Sexta-feira

Ai, resolvi abrir o email antes de ir fazer a minha maratona Madrid-Barcelona-Girona-Dublin e depois tudo ao contrário.

Wow, cada surpresa que me aparece na caixa de entrada! Se lembram da sensação de algodão doce sabor halls preto com mariposas subindo e descendo? Pois estou com essa há uns dois minutos.

Não terei tempo de responder os emei, que vou embora agorinha. Mas respondo na semana que vem. E garanto que neles não haverá nenhuma surpresa, nada de novo. Ou seja, nada pra ficar sonhando, esperando muita coisa.

Wow, que surpresa.

***
Tem mais: morreu o pai de uma das professoras do lugar onde eu trabalho. Ela pegou o avião pro Brasil e eu herdei mais horas de trabalho. Dela, mais 4 horas. E um trabalho novo de mais três horas a semana. Numa semana cheia o orçamento passa dos 250 euros.

Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz...

Amo muito muita gente. Desejem-me sorte e boa viagem!

postado por: guilherme Sexta-feira, Abril 28, 2006
Palpites pelo mundo:



Quinta-feira

Há dias muito bons na agenda!

Ontem foi deles: às quartas me levanto às 6h da manhã. O tempo estava bom, não fazia mais frio. Banho, café da manhã e sanduíche de lacon (algo como o presunto do Chaves) com queijo de ovelha embrulhado no papel alumínio e um iogurte grego colocados na mala à guisa de almoço.

Saio, compro o El País do dia e vou até o metrô (que estava cheio por causa da "operação tartaruga" daqui, uma diminuição de 50% dos trens), pego o trem, chego a Alcobendas para dar aulas um pouco atrasado, tiro da minha mala o equipamento de som (CD player compacto, caixinhas do computador, fontes e transformados 220-110V) e instalo tudo. Uma aula de hora de meia só com três músicas: Você não entende nada, do Caetano, Cotidiano, do chico, e Feijoada Completa, do Chico.

Apoteose. Falo da ditadura. Conto a história da feijoada. Conto detalhes da receita, descrevo o sabor da couve. Os alunos, em vez de achar que foi uma enrolação, saíram satisfeitos.

Venho pra faculdade no que seria a hora do almoço e tenho a minha prática de rádio. Me apaixono por rádio outra vez (é impossível não se apaixonar, é muito forte).

Saio, pego o trem outra vez, como o meu "almoço" sob o olhar curioso dos espanhóis e vou dar a segunda aula do dia. Duas horas de aula, quatro músicas. As mesmas três já citadas e mais a Não Sonho Mais, do chico também. Outra vez sucesso, me perguntam a história de Brasília, me perguntam o que é uca (e, ufa, eu sabia!) por causa de "Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão...". Outro sucesso! Usei até dois poemas do Manuel Bandeira, só pra alegrar (???) o dia: Andorinha e Porquinho da Índia.

Chego em casa e ligo pro amigo que viveu no Brasil! Nos encontramos numa praça, o sol gostoso das 20h, o calorzinho... Tudo com camiseta! Aí liga uma amiga dele, vamos os três pra praça beber cerveja do gargalo (el botellón). Logo chega o namorado do amigo. Depois, a outra companheira de peripécias no Brasil! E lá fico, me embebedando até a 1h da manhã.

E o metrô estava cheio. E a Plaza Mayor tinha turistas, em bando. E estava calor. E bom.

Such a perfect day...

***
Ah, é verdade! Até o iPod resolveu fazer uma seleção maravilhosa de canções no modo aleatório. Achou coisas lindas que nem eu sabia que estavam lá. Perfeito.

***
Hoje o calor também promete. Apesar disso, ando prevenido com a minha blusa!

***
À noite, acho que um cineminha light. Preciso na verdade é pensar na vida. Planejar. Ok, um dia.

***
Recebi uma ligação telefônica tão linda... A gente se derrete inteiro por ouvir a voz dos amores. E as saudades são infindas, e de muita gente. E, ao que parece, as pessoas de quem eu tenho saudades são quase as mesmas que deixaram saudades nos companheiros espanhóis que aí em terras brasileiras estiveram.

Ou bem isso pode ser uma conclusão de um bêbado, que essa conversa eu tive na praça já passava da meia-noite (hora do jornal nacional por essas bandas aí).

postado por: guilherme Quinta-feira, Abril 27, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

ATENÇÃO, aviso importante:

A história do post de baixo NÃO se passou comigo. De fato ela chegou aos meus ouvidos e se passou com OUTRA pessoa.

Se tivesse se passado comigo, certamente não seria uma história mas uma novela, com vários capítulos.

postado por: guilherme Quarta-feira, Abril 26, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Pra vocês não acharem que eu perdi o molho, o ritmo ou os balangandãs, vou contar uma história. Uma dessas que não passou comigo, uma dessas histórias que chegam aos meus ouvidos...

Era um rapaz que havia ido morar sozinho fazia pouco tempo numa cidade longe da sua família. Tinha 21 anos, ou menos, muito novo, e morava num edifício uns 100 anos mais velho, pelo menos. Como acontece freqüentemente, ele, nesses primeiros tempos, tinha dificuldades intestinais: uma prisão de ventre comum entre as pessoas que viajam ou que passam dias em casa alheia. Intestino envergonhado.

Pois bem, o nosso rapaz sofria desse acanhamento, mas não se deu conta. Passaram os dias e, enfim, ele foi ao banheiro. Por mais que se esforçasse, o bolo fecal não queria deixá-lo - é o apêgo, tão esquecido em nossos tempos individualistas. Depois de muito esforço, e por via das dúvidas, acariciou o seu efíncter com um pedacinho de papel higiênico.

Sangue.

Em pânico, nosso herói recorre à única pessoa em quem ele confia naquele lugar novo e inóspito: à vizinha de frente, uma senhorinha com mais e 80 anos.

Do alto de sua sapiência, e escutando a história do nosso jovem, a anciã pensa um pouco, reflete sobre as causas do sangue no ânus do chaval e decreta: "O melhor é chamar a polícia!".

O jovem, tão atordoado com a sua situação e imaginando terríveis hemorragias internas, disca o número da polícia nacional. Chega a viatura, ele e a anciã explicam o caso. Os policiais, cumpridores competentes de seu dever, acalmam o jovem (que, com as dores, não consegue se mover da cadeira onde está sentado) dizendo que algum vasinho deve ter se rompido. O melhor a fazer é chamar uma ambulância.

Vem a ambulância: aos policiais e à anciã, se somam na casa do nosso amigo dois enfermeiros e um médico. Mais o motorista da ambulância.

O esfíncter é analisado ali mesmo, diante dos olhos curiosos de todos os presentes. Nosso herói já não sente vergonha ou qualquer coisa parecida - nesses casos de processa a mesma transformação que acomete as lactantes, mulheres sem pudores que amamentam às vistas - ternas - de todos.

O melhor a fazer é irmos para o pronto-socorro. Maca para transportar o doente, mobilização para fechar a porta do apartamento e dar-lhe as chaves. Faltou o lenço branco na varanda, sacudido pela anciã salvadora.

Segundo o protagonista, ver a cidade pelos frisos da janela da ambulância, embalado pelo uóuó histérico das sirenes e sofrendo as dores do parto (é um parto, quase) foi uma das melhores experiências jamais vividas.

No hospital, três horas esperando pra ser atendido por um médico. Um médico daqueles que usam luvas de borracha e as lubrificam com um gel. O herói sem moral nenhuma se põe de quatro em cima da mesa de exames e o dedo do médido penetra o reto, vasculhando em busca de alguma anormalidade.

Sabe o que senhor tem? Excrementos. Isso precisa ser expelido, mas está duro e seco. Tome essas gotinhas e, no caminho pra casa, passe numa farmácia e compre supositórios de glicerina.

Assim fez. As gotinhas, no entanto, começaram a surtir efeito antes dele chegar em casa, e ele teve de correr. Chegou, o companheiro de piso já estava lá querendo saber o que tinha se passado. Ele não explica, entra no banheiro e começam as contrações, a respiração cachorrinho. "Força agora", uggghhhhh; nada. Os supositórios!!!

Abre uma fresta da porta e estende ao colega a receita. O intrépido colega vai até a farmácia, compra os supositórios e, minutos depois da sua introdução, o milagre.

É um menino. E uma menina. E outro menino, e mais outro.

Foram-se os bebês junto com a água do banho!

postado por: guilherme Terça-feira, Abril 25, 2006
Palpites pelo mundo:



Sábado

Acabei de fazer a minha primeira compra pela internet.

Acabei de comprar uma passagem aérea pela primeira vez.

Acabei de comprar uma passagem de ônibus pela internet.

Acabei de planejar uma viagem pra Irlanda. Será no sábado que vem. O avião sai de Girona, que está perto de Barcelona. Pego dois ônibus pra chegar ao aeroporto.

Estou tremendo de emoção. E quase 200 euros mais pobre! Senhor!

postado por: guilherme Sábado, Abril 22, 2006
Palpites pelo mundo:



Sexta-feira

Tinha esquecido dois CDs lá na casa dele. Na minha gaveta estavam as chaves e fui até lá.

Parece simples, mas não é: entrar no apartamento em que você viveu por 15 dias intensos, sentir o mesmo cheiro (a memória do cheiro é terrível), rever situações diante dos olhos mesmo sabendo que as situações não estão ali. Arrepio.

Algodão doce sabor halls preto e mariposas, tudo junto, sobe do estômago.

A casa está quase totalmente vazia. Os meus CDs já não estão, foram embora com todo o resto para a Colômbia. Na pia está ainda a escova de dentes e a pasta; o aparelho de barbear sujo, a toalha estendida, o tapete da banheira desarrumado.

Na cozinha, um prato sujo, uma colher e um copo. O copo onde bebi tantas vezes a Casera, quando ainda era uma novidade.

Esvaziei a geladeira, joguei o estragado fora. Tirei da dispensa o que se ia estragar, o mais deixei. Apaguei a calefação, estendi um pouco melhor a colcha da cama.

Eu nem tive coragem de sentar no sofá. Via ele ali no sofá, me via ali, via os dois queridos que passaram comigo ali, naquela sala, uns 4 ou 5 dias. Intensos também. E o cheiro era o mesmo, mas estava tudo vazio, sem as fotos, sem as recordações do Barcelona - time do coração -, e a TV desligada.

Se ele estivesse ali, não estaria xingando mais os jogadores do Real Madrid (¡Me cago en la puta!). Acho que xingaria a porra do câncer.

Levei o lixo pra baixo, tranquei a porta e fiz pela última vez aquele caminho até o metrô.

Foi das coisas mais fortes que vivi até hoje.

postado por: guilherme Sexta-feira, Abril 21, 2006
Palpites pelo mundo:



Quinta-feira

Na caixa de entrada, um email do meu pai:

"Gente, lamento mas nos chegou a notícia do falecimento do Xxxx. Nos resta preservar a memória desse senhor que tínhamos como verdadeiro amigo ou 'ponta firme'."


postado por: guilherme Quinta-feira, Abril 20, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Falar de Portugal e colocar fotos é divertido - mas nem tudo é diversão.

Vocês devem se lembrar do amigo do meu pai que tão gentilmente me acolheu na sala da sua casa nas minhas primeiras duas semanas de Madrid, não? Pois ele ficou doente, visitou hospitais aqui e foi enviado de volta pra Colômbia, onde não se sabe ainda se os tratamentos vão dar resultado.

Muito provavelmente eu nunca mais o veja. E ficam lembranças tão gostosas de momentos tão simples, mas tão agradáveis passados juntos. De uma pessoa com coração de ouro que acolheu a mim e mais dois queridos lá na sua casa, que manteve sempre o bom humor, que foi o murão de arrimo nos primeiros tempos de primeiras e primárias angústias.

Foi minha mãe quem me deu a notícia ontem à tarde, por telefone. À tarde ou à noite.

Já tinha bebido à tarde com o colega de quarto, segui na mesma toada depois que ele foi trabalhar, descobri que anis é bom, que anis com gelo é bom, que anis com whisky e gelo também é bom.

Descobri que há muito mais emoção aqui em mim que eu pensava. Falei por telefone, as saudades agudizaram. Chorei sozinho, telefonei, mandei mensagens de texto, sinais de fumaça.

E dormi tão sozinho como sempre. Mas dessa vez dormi com um pouco de medo.

postado por: guilherme Quarta-feira, Abril 19, 2006
Palpites pelo mundo:



Terça-feira

Oh, caros leitores, quantos de vocês terão resistido a tão prolongada exposição a tão enfadonho post no blog? Eu mesmo não agüentaria!

Não percamos o tempo: hoje, terça, estou de volta a Madrid. Já tive aula, a fome não vem e eu vou começar a falar sobre Portugal. Digo começar porque imagino que não terei hoje saúde, tempo ou disposição para contar tudo.

E vocês, desabituados já do estilo, não teriam paciência.

***
Chego a Portugal no domingo pela manhã, 8h20, na Estação de Santa Apolônia. Os primos vão me pegar e me levam até a sua morada, numa cidade próxima a Lisboa (céus, estou condenado a "Osascos" de grandes cidades, embora essa se pareça mais a uma Barueri). Lembrem-se de que domingo de manhã, e eu falo do dia 9 de abril, é o domingo de ramos segundo a igreja católica.

Portugal é um país muito catolíco. Minha família lá é muito católica. Fui à igreja.

Além de católico, Portugal é também um país que, sinto, segue à espera de seu D. Sebastião. Detesto estereótipos desse jeito, mas o mito está presente até nos editoriais dos jornais, que esperam do novo primeiro-ministro medidas fortes com tendência à direita (dizia algo como o pulso forte de uma Thatcher, de um Reagan, alguém com coragem para equilibrar as contas do país a qualquer custo). Esperam medidas da União Européia. Esperam.

É um país atrasado em comparação à Espanha. Apesar de ser tão católico quanto, acredito, é um país com mais velhos, com mais tradições, com muito preconceito e racismo, com xenofobia mais pronunciada (normal - na Espanha há dinheiro e emprego o bastante para sul-americanos, marroquinos, subsaarianos, polacos, romenos e outros; Portugal não anda muito bem das pernas econômicas, e as fontes de recursos da UE estão secando).

Conservador. Rançoso. É a impressão que fica de um país que visito pela segunda vez em 7 anos.

O jornalismo em Portugal, e isso é só um comentário rápido, é péssimo. Os dois grandes jornais do país, Diário de Notícias e Correio da Manhã (se não me engano no nome, era isso) são pequenos, com textos curtos, pouco espaço editorial, pouco aprofundamento. Diferentemente da Espanha, as pessoas não lêem jornal na rua ou no metrô, ou nos cafés. A televisão, ah, essa é igualmente ruim. Acho que é padrão mundial, como o atendimento do Fran's.

***
Apesar do mal retrato, é um país bonito e Lisboa é uma cidade simpática, cheia de historietas. Antes que comecem a reclamar, vou colocar umas fotos do que vi (fotos que me vão lembrar mais histórias).



Este é um dos velhos portugueses que pescam em pleno centro da cidade, na água salobra do Rio Tejo. Aos que se surpreendem com a imagem do fundo, sim, em Lisboa há uma ponte igualzinha à da S. Francisco. É a ponte que leva da capital até a cidade onde moram os meus parentes, na chamada Margem Sul. O Atlântico está á direita da foto, depois da ponte uns poucos quilômetros.

***
Embora pudesse partir para imagens da cidade e da ponte, prefiro antes me enveredar pelo caminho do humano. E qual é o humano de Lisboa?


É a velhota solitária atravessando o rio para a margem sul não num carro sobre a ponte, mas no barquinho de transporte privatizado. Essa senhora, por acaso, vinha comendo um pedaço de pão duro, e roía de vez em quando. Era pobre e não é pelos dentes estragados que eu o digo: em Portugal a maioria das pessoas tem os dentes muito estragados. Vi pessoas com a minha idade que já não tinham os primeiros pré-molares superiores (a saber, o quarto dente contando do meio para os dois lados), gente que arranca o primeiro molar (sexto dente, na ordem) ou o segundo molar. Triste. Gente bonita, gente com dinheiro, gente da minha família que aos 40 anos resolve arrancar tudo e colocar uma dentadura. Lá o dentista é um médico especialista em boca, e preservar dentição passa longe dos planos desses profissionais. Culturalmente, passa longe da preocupação do português médio.


O humano de Lisboa também é a velha que espia pela janela. Isso foi outra diferença notada claramente: há menos gente andando na rua, muito menos que em Madrid. Em compensação, há muito mais pessoas que passam o tempo na janela. E essa imagem é rara, a maioria dos velhotes não tem varanda - espiam diretamente das suas janelas, vez por outra com um gato no peitoril e moldura de azulejos decorados com tons de azul e amarelo.


O homem lisboeta se aposentou: passa o tempo livre com outros homens - e atenção, isso é importante - passa o tempo livre com outros homens em praças públicas (essa, no caso, é o parque Príncipe Real) jogando dominó ou sueca (um jogo rápido e cartas parecido com o o truco).


E o velho lobo-do-mar está cansado e vive da pensão do estado.

***
Lembram-se que aquilo era importante? Os homens passam o tempo jogando com outros homens. E, caminhando por Lisboa ciceroneado pela minha prima (já explico a família também, e o distante grau desse parentesco), vimos essa roda de homens em volta da mesa...



Chegamos perto pra que eu visse como era esse jogo, como era o comportamento desses homens, cada um um retrato, cada um uma vida inteira. Pera lá, eu disse chegamos perto, eu e minhA primA.

Quando um dos cavalheiros se deu conta de que uma moça jovem estava ali à volta, disse bem alto "Isso é uma roda de homens!".

Todos olharam pra ela, que além de mulher é mulata e jovem (parecem pecados nesse país as três coisas - ai dela se fosse lésbica também) e fecharam-lhe o círculo. Eu pude continuar ali e inclusive fotografar-lhes outra vez:



***
O sol em Lishoa se põe lindamente e a noite convida para os fados:


Essa, como vocês já sabem, é a tal ponte 25 de abril, Eu estou no barquinho indo pra margem sul outra vez.


E esta é uma cantora do fado português, numa casa "folclórica" a que fomos jantar, eu e minha família no bairro alto.

***
Espero que se divirtam um pouquinho com essa amostrinha. Em breve, quando o tempo permitir, eu sigo contando coisas. Não posso deixar de contar detalhadamente a minha visita à Guarda, cidade dos meus avós, e o contacto com as minhas tias-avós. Quero explicar coisas da família. Vou mostrar fotos tremendas, assustadoras, e vocês vão perguntar "isso TAMBÉM é Portugal?".

É uma pena que, com as fotos, eu me exima um pouco da responsabilidade da descrição. Ora ora, cavaleiros do apocalipse, ó, apologistas da imagem: aposentem a vossa imaginação - mas não deixem de se emocionar, por favor.

postado por: guilherme Terça-feira, Abril 18, 2006
Palpites pelo mundo:



Sábado

"Porque hoje é sábado" e em breve eu vou apanhar o trem para Portugal, deixo aqui aos curiosos o artigo que saiu em El Pais.

Só pra anunciar, eu estou no teatro; vou ajudar numa peça para crianças de 10 meses a 3 anos. Vou dizer o texto inicial (em espanhol, òbviamente) e evitar que os bebês entrem no espaço cênico.

Estou ansioso: primeiro lidar com gente, depois viajar de trem: duas coisas que eu nunca fiz! Ui...

E logo mando notícias, e fotografias, de Portugal e da parentada. Infelizmente meu primo não poderá ir.

Ai, que saudades... tem uns emails que chegam que mexem com o peão, viu?

---

Un muro y un 'bulldozer'
JOHN BERGER
EL PAÍS - Opinión - 05-04-2006

La otra noche presencié el discurso del presidente [de Francia] a la nación. Hace unos días, tres millones de personas -en su mayoría estudiantes- se manifestaron en la calle contra la nueva ley que permite a las empresas contratar y despedir a jóvenes de forma indiscriminada. Varios comentaristas compararon la dimensión de las protestas -y de la simpatía pública hacia los manifestantes- con la situación de Francia en 1968. Yo no voy a abordar aquí esta comparación histórica. Sólo quiero describir el estilo del discurso del presidente Chirac porque, en muchos aspectos, fue una muestra típica de cómo se dirigen hoy los líderes políticos -por lo menos, en el Primer Mundo- a su pueblo.

Apareció bien preparado y seguro de sí mismo y, sin embargo, daba la impresión de saber de antemano que su intervención no iba a cambiar nada. Que sólo aspiraba a hacer lo que pudiera. No estuvo ni tranquilizador ni ansioso. El tiempo, el cansancio y las fuerzas del orden, sugirió, acabarían por calmar las cosas.

Antiguamente, los dirigentes políticos, cuando hablaban ante su país, ofrecían propuestas de construcción. Podían exagerar, quitar importancia al precio que iba a costar o directamente mentir; sus proyectos podían ser tan distintos entre sí como el Tercer Reich, los Estados Unidos de América o una República Socialista. Pero sus propuestas siempre incluían una visión que había que hacer realidad, o una sociedad que aún no existía y había que crear. Construcción.

En otras situaciones, los líderes políticos proponían la defensa activa de instituciones y costumbres ya existentes, más o menos respetadas por quienes les escuchaban y que se consideraban en peligro. Propuestas de ese tipo desembocaban muchas veces en el chovinismo, el racismo y la caza de brujas. Sin embargo, su retórica alentaba y hacía real, aunque fuera por poco tiempo, un sentimiento generalizado de lealtades compartidas durante la tarea de salvar algo.

La retórica de los dirigentes políticos de hoy no está al servicio de la construcción ni de la conservación. Su objetivo es desmantelar. Desmantelar la herencia social, económica y ética del pasado y, especialmente, todos los mecanismos, asociaciones y normas que expresan solidaridad.

El Fin de la Historia, que es el lema empresarial de la globalización, no es una profecía, sino una orden de borrar el pasado y su herencia en todas partes. El mercado necesita que cada consumidor y cada empleado esté abrumadoramente solo en el presente.
Ningún electorado está preparado todavía para aceptar ese desmantelamiento. Y por un motivo muy sencillo. El acto de votar, sea en una elección libre o manipulada, es una forma de aunar recuerdos en apoyo de una propuesta de programa para el futuro. Nos encontramos aquí con la profunda contradicción entre la tiranía del mercado mundial y la democracia, entre la llamada libertad de consumo y los derechos del ciudadano.

Por consiguiente, el proceso de desmantelamiento tiene que llevarse a cabo de forma disimulada y oculta. Y ésa es la primera tarea política del líder político actual. Por supuesto, también se está desmantelando su propio papel. Pero ellos ya han decidido ejercer, disfrutar y explotar sus poderes, aunque sea disminuidos, en vez de hacer frente a ninguna verdad universal. Eso es lo que explica su pragmatismo y su asombrosa falta de realismo. Eso es lo que explica que sean unos políticos con una capacidad de disimulo sin precedentes. Ellos se dedican a mentir mientras los tratos se cierran en otro sitio.

Volvamos ahora a los discursos típicos de los dirigentes políticos en estos tiempos en los que vivimos. Cada vez que se encuentran con algún tipo de oposición, tienen que ocultar lo que está ocurriendo, y se apresuran a levantar un muro de palabras opacas. La conclusión del discurso de Jacques Chirac es un ejemplo perfecto. "En la República, cuando se trata del interés nacional, no hay que pensar en ganadores ni en perdedores. Debemos estar unidos. Y que cada uno actúe con responsabilidad".

Un muro verbal para esconder lo que está sucediendo. Y al otro lado del muro, el bulldozer sigue desmantelando.

Aun así, con muro o sin él, todos, salvo los que son ricos o los que tienen serias oportunidades de serlo, son conscientes de ese desmantelamiento. De ahí los tres millones de personas en la calle. De ahí la gran preocupación nacional por el desempleo, el riesgo omnipresente de acabar en el paro y el hecho de que cada vez es mayor la carga laboral que se impone a los empleados.
La nueva ley, que aumenta la precariedad del empleo para quienes han terminado sus estudios, se presentó oficialmente como una medida para disminuir el paro a corto plazo.

El daño que ya está ahí no tienen más remedio que reconocerlo oficialmente, pero sus causas y sus consecuencias se ocultan y se rodean de confusión (para que no haya más descontento, revueltas, ira y violencia).

En vez de reconocer la existencia del bulldozer, que es la máquina modernizadora de la tiranía que supone la economía de mercado actual, se refieren al desempleo como si fuera una epidemia o una lacra. Una plaga, es la palabra que utilizó el presidente.

En vez de rebatir el falso concepto de modernización, hablan del brutal desmantelamiento como si fuera un capítulo de las ciencias naturales. "El mundo del trabajo", anunció el presidente, "en perpetua evolución...".

Estos discursos revelan que los líderes políticos que los pronuncian han abdicado, a todos los efectos, de la política. La política, para ellos, es un pretexto. Y a pesar de dirigirse a multitudes (20 millones en el caso de Chirac), hay que observar lo solitarios y, por tanto, absurdos que se han vuelto sus argumentos públicos.

John Berger es escritor británico residente en Francia. Traducción de María Luisa Rodríguez Tapia.

postado por: guilherme Sábado, Abril 08, 2006
Palpites pelo mundo:



Quinta-feira

Babo

postado por: guilherme Quinta-feira, Abril 06, 2006
Palpites pelo mundo:



Isso só pode ser sina: no Brasil eu passava um tempão em trajetos de casa para a faculdade, para o trabalho, pra todo lugar. Eu morava muito longe.

Aí me mudo pro centro de Madrid. E a faculdade está na periferia sul, dois dos trabalhos na periferia norte... Eu moro no trem espanhol.

***
E estou trabalhando bastante. Agora sim ocupei toda a semana, inteirinha. E estou cansado, nossa. Sabe, buscar textos todos os dias pra levar pros aluninhos, pensar no que vou fazer o dia inteiro antes de sair de casa (hoje esqueci o dicionário, parabéns), tirar cópias do material. Muito cansativo.

E preciso aproveitar, que logo começa o verão e as aulas, puf, somem!

***
Esse é minha desculpa pra não contar muitas novidades, nem responder aos emails. Aceitam?

***
Conto coisas rápidas:
1. Na segunda-feira me embebedei com a namorada do Espanhol companheiro de apartamento. Ela é argentina, e ele está viajando pela Argentina. (não confundir com a Argentina que aluga o quarto pra mim). Fiz o jantar (risotto, of course) e depois dançamos tango e tiramos fotos.
1*. Eu esqueci a máquina fotográfica.
2. Comecei a dar aulas para uma alemã poliglota. O que ela quer? Conversação em português do Brasil, de preferência sob re história e política do Brasil no século XX. Sim, eu já imprimi um monte de textos do Getúlio - pai salvador. Evidente que eu pulei a parte da Censura e fui direto pras benesses trabalhistas.
3. Sábado à noite embarco pra Portugal. Embarco é modo de dizer, que na verdade eu entremo (entro no trem!). Estou ansioso.
4. Há dois amigos do Espanhol na minha casa. Ele está viajando e os amigos chegaram ontem. A Argentina também está viajando. Assim que eu sou o anfitrião de pessoas desconhecidas. É um casal. Ele é carpinteiro e ontem ficamos conversando sobre a diferença entre pinho espanhol, pinho russo, carvalho, mogno, e outras árvores e plantas mais.
5. Estou lendo a Pedagogía del Oprimido, do Paulo Freire. Ler Paulo Freire em espanhol é o cúmulo do absurdo.
6. Li um artigo do El Pais estupendo sobre os discursos e medidas do governo francês ante as manifestações. E o artigo abre e expande pra toda uma lógica destrutiva que é vendida em discurso. Muito bom.
7. Pontos 5 e 6 indicam o quê? Que eu nunca mais vou ser o mesmo. Rejuvenesci mais um pouco. Dou lugar ao novo e ao incerto. Que melhore.

Não: o mundo não é o melhor possível. E precisamos, mais que pensar, propôr a agir.

No pasarán.

postado por: guilherme Quinta-feira, Abril 06, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

Meninos, você não sabem!

(ou melhor, sabem; finjamos que não)

O Restaurante na frente da minha casa (aquele que era um predinho marrom meio tortinho e virado para a câmera na foto que eu peguei no Google), o El Botín, pegou fogo!

Agora vamos narrar as coisas cronològicamente, como me agrada:

Sexta-feira à tarde, vou pro locutório mais perto da minha casa, sento no computador número 34 e escrevo esse post aí de baixo. Tinha resolvido comprar uma câmera digital. Saí do computador e fui andando até a loja, tive que esperar uns minutinhos até acabar a maldita hora da siesta e, por fim, adquiri o bem.

Fui pra casa todo alegre e saltitante com a câmera, uma caixa enorme cheia de manuais em línguas indecifráveis (e um dos manuais é em português, ufa!), cabos, fios, bateria, uma parafernália eletrônica terrível e, como toda parafernália eletrônica, condenado à obsolescência. Sentei-me na cadeirinha no meu quarto, liguei a Piaf e pus a bateria para carregar. Enquanto isso, fiquei segurando a câmera com uma das mãos, olhando no manual o que poderia fazer quando ela estivesse com bateria.

Por volta das 18h, não sei por que, resolvi olhar pela janela. E aí eu vejo um montão de fumaça saindo da chaminé do Botín, que fica mais ou menos na altura da minha janela, um pouco mais acima.

Pausa: Em 11 de setembro de 2001 eu vi na televisão, no meu colégio, as imagens dos atentados. Lembro-me claramente que, ao ver uma torre pegando fogo e ser avisado pelos colegas que um avião se havia chocado contra ela, meu pensamento foi "nossa, deve ter havido alguma pane no avião, que acidente terrível". Logo a imagem mostrou o segundo avião, e eu segui o raciocínio: "puxa, deve ser uma alteração nos radares desses aviões, estão perdendo a rota por algum defeito de comunicação".

Play: Explicado o nível da minha ingenuidade, fica claro o que eu pensei ao ver a fumaça quase nuclear que saía da chaminé: "Nossa, como faz fumaça quando eles acendem o forno à lenha, e eu nunca tinha visto...".

Me dei conta de que algo não estava bem e fui até a varanda olhar. Fiquei impressionado, as pessoas caminhavam normalmente na rua, só um rapazinho entrava e saía do restaurante com o telefone.

Céus, era um incêndio! Será que eles não sabiam? (segundo raciocínio ingênuo).

Segundos depois chegam motos e carros da polícia. Mais um pouquinho e encosta um caminhão dos bombeiros. E saem bombeiros correndo com mangueiras para dentro do restaurante no prédio de 1725. Outro caminhão, mais outro, escada magirus, o diabo! Homens e mais homens! A polícia interdita a rua, muitos curiosos ficam com a bariga encostada no cordão de isolamento.

Pela primeira vez eu vi pessoas nas sacadas dos prédios da rua.

E só então me dei conta: Ah, eu tenho uma câmera digital, preciso usá-la! E descobri como se abria o compartimento da bateria, como se punha o "filme", a "pilha", como se ligava, onde disparava, tudo assim, de sopetão.

E o cartão era de 16Mb. Ou seja, era um filme de seis poses!

E duas das fotos saíram razoáveis: primeiro, o aspecto da rua com os caminhões de bombeiros e tudo:



E depois, ah, depois o bombeiro encarapitado no alto das águas-furtadas (uau, primeira vez na vida que uso essa palavra!), depois de instalada a mangueira que debelava o fogo desde a chaminé para dentro da cozinha:



E essas são as primeiras e emocionantes imagens que eu fiz com a tecnologia. Logo haverá mais, mas tenho que ir devagar.

O incêndio? Bom, o incêndio acabou sendo só nas tubulações da chaminé, uma panela de azeite fervente pegou fogo e a gordura se espalhou por todos os dutos de metal. Esses dutos ficam no pátio interior do prédio, portanto os danos ao restaurante, que tem pelo menos 200 anos, foram mínimos. Ele volta a servir refeições amanhã.

Tudo isso eu ouvi inmiscuindome no bolinho de jornalistas que se formou uma hora depois do começo dos eventos.

***
E ontem foi dia de visitar Alcalá de Henares, a terra de Cervantes. Uma graça a cidade, com uma rua cheia de soportales e uma praça agradabilíssima. Visitei a famosa Universidade de Alcalá de Henares, um prédio do século XVI. Faculdade no século XVI. Lembram que Portugal proibia faculdades no Brasil Colônia?

Historietas: a faculdade foi idealizada pelo Cardeal Cisneros, o confessor oficial da rainha Isabel, a Católica. Ele criou um estilo que misturava o gótico, o renascentista e um outro, típico de aragão, que tem inspiração moura. (Turca, pros íntimos). O pobre estava velho e queria vê-la pronta, razão pela qual erigiu-a majoritariamente com tijolos de barro. Anos depois, tudo foi substituído, sem demolição, por pedras. No pátio interior, a frase em latim: "Celebramos em pedra o que um dia foi barro".

E o Cardeal Cisneros morreu. Pediu duas coisas no testamento: que fosse enterrado à moda franciscana, simples e sem ostentações, e que descansasse na capela de santo Ildefonso, que está aí dentro da universidade.

Aí começa o anedotário: construíram para ele, em mármore de Carrara, o mais caro túmulo da história da Espanha. Levou anos, dois escultores, dois estilos, simbologias e mais simbologias. Sobre a caixa fúnebre, uma réplica perfeita de Cisneros em mármore.

Ou seja, não estava com a simplicidade que queria.

Mas aí veio a desamortização dos bens clericais com Cea Bermúdez e, o que passou? A Igreja resolveu remover aquele túmulo de tão grande importância (isso, só pra situar, nos anos 1830, 300 anos depois da morte do nosso amigo). Como removê-lo? Fácil: cortá-lo em fatias. Assim fez, cortou-o em fatias e levou-o para outra igreja.

Lá ficou por 100 anos, até a guerra civil. Um bombardeiro explodiu essa igreja, e o teto desabou justamente em cima do túmulo. A lateral esquerda (do ponto de vista do morto) está preta por causa do fogo. As cabeças de algumas imagens (olha a falta de ordem cronológica, ê, guilherme) foram arrancadas pelas tropas napoleônicas quando da sua passagem por Madrid em direção a Portugal.

O túmulo voltou pro lugar onde o Cisneros queria descansar em paz. Mas o Cisneros não! Ele foi enterrado num lugar simples, franciscano, do jeito que queria. Mas não onde queria! Pobre homem.

***
Só pra continuar no anedotário, essa rainha, Isabel, a Católica, foi responsável pelo surgimento do Estado Nacional Espanhol. E não só: ela conseguiu no mesmo ano expulsar os mouros (turcos...) da Espanha, criar o tal estado nacional e ainda descobrir a América. Mulher de fibra.

A anedota: dizem que quando assumiu o trono, uns dois anos antes de expulsar os mouros, ela jurou que não trocaria a roupa de baixo enquanto a Espanha não estivesse livre dos muçulmanos.

Dois anos depois ela logrou libertar o país e trocar de roupa íntima.

Na França, há uma cor bege meio suja que se chama... Isabel.

postado por: guilherme Segunda-feira, Abril 03, 2006
Palpites pelo mundo:





De Mel
Mind the Gap
Em Preto e Branco
Torre de Papel
Poluição d'Idéias
suco
Tabacaria
La vie en rose
Retalhos do Mosaico




Atual
Arquivo