu dou aula cancelou o contrato. Não querem mais saber nem de português, nem de Portugal.

Tudo bem, ainda tenho mais trabalho. Mas aí me dei conta de que a maioria das minhas aulas acaba daqui a três semanas - que é o momento em que esses alunos vão fazer a prova de mestrado. E aí eu fico com apenas seis horas de aula por semana! Isso sem contar o verão, que será vazio.

Ok, ontem eu entrei em pânico pensando em dinheiro e em gastos.

Como se não fosse suficiente, na minha aula da noite a aluna, Adriana, que fala muito bem português, começou a dizer que tinha ido a uma academia de Português aqui em Madrid, e que era muito bom, que as aulas eram muito boas, que os professores eram muito profissionais, que eram formados em um curso qualquer na faculdade que lhes dava técnica e capacidade para ensinar a língua portuguesa para estrangeiros.

Não preciso dizer que fiquei me sentindo uma merda.

E pensando de onde tirar dinheiro pra sobreviver aqui nessa selva! Senhor, que medo! Jesus me abane!

***
Mas o humor melhorou, e muito, com a programação noturna da televisão. Primeiro um programa que se chama Camera Café. Não é uma idéia original, mas é muito boa e simples: somos colocados na posição da máquina de café de um escritório e as histórias se desenvolvem ali, no pequeno hall com três mesinhas e a porta do banheiro, o elevador ao fundo e uma saída para cada lado, também ao fundo, onde estariam os postos de trabalho. Divertidíssimo.

E ontem foram, como costuma ser, quatro pequenas histórias. Uma delas satirizava os bairros pré-fabricados, esses condomínios com casas absolutamente iguais e nomes de ruas genéricos. O homem se mudava pra casa, mas não conseguia encontrar depois. Entrava na casa errada, a mulher se perdia, o home theatre dele vai parar em um lugar desconhecido, ele recebe 4 lavadoras de roupa, os entregadores de comida chinesa não encontram nenhuma das casas e a rua fica congestionada de motos, moradores famintos acenando nas calçadas. E é totalmente teatral, porque o que vemos é ele contando isso para os companheiros na frente da máquina de café.

E depois, ah, depois, o melhor programa da televisão espanhola. Não à toa é o líder de audiência das 22 às 0h das quintas. Se chama "Aquí No Hay Quien viva". É um retrato de um típico prédio de apartamentos de Madrid, antigo, com os problemas típicos de um prédio antigo, com brigas entre vizinhos, com um síndico que se acha investido de poderes cruciais para a ordem do prédio. Uma porção de situações e de tipos, uma comédia divertidíssima. Eu fico duas horas na frente da TV, rindo alto, batendo palmas, comendo chocolate. Quintas à noite eu simplesmente não posso fazer nada!

Vou ver se eles disponibilizam os DVDs de toda a série, que já tem uns anos.

postado por: guilherme Sexta-feira, Maio 12, 2006
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Quarta-feira

E meu aniversário chega nessa cidade com cinco horas de adianto.

Minha aula era só às 11h, mas eu chego na faculdade às 9h só pra fuçar na internet (e tinha que imprimir um texto também). Na caixa de entrada do email, um cartão digital animado, de três macaquinhos.

Claro que o querido (protagonista do post aí de baixo) foi precavido e mandou o cartão na segunda à noite!

E eu, que adoro um confete, fui avisando as pessoas aos pouquinhos de que era meu aniversário. E ouvindo os "felicidades" dos espanhóis e o arroubo de um deles, claro que é o que esteve no Brasil, que me abraçou e gritou que precisávamos comemorar.

Mas o dia seguia, e eu tinha que trabalhar. Saio da faculdade correndo, trem, outro trem, metrô e outro metrô - aula pra francesa.

E, no final da aula, uma chamada no telefone: a primeira do dia. Que emoção, que vontade de gritar e gargalhar (mas ¿cómo?, com a francesa ali na minha frente), e como a telefonia faz dessas de aproximar as pessoas - até mesmo aquelas que insistem em trocar cartas.

Fui pra casa, virei um copinho de whisky, "almocei" (grão-de-bico cozido enlatado com cebola picadinha e uma lata de atum comprada no El Corte Inglés) às 17h30 e resolvi molhar a garganta com anis.

Toca de novo o telefone. Era o amigo-manancial de curiosidades jornalísticas, de dicas culturais, testemunha de tantos momentos e companheiro de tantas horas. E foi mais uma hora de companheirismo - uma hora no telefone, falando nossas abobrinhas de sempre.

Eu já com o anis subindo, falando mais que escutando.

E de repente a ligação some. Corta. Deve ser um limitador de tempo do meu celular, pra evitar danos cerebrais por causa das microondas cancerígenas. Só que aparece na mesma hora uma mensagem de voz na caixa postal - era a amiga que me ligou quando eu estava em Barcelona, olhando o mar. Que pena não ter podido atender, conversar com ela também.

Mas a noite era uma criança!

No "rádio" de casa eu coloquei Ângela Rô Rô. E fiquei dançando pelos cômodos com a tacinha de anis numa mão, o cigarro na outra, feliz, feliz!

Ligou a linda que está no post de baixo também. E essa aí ligou com a sua dose habitual de carinho MAIS um cronômetro ao lado do telefone - e com razão, que eu já falo muito com ela, sobre muitas coisas e sobre nós mesmos, quando estou sóbrio. Com o anis, senhor, eu estava impossível! Foram cinco minutos entre despedidas e retomadas de assunto.

Dá-lhe anis.

Me liga a vovó, cantando com a voz em falsete o parabéns a você brasileiro com sotaque português. Que linda! Desejou o melhor (como todos, claro) e depois passou pro meu avô, que mais uma vez repetiu que eu não deveria desperdiçar a chance que eu estava tendo, que eu não podia me desviar do trabalho ou dos estudos

E fiquei conversando com a argentina, que chegou em casa nesse ínterim. E falamos de sentimentos, de saudades, de coragem, da falta que nos faz a terra amada. E eu filosofanisando como nunca, num espanhol fluido!

Chega uma mensagem de texto de Portugal! Olha, e nem eram os parentes! Não é que por lá também está semeado o carinho?

Resolvi sair pra rua (trôpego, admito) pra ver o meu companheiro de piso e a ex-namorada dele (pessoal, que babado! Depois eu fofoco sobre isso) nas tabernas onde trabalham. Eram umas 21h30. Descubro que o companheiro não tinha ido trabalhar, que tinha folgado e estava em Jerez, sua terra natal. E fui pora taberna da ex-namorada. Mais dois copos de cerveja, depois de quase meio litro de anis (35% e doce até a raiz da alma). Pedi uma comidinha lá, um pão tostado com filé de frango, pimentão, queijo, cebola e ovo frito equilibrados em cima. Uma delícia.

Pago a conta e volto, trôpego de novo, pra casa. O que eu não sabia é que a noite ainda era uma criança.

Pois me liga minha mãe, perto das 23h. Depois o papai, direto do trabalho dele, umas 23h15. E eu me apronto pra dormir e, cabeça cheia de álcool, durmo.

Durmo tão profundamente que não escuto o telefone tocar quando outra loira da minha vida me liga, uma das mulheres da minha vida, uma flor. E outro recado na caixa-postal com uma pergunta: "está bebendo ou está dormindo?". Dormindo, anjo, que perda de tempo!

Mais tarde, já madrugada, liga outra amiga. Esa eu atendo mas, coitada, eu estava no meio de tanto sono e sonho que mal consegui conversar! Òbviamente ficou registrado o carinho dela, embora eu não me lembre bem das palavras.

E então, às 4h da manhã, toca de novo. Era o amigo que esteve tão longe por um ano inteiro e de quem agora fui eu que me afastei. E ele não perdoa! Embora eu estivesse com sono, segue na retórica, e eu vou acordando, acordando. E ele me conta novidades, me fala da vida dele (ou seja, se aproveitou de mim enquanto eu dormia, que se eu estivesse acordado teria falado mais que ele). Desligo umas 4h30 e não consigo dormir.

É que o coração fica tomado, contagiado com esse carinho que emana de tanta gente, uma coisa sincera, gostosa. Eu estava muito feliz, na cama, com um calorzinho de edredom e provàvelmente com o cérebro afetado pelas ondas do celular. Que sortudo que eu sou, que sortudo.

Esse tipo de coisa não tem como agradecer.

O triste sabe qual foi? Às 6h eu acordei e fui dar aula na empresa na periferia norte de Madrid. "Acordei".

***
E o dia 10 é quase uma ressaca do aniversário, mas no bom sentido. É que, por causa do fuso, eu só vi agora as manifestações virtuais de afeto.

Começa com o post mais lindo do mundo no blog que está aí na coluna ao lado direito. Linda, que homenagem boa! Vocês me mimam demais, e é por isso que eu sinto tanta falta, tanta saudade do país.

E aí um vídeo com o pessoal do tango: a imagem era escura, mas eu vi os traços de todo mundo em movimento, ouvi as piadas, as historinhas e, claro, ouvi todo mundo gritando pra mim: "Ti Fudê!".

E emails, uma porção deles, todos especiais, todos com alguma coisa além de letrinhas, alguma coisa mais profunda.

Olha, eu estou emocionado mesmo, e sei que isso é piegas. Emoção é piegas e a culpa é de vocês!

A última experiência do dia foi ver os recados do Orkut - algumas pessoas tão queridas, outras que eu nem conheço! Divertimento virtual: separar o joio do trigo.

***
Já comparei aqui o aniversário à morte (uf, que horror, alguém se lembra?). Era por causa da atenção especial que recebemos nesses dias, embora no velório o homenageado não consiga desfrutar muito da festa.

Sei que fiquei emocionado. Que ainda estou emocionado. Que queria fazer aniversário uma vez por mês só pra receber essas ligações lindas, e os emails, e tudo. Vocês sabem que eu adoro confete. Mas com vocês em volta, lindos (e são tantos e tão lindos), não faz falta explicitar o carinho. Dá pra sentir daqui, ó!

Fiquei até arrepiado. Obrigado. Vocês são meu melhor presente.

postado por: guilherme Quarta-feira, Maio 10, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

Acho que hoje é uma boa data para escrever um post que eu deveria ter escrito há quase três meses. E sinceramente não sei porque não escrevi.

No dia 10 de fevereiro, uma sexta-feira já reta-final para minha vinda a esas tierras lejanas, eu liguei pra um querido aí em São Paulo. Para tomarmos cerveja, apesar de o tempo estar um pouco feio, meio friozinho. Às 22h30 passo na sua casa e vamos pro melhor lugar no mundo pra se tomar uma cerveja sem compromisso: a Ibotirama.

Pra quem não conhece (ah, pobre criatura você que ainda não foi arrastado por mim para esse paraíso, essa xangri-lá), a Ibotirama é um boteco na rua Augusta, desses "bakery wannabe" - ou seja, que de longe parece uma padaria, mas por dentro se descobre que não faz pão nem deve ter saquinhos de leite Paulista. Lá trabalha o William, o meu garçom: eu sento e peço "o de sempre" e ele me traz a Brahma, um copo, um cinzeiro e um Free longo.

A minha mesa de costume estava ocupada, sentamo-nos bem na porta do lugar, na calçada. Depois de uma hora, mais ou menos, começa a chover. Ao nosso lado, mais perto da rua que da porta do meu boteco estava outra mesa, com dois rapazotes. Dissemos que por favor encostassem a mesa deles na nossa, para não se molharem.

E eles cometeram um erro terrível: começaram a cantar do meu lado. Òbviamente eu girei no meu próprio eixo para ficar paralelo à mesa e começar a conversa (que por acaso começou com Maria Creuza, essa mulher que já protagonizou uma viagem estupenda e que foi o tópico de uma das primeiras conversas com quem hoje é, além de amiga, uma dos cinco leitores.

E que seduz a cada dia mais e mais pessoas.

Mas enfim, começamos a conversar, a cantar. Logo se assoma à mesa uma veterana nossa (minha e do amigo) e puxa uma cadeira depois de passar uns minutos, não seguidos, de pé ao nosso lado.

Vejam que usei o verbo assomar. Não foi à toa.

A conversa flui. Os dois rapazes eram, afinal, vendedores de CDs piratas, margivagantes da noite. Um bom gosto incrível. Comprei três discos: "Acabou Chorare", dos novos baianos, "Samba é Aracy de Almeida", da própria, gravado pelo selo Elenco em 66 e a trilha sonora do Ascensor para o Cadafalso, do Louis Malle. Outro filme que tem história.

Só para fazer uma brincadeira rápida com o tempo, vamos ver umas coisas rápidas: foi num show em homenagem do disco Acabou Chorare, do Sesc Pompéia, que eu conheci melhor os espanhóis com quem convivo aqui. Foi um dia ótimo, eu vi a Baby Consuelo, a Elza Soares - lindo. E, por acaso, naquele dia eu também me havia embebedado na Ibotirama à tarde, e com quem? Com meu primo, este que está na Irlanda.

Ascensor para o Cadafalso é um filme maravilhoso que eu vi uma vez só, no Top Cine. Descobri de uma vez só um cinema maravilhoso, a nouvelle vague francesa, o Louis Malle e, por incrível que pareça, foi meu primeiro contato com Miles Davis. O Chet já vinha de longa data. Outro dos cinco leitores dessa tribuna é aficionado pelo filme e pela trilha, e quer muito o DVD. Aliás, outro leitor este que, além de viajar comigo ao Uruguay, compartilhou os meus piores momentos (no cursinho) e me incentivou a comprar a máquina digital. É fonte inesgotável de curiosidades jornalísticas ou não e um manancial de dicas preciosas no campo cultural (especialmente no tocante a músicas).

Pois bem, só pra terminar a brincadeira rápida com o tempo, dois desses CDs (Aracy e Baianos) foram os que ficaram na casa do amigo do meu pai. Foi por esses CDs que eu voltei lá e vivi experiências fortíssimas. E os CDs estão hoje na Colômbia, sabe-se onde.

Voltando à história, esse dia foi especial: naquela mesa revelou-se um carinho entre pessoas desconhecidas, uma coisa engraçada, um sinal de que é possível conhecer gente interessante na rua, de que, apesar de tudo, ainda se é humano. Eu gostei.

Os dois colegas novos, vendedores de CDs, foram embora e, surpresa, surgem outros dois, esses já queridos desde um bom tempo, que estavam numa festa no centro da cidade! E a festa continua ali, na calçada, com cerveja e porcarias (acho que era uma calabresa gordurenta com maionese).

Num dado momento (não me lembro bem que estava tudo meio nublado já, os neurônios boiando em álcool) aparece no meu boteco o Xico Sá. Por um lado, bacana. Por outro, senhor, está virando uma coqueluchezinha e logo estará tomado de semi-intelectuais da noite egressos do Charm ou do (finado?) Escócia Burger. E o William vai esquecer de mim. E o estudo antropológico de um lugar freqüentado por trabalhadores braçais, prostitutas e "espaços unibancos" a um só tempo vai acabar. Que triste!

E teve o final, que fechou com chave de ouro: numa determinada hora, o garçom da madrugada (o William vai embora às 0h) começa a limpar a nossa mesa, traz a conta. Exigimos mais uma cerveja, nos nega, vamos pegá-la no balcão. O garçom, numa medida drástica, nos tira a mesa. As mesas, as duas. Ficamos ali, sentados nas cadeiras, rindo de nós mesmos.

E eu, muito inteligentemente, argumento: Mas essa lugar não era 24h?
Não, nunca foi!
E eu, não contente, sigo: É, mas pelo que eu me lembro só fechava às 5 da manhã!
São cinco e quinze.

E fomos, eu dirigindo irreponsàvelmente (dado o teor alcoólico, que como eram 3 contas diferentes na mesa deu pra ver que eu e o amigo tomamos juntos 15 garrafas de 600 ml, ou seja, 9 litros entre dois), dando carona pros três amigos e pra veterana, até então uma ilustre "conheço de vista".

No dia seguinte era minha festa de despedida oficial, e o fígado se comportou muitíssimo bem. Sorte!

São esses dias simples, em que expressamos carinho pelas pessoas, que ficam na memória. Esses são os pequenos presentes que ganhamos no cotidiano e que nem sempre sabemos abrir o pacote.

E hoje, aniversário desse querido, eu em vez de dar um presente agradeço os que ganhei - nesse e em muitos outros dias.

***
E, como eu sei que esse post não vai gerar comentários porque os meus cinco leitores são tímidos, conto aqui que comprei outros óculos de sol na feira do Rastro (aquela Benedito Calixto dominical). Cinco euros dessa vez, estou aumentando os gastos consideràvelmente com estética,

Ou anti-estética, vocês dirão.

É uma imitação barata daqueles clássicos Ray Ban, com lentes até as bochechas. Vão, critiquem! Quero sentir a saraivada!

postado por: guilherme Segunda-feira, Maio 08, 2006
Palpites pelo mundo:



Sexta-feira

Olha só que coincidência: ia começar o post de hoje dizendo "coisas que só acontecem na minha vida". Mas isso eu disse ontem!

Começo o post de outro jeito:

Coisas que acontecem na vida de poucas pessoas: estava eu voltando para o metrô depois da dar aula pra minha aluna francesa e sou parado por uma gentil senhora. Ela pediu pra eu gravar uma cena (!) para um programa (!) sobre o metrô de Madrid.

Pausa que eu explico: a televisão daqui é barbaramente popularesca e folclórica - eu adoro. Há milhões de programas de auditório, alguns de caça-palavras, outros de forca (mas eles precisam descobrir expressões inteiras, e há uma roleta, e não podem dizer vogais a menos que comprem, pagando parte do dinheiro que já ganharam no programa - é demais), outros de curiosidades, outros de sorte. Entre eles há o de curiosidades/conhecimentos sobre o metrô de Madrid. Um dos quadrinhos consiste em ver várias pessoas falando bobagens ao lado da "repórter" do programa e, ao final, adivinhar em qual estação (das 157 da cidade mais as 21 de um ramal sul) foram gravadas as imagens.

Pois bem: eu respondi que sim, que gostava de ficar olhando as estrelas (as perguntas não importam) e que claro, claro que fazia desejos sempre que via uma estrela cadente! E desejei sorte aos concursantes do programa.

Bah, isso são bobagenzinhas, caros 5 (ou devo dizer três?) leitores! Coisas do dia-a-dia! Mas que fazem sorrir!

***
Isto posto, voltemos ao tema desses posts, que é fotos!

Seguindo com o capítulo 4





E agora o capítulo 6 e 7, ou seja, as fotos de Dublín!





Essa aí em cima é a catedral de São Patrício. Muito bonita, mas estava fechada. Tem um jardim que é uma loucura!



E esse é o rio Liffey, que divide a cidade ao meio. Amo rios e aqüeductos, e Madrid não tem nem rio nem aqüeducto. Que pena!



Aí em cima outra vez o rio, mas visto desde um dos bancos instalados numa espécia de cais ou píer - uma calçada aérea encostada na margem norte (esquerda) que fica longe de tocar a água.



E o dia acabava, com a garoa típica. Essas fotos, queridos, não existiriam se eu não tivesse perdido o avião. Como não existiria a sensaçõ maravilhosa que tive, uma alegria dessas que eu não consigo segurar e mexo as mãos no ar, empino o nariz e ando dançando, ritmado. Estava ouvindo um tango, Mi Amigo Cholo. Recomendo que olhem a foto da calçada de madeira sobre o rio ouvindo essa música, tem na internet, é com o Atilio Stampone.

Tcharam! Acabou!

***
E agora, atendendo a milhares de pedidos de uma única pessoa (eu mesmo), coloco aqui um recall de fotografias, uns melhores momentos, coisas que ficaram de fora mas que, pelo jeito, agradaram ao povo!



Esses são os barquinhos em Barcelona, estacionados. E pensar que logo depois disso eu fui pra fria Irlanda! Brrr...



E mais:



E agora uma explicação, que eu fiquei devendo - falha imperdoável! Essa "feira" na verdade é o Mercado da Boquería, em Barcelona. É um lugar conhecidíssimo e altamente turístico, e eu descobri por acaso. Ia olhando pros lados, andando pela Rambla, e vi uma entradinha com uma "acera soportalada" (uma calçada, mas coberta com um "puxadinho" dos edifícios, apoiados em pilares. Me explico?). Fui espiar e descobri essa preciosidade.



E essa é a rambla pela qual eu vinha andando.



É que me deu uma saudade do meu cachorro...



E aqui era minha vista, sentado na praia de Barcelona, com jazz bem na orelha. Que tal?

***

Só para tirar as dúvidas, segue o retrato do Tommaso, tomado na Guinness:



Irmão? Ora, por favor! E é óbvio, evidente, que eu não fiz nenhuma disputa de palavras - nem mencionei o assunto, embora me tenha dado vontade de interferir gritando um machinna, ou finestra bem alto no meio da cervejaria!

postado por: guilherme Sexta-feira, Maio 05, 2006
Palpites pelo mundo:



Quinta-feira

Coisas que acontecem quase sempre só na minha vida: mandei o email pros italianos comentando que perdi o avião. Ela me responde entusiasmada, pedindo desculpas e com essas palavras e essa foto:

"I got also some nice pictures of you and Tommaso, specially the one you're walkin' together and laughing instead of hurrin' for not missing the plane..."



Agora algumas fotos da viagem:

Capítulo 2:











Capítulo 4:

postado por: guilherme Quinta-feira, Maio 04, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Ufa, cheguei a Madrid! Mas essa viagem merece um diário de bordo um pouco mais detalhado:

Capítulo 1: a partida.

Como sabem, comprei a passagem para Dublin desde Barcelona, para economizar. Assim, na sexta-feira, às 23h59, peguei o ônibus para Barcelona desde o Intercambiador de Transportes da Avenida América.

Um lugar que traz lembranças. As pessoas partem por ali.

Sentei-me na poltrona e ao meu lado um senhor com algo entre 50 e 55 anos. Começamos, claro, a conversar, e ele era um argentino bem humorado que trabalhava com jornalismo na Espanha desde que a economia argentina foi pro vinagre (2001, 2002).

Papo vai, papo vem, olhem só: ele na verdade fez jornalismo porque não sabia o que fazer. Se chama Eugênio e é músico de coração! Teve uma banda na argentina, gravou discos, chegou a ganhar disco de ouro; cantou com a Mercedes Sosa (!) e foi convidado do Chico Buarque (!) quando ele cantou em Buenos Aires. Conheceu o Vinícius, o Toquinho e a Maria Creuza e é amicíssimo do Gustavo Santaolla - roqueiro já velho que compôs a trilha sonora do Brockeback Mountain.

Escreve notas sobre economia e por isso conhece bem o Brasil. Visitou com os filhos pequenos todas as praias de Ubatuba, Caraguatatuba, Paraty. Esteve no sul todo, litoral e interior. E tinha uma memória prodigiosa.

Ou uma criatividade dos diabos!

Capítulo 2: Barcelona

Cheguei aí na cidade maravilhosa às 8 da manhã. Realmente, que esplendor. Só que eu não tinha nem um guia, nem um mapa, nem uma informação. Nada. Saí da estação, peguei o metrô e escolhi uma parada ao acaso. Desci, peguei a correpondência com a outra linha e desci numa estação qualquer. Tomei uma Coca no bar de um hotel e pedi um mapa ao porteiro.

Munido do mapa, saí andando sem rumo, tirando fotos de tudo (deixei a câmera em casa, este post não é ilustrado). Descobri o porto, os passeios, La Rambla. Descobri que é muito difícil entender català falado assim na rua, entre catalanes. Primeira parada turística: Pedrera. Lindo o prédio do Gaudi, mas não quis nem pensar em ficar na fila de mais de uma hora pra vê-lo por dentro. Daí caminhei até a Sagrada Família, a monstruosa igreja sui generis em eterna construção. Em volta da igreja, ônibus, carros, turistas, ambulâncias, um ruído insuportável. Não entrei nessa também, por causa das filas.

Depois andei de volta até a Pedreira pra pegar o ônibus (o 24) até o Parque Güell. Lindo! Lá comi o pão com o queijo que eu comprara no supermercado, fazendo um pic-nic homenagem. Foi no ônibus que eu conheci um casal de velhotes, simpático, que me disse que eu estava no ônibus certo e que me avisariam quando estivéssemos diante do parque. Quiseram até me dar um presente, uma recordação: um pedaço de papel. O homem é um obcecado por caras humanas em montanhas, acha que isso é um sinal e que precisa divulgar essas imagens.

A quem quiser, www.gratisweb.com/montserrat_rostro.

Saindo daí, peguei o ônibus 92 para ir à praia. Sentei numa mesinha, pedi um café quente (o vento era muito frio) e fiquei admirando o Mediterrâneo azul, o céu azul. Lendo García-Márquez. Fazendo preguicinha. Toca o telefone e é uma amiga do tango, sorriso posto (dava pra sentir o sorriso pela voz) e que quase me manda à merda quando eu respondo à sua pergunta: "Mas onde você tá? Que que você tá fazendo?".

Pego o metrô de volta pra estação de ônibus pra pegar o outro ônibus até Girona, de onde sairia meu vôo.

Capítulo 3: A ida (continuação) e a Irlanda.

Pela primeira vez tive medo de avião. Ryanair. Chego à Irlanda ileso (ou quase, que meus ouvidos quase explodiam por causa da pressão do avião - ou da falta de pressão) e encontro meu primo à espera. Que bom ver uma cara conhecida! Que saudades! Vamos à sua casa, eu conheço sua namorada e jantamos nhoques à bolognesa. Quando eu estava quase dormindo me anunciam que é a hora de ir a um pub.

Um frio tremendo, chuva. Lá vamos nós tomar a Guinness, a primeira de muitas. Os irlandeses compensam o seu clima chuvoso, frio e nublado com uma alegria curiosa, um pouco bruta talvez, meio instintiva: nesse bar, luzes coloridas rodopiavam, iluminando uma pista de dança embalada com os ritmos mais dançantes dos anos 70. Lindo e caríssimo: acho que é o segundo lugar mais caro que eu já visitei na minha vida.

O primeiro vem a seguir.

Capítulo 4: um dia na Irlanda.

No dia seguinte nos levantamos cedo, vamos ao aeroporto e pegamos um Toyota Corolla de aluguel. A direção na Irlanda é inglesa - eu, riam de mim, não sabia. Meu primo dirigia o Corolla com manha, mas era muito estranho vê-lo na esquerda das estradas, ou fazendo as rotatórias ao contrário.

Seguimos para Glendaloch, uma cidade cravada entre montanhas do interior. Dois lagos, um vale, montanhas enormes. Vegetação única, um frio terrível. Um dos lugares mais bonitos que eu já vi.

Almoçamos e eu resolvo pegar no volante. Vou por uma estradinha pequena até Hollywood, serpenteando montanhas com umas plantas estranhas e majoritariamente inúteis.

Dirigir é uma nova sensação. Você se senta no volante e a primeira coisa que faz é bater a mão na porta. Era a tentativa de soltar o frio de mão. A segunda coisa é bater a mão na porta outra vez - é a tentativa de engatar a primeira. A terceira coisa que faz é engatar a quinta marcha, achando que é a primeira, e deixar o carro morrer.

Mas você se acostuma.

Tanto que eu dirigi por mais 200 quilômetros, até...

Capítulo 5: Irlanda do Norte.

...Belfast. Chegamos na capital da Irlanda do Norte no começo da noite, umas 20h30, 21h. Rodamos atrás de um café, sem achar nada. Caminhar era impossível por causa da chuva, forte. Finalmente encontramos, na que batizamos Avenida Faria Lima, o pub mais tradicional do lugar: The Crown.

Guinness e, finalmente, um cigarro. Na Irlanda do Norte, que é Reino Unido, ainda se pode fumar em locais públicos fechados. Na República da Irlanda (Dublin) é proibidíssimo, e os pubs têm o ar puro como o de uma maternidade. Muito estranho isso.

Paguei a conta em libras. Ugh! Sabem que depois da facada que é gastar em euros, as libras não são tão caras? Cada pound é um euro e meio. Pff. Quase três pounds a cervejinha. No fundo, é quase a mesma coisa depois da conversão em relação aos preços da Irlanda.

Capítulo 6: A Fábrica da Guinness

De volta a Dublin, dormi para acordar no que seria meu último dia nessa cidade: a segunda-feira. Meu vôo saiu às 17h40 de lá. Eu fui pela manhã até a Trinity College com o primão, depois ele foi trabalhar e eu fui caminhando até a fábrica da Guinness. No caminho encontro dois italianos, jovens, e começo a conversar. A pergunta é a clássica "você sabe onde é a entrada da fábrica da Guinness", com o meu inglês macarrônico, e ele, em vez de me responder, me lança outra pergunta: "você é italiano?".

Começamos um belo papo, fazemos a visita à fábrica juntos e tomamos nossa Guinness-brinde no último andar da fábrica, com vista fenomenal para toda a cidade.

Papo vai, papo vem, vamos tomar outra, sim, e comer alguma coisa, claro, e assim foi. Fomos pra um pub almoçar, beber umas guinness e descobri que o italiano era jornalista, que a italiana era educadora social, falamos de política, economia, jornalismo, programas esportivos, conjunturas comerciais de Itália e Brasil, coisas assim.

Quando me dou conta, já são 15h40. Saímos do pub, eles me acompanham até o ponto do ônibus. Não encontramos o ponto. Fico esperando um outro. Ele chega. Pego. 16h40. 16h50.

Perdi o vôo por dez minutos. Cheguei às 17h07 no check in, e tinham encerrado às 17h.

Comprei outra passagem para o dia seguinte, ontem, para Reus, ao sul de Barcelona (Girona está ao norte).

Capítulo 7: A volta.

Volto do aeroporto pra cidade e fico andando sem rumo por Dublin. Cidade apaixonante, com aquela cara típica de saxônica, sóbria, ereta, uma cidade com postura impecável. As construções obedecem ao gótico, majoritariamente, e as pessoas pintam as portas com cores vivas - já que as casas, de pedra, adquirem um cinza-verde por conta das chuvas e da umidade.

As pontes sobre o rio, o rio mesmo, verde, a brancura das pessoas, crianças róseas e rechonchudas. Foi bom ter perdido o avião.

No dia seguinte, ontem, acordo em Dublin e meu primo faz questão de me colocar no ônibus. Chego a tempo. Pego o avião, com medo: ele chegaria a Reus às 13h15. Meu ônibus saía de Barcelona às 15h30. Eu tinha, em teoria, duas horas e quinze pra chegar de Reus a Barcelona.

O avião chega às 13h50. Saio correndo e o ônibus pra Barcelona saía às 14h. E chegava à estação de Barcelona às 15h30, exatamente. Só que em outra estação! Tentei ligar pra companhia, as mocinhas do aeroporto entraram no site pra mim, tentamos tudo. Nada. Pego o ônibus já meio resignado, mas com um fio de esperança.

Òbviamente não deu tempo. Cheguei às 15h25 na estação errada e fui direto à bilheteria. E, por milagre, foi possível mudar a hora da volta. Simplesmente uma alteração, para as 17h30. Custo zero (por fim, que o avião me custou 60 euros mais, o ônibus de Reus a Barcelona outros 11 euros, fora os 9 euros da volta de Girona que eu não usei e nem vou usar!).

Capítulo 8: A VOLTA:

Pego o ônibus com previsão de chegar a Madrid às 0h30. Não estava mal, mas o problema é que eu precisava acordar às 6h15 hoje, pra dar uma aula. Pois ele sai e pega um congestionamento de uma hora em Barcelona. Muito bem, chegamos à estrada e vamos indo bem com destino a Madrid. Mas, na metade do caminho, o trânsito pára. Um caminhão capotou no meio da estrada. Esperamos uma hora até a liberação do trânsito. Paramos 45 minutos para jantar e somos obrigados a voltar depois ao mesmo posto porque esquecemos um companheiro de viagem. Conclusão: chego ao terminal de ônibus às 2h30 da manhã. Por sorte as amizades do ônibus (tivemos tempo pra conversar) me disseram que um ônibus me deixava a uns 2 quilômetros de casa. Às 3h da manhã eu andava, feliz, pelas ruas da minha cidade.

Capítulo 9: Epílogo:

O relógio toca. Eu desligo. Durmo. Sigo dormindo até as 9h. Perdi a aula na empresa! Puta merda! Ligo pra empresa e peço mil desculpas aos meus alunos. Minha chefe me liga e lhe custa entender que eu não poderia avisar na empresa que eu não ia dar aulas hoje porque estava dormindo. E segue me perguntando no telefone "E purquê você num avisô? É, lá na impresa?". Sotaque baiano. Sangue judio - já viu, né?

E cá estou, na faculdade, esperando a hora da próxima aula.

É bom vocês terem gostado da história, que depois eu vou colocar as fotos aqui - e aí, quem não leu não vai entender!

postado por: guilherme Quarta-feira, Maio 03, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

O aviao para Girona decolou as 17h40. Nenhum atraso, nenhum contratempo.

Segundo informacoes, a aeronave saiu mais leve que o previsto. E eu ganhei um pouco mais de tempo, embora involuntariamente, para seguir visitando Dublin.

Calma que depois eu conto com calma tudo o que aconteceu. Por ora, torcam pra que eu nao perca outro voo. E para que eu consiga cumprir com o restante das passagens ja compradas.

Pra tudo ha uma primeira vez nessa vida - ate para perder pela primeira vez o aviao cuja passagem foi a primeira comprada pela internet. Senhor!

postado por: guilherme Segunda-feira, Maio 01, 2006
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