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Sexta-feira
Ai, céus, morreu a velhinha de Taubaté: estou pesquisando umas câmeras aqui na internet e me parece que encontrei uma câmera digital perfeita - um sonho em promoção, pra dizer a verdade!
Vou comprá-la hoje à tarde.
Pronto. O último teimoso analógico do mundo sucumbiu; sorride, ó cavaleiros do apocalipse digital. A velhinha de Taubaté morreu.
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Tanto tempo sem postar exige atualizações: o casal de brasileiros com quem eu fiz amizade (bla bla bla) voltou para o Brasil na quarta-feira, na hora do almoço. À guisa de despedida, eu fui com eles "passear" na terça-feira à tarde.
E foi aí que descobri como há formas e formas de fazer turismo.
O passeio deles, comigo e com uma amiga (esposa do antigo patrão do senhor Miguel, que mora em Madrid), consistiu numa busca por coisas para comprar. Andamos por todo o bairro de Lavapiés, entrando nas lojas de venda por atacado. Dúzias de leques foram comprados, echarpes, bijouterias, lenços, o diabo.
No final, levei os três para tomar um café lá em casa, e o que aconteceu? A dona Pedrina, nome dessa amiga do casal que vive em Madrid, topou me acompanhar num café com whisky. Detalhe: ela tem 74 anos.
Além disso, vai me presentear com três cadeiras que estão sobrando no apartamento dela. Lá em casa faltam cadeiras, uma falta crônica.
Ah, e o marido dela, o antigo patrão do Miguel, é o Juan: espanhol que viveu anos no Brasil, trabalhou na Excelsior e depois na Bandeirantes e hoje conserta rádios da primeira metade do século XX, numa oficina que está onde? Na minha rua.
***
Detalhes tão pequenos que quase passam desapercebidos:
No metrô:
Dentro dos vagões, como sói, há um sistema de som que anuncia as próximas paradas. O detalhe é que aqui esse sistema é padronizado em todas as (segurem-se nas cadeiras) 12 linhas e no ramal que liga duas dessas linhas. Antes de o trem chegar a qualquer das 157 estações, uma voz de homem anuncia:
Próxima parada...
e uma suave voz feminina arremata:
Opera.
Novamente o nosso tenor:
Correspondencia con...
e ela:
Línea 2 y ramal Opera-Príncipe Pio.
Esse jograu é encantador.
Música:
Como se ouvir os anúncios das paradas já não fosse melodia suficiente para os ouvidos, há muita gente tocando de tudo nos corredores do metrô. Agora uma curiosidade: já ouvi o tico-tico no fubá tocado num telado e numa guitarra dentro desses túneis.
Quer mais? Já ouvi o tico-tico no fubá na minha rua, interpretado por um sanfoneiro cigano.
Ainda não é o bastante? Então preparem-se: hoje, chegando em casa, um velhinho está tocando a sanfona. A música me era familiar, mas eu não reconhecia... Era porque faltavam os aplausos do auditório "lá, lá, lá, lá - hey - lá, lá, lá, lá... Agora é hora de alegria vamos sorrir e cantar do mundo não se leva nada vamos sorrir e cantar
lá, lá, lá, lá... lá, lá, lá, lá".
Impressionante? Não, ainda não.
Higiene:
No mundo espanhol/europeu não existe tradução para a palavra rodo. O motivo é muito simples: não existe rodo! E como se lava uma cozinha, pergunta o leitor mais experimentado. Não se lava. A minha cozinha não tem ralo. O meu banheiro não tem ralo. Não tem rodo em casa. Que desespero! Em contrapartida os banheiros são mais cheirosos porque não há um cesto de papéis - tudo descarga abaixo.
Esninar português:
É divertidíssimo, acreditem! As pérolas que ouvimos são fabulosas. Exemplo:
- Queria fazer uma pregunta...
- Pergunta se diz em português.
- Ahhh... pergunta.
e, um minuto depois, o mesmo espanhol, orgulhoso de si, me diz o que faz na empresa:
- Sou porgamador.
- Programador.
- Mas não é pergunta?
Na outra aula, eles aprendendo os números. Cada um da roda de quatro dizia um número, de um a vinte, em sentido horário.
- ...
- Nove.
- Dez.
- Doze.
E eu intercedo:
- Faltou o onze!
Nada nesse mundo vai sem tréplica:
- Ué, a semana não começa na SEGUNDA-feira? Então!
No fundo eu me divirto muito. E o pior é que estou tomando carinho pelos alunos. Que merda! Eles sõ minha fonte de euros, não objetos da minha atenção!
Hoje fiquei uma hora depois da aula para a Francesa batendo papo com ela e a vizinha, outra francesa, que morou no Rio por muitos anos. Ela talvez me traga cigarros do Brasil quando voltar das férias dela de uma semana. E já me disse que vai dar umas dicas quentes do que fazer em Paris.
Cadê o distanciamento profissional, puta merda!
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Comprei os bilhetes para embarcar no trem para Lisboa. Será no dia 8 de abril, às 22h45. Chego aqui de volta 9 dias depois, no dia 18 de manhã. Ai, que delícia!
O melhor é que talvez meu primo, conhecido de muitos aqui, também vá: falei com meu avô no telefone e ele quase chorou de orgulho dizendo que estava muito feliz por eu ir com meu primo visitar a terra onde ele nasceu e as irmãs deles (minhas tias-avós, tias do meu primo) que vivem naquele fim de mundo, isoladas.
Eu quase chorei.
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Aliás, essa semana foi de arrebenta coração: emails emocionantes que eu recebi (infelizmente não pude responder a todos, ainda), emails emocionados que eu mandei, notícias tristes que me fizeram querer sumir num segundo daqui e aparecer ao lado de duas pessoinhas. Em resumo, um turbilhão!
Não é que eu sobrevivi?
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Trilha sonora oficial dessa minha experiência: Piaf, sem dúvida. O dia inteiro. Emoção, intensidade, exagero, choro, riso, morte, dor, alegria, explosão.
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Sim, eu bebi um pouquinho hoje no almoço.
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Ontem falei por telefone com umas flores aí no Brasil. Que sorridentes minhas flores. E meu pai me ligou também, era 1h da manhã. Ok, eu confesso: é ele quem vai me "dar" a câmera fotográfica. ("...cause my card belongs to daddy").
postado por: guilherme Sexta-feira, Março 31, 2006
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
Novidades curtas, que o tempo ruge!
Ontem fui tomar café com o casal de aposentados brasileiros. Eles me ligaram e, claro, foi com prazer que os encontrei. E então eu soube de coisas terríveis!
O pai desse senhor está no Brasil tremendamente doente. No hospital, UTI, pneumonia e trombose, 89 anos, demência senil. É, esse foi o papo na maior parte da noite.
Triste é que talvez ele volte para lá hoje ou amanhã; a esposa dele talvez fique, as férias estão sendo um horror, com a cabeça ocupada em preocupações lejanas.
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Para não perder o ritmo, vamos seguir com notícias tristes: meus óculos escuros sumiram. Eu sei que muitos de vocês vão sorrir e comemorar, mas a verdade é que eu estou bem triste... Eram justamente aqueles Ray Ban 1989, que foram da mamãe e que eu levava com orgulho no rosto. Os que viram tantas coisas junto comigo, os que caíram no chão tantas vezes, os que uma vez se partiram ao meio na frente do prédio da faculdade. Eles. Meus companheiros.
À noite eu não conseguia dormir pensando nos óculos. E sofrendo porque EU os perdi. E a culpa é toda MINHA.
A argentina, que voltou de Barcelona ontem, me levou até a Feira do Rastro, a Benedito Calixto. Fomos entrando nos meandros da feira, que eu não conhecia, e eu comprei dois óculos escuros novos/velhos. Mas o que se parece mais ao que eu tinha (tinha, tinha, tinha...) tem a armação mais prateada que dourada. O outro, bem douradinho, ah, esse é redondo demais: eu John Lennon, coisas que não acontecia com o assentamento perfeito dos outros óculos.
Que merda.
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E começa a super semana cheia de compromissos. É por isso que eu não poderei hoje responder aos emails carinhosos (outros burocráticos) que me chegam. Lastimo profundamente, vocês devem imaginar.
Daqui a pouco vou ao banco. Depois almoçar, depois dar aulas de portugês, depois estar em casa sem internet e com tempo livre. Maldição.
Aliás, aviso aos incautos: começou o horário de verão aqui. Agora estamos a cinco horas de distância... E, se aqui são 11h40 da manhã, pff, vocês ainda engatinham o dia: nem sete horas. Nem quem mora em outra cidade, no interior, pegou o ônibus pra chegar à civilização.
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Mariano José de Larra, como os editores de El Censor, ou mesmo Ortega y Gasset já no século XX, se depararam sempre com o mesmo problema, que os obrigava a matar-se, fechar seu negócio jornal, ou vender a empresa informativa: não havia eco em suas declarações. Escreviam para quem? E por quê?
Nobres... Pitágora ensinou a arte e a ciência do silêncio, o calar; peço-os que escutem o silêncio, leiam o vazio:
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Machado, Machado... Sai de mim!
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E o post terminava assim, afugentando Machado. Saí da sala de informática e ia até a biblioteca quando pensei: por que não começar a procurar os óculos escuros. E fui até a sala da Xérox, apenas um dos 800 lugares pelos quais eu havia planejado passar depois de rememorar todos os meus feitos dessa última semana.
Entro na sala da xérox, mostro os óculos John Lennon que levo comigo e pergunto se eu não havia olvidado uns óculos escuros "como estes". A moça sorri, diz que sim, abre uma gaveta e tira de lá os preciosos Ray Ban. E a superioridade é facilmente percebida... Agora que levo os dois pendurados na gola da blusa fica fácil comparar e entender porque eu chorava tanto a perda deste ente querido.
Viram? Só voltei porque uma história triste que mal foi contada teve um desenlace feliz. Vocês sabem que eu não edito posts.
postado por: guilherme Segunda-feira, Março 27, 2006
Palpites pelo mundo:
Sábado
Eita, nada como dar um dia de descanso à internet. Claro, faltam emails, sobram saudades, falta uma dica preciosa sobre qual câmera digital comprar (ok, eu me rendo à tecnologia, mas seguirei praguejando contra ela), sobram surpresas nos comentários e nos emails! Quem diria! Quantos anos, Jéssica? Desde 1998 que não nos vemos, se eu não estou enganado. Vão aí quase 8 anos!
E a emoção que será receber uma carta escrita, pelo correio? Putz, me mata. Faz tempo que, junto da televisão, a companhia das noites solitárias era sabem quê? Abrir os extratos do banco, que eu já sabia de cor pelas visitas à agência online pela internet 24 horas super demais e ficar lendo os nomes dos estabelecimentos onde eu havia passado o Visa Electron. Lembrando os dias, as comidas, as companhias, o clima, tudo.
Ei, isso me dá uma idéia de uma história... Aguardem.
Mas as minhas considerações pessoais não dizem respeito mais à tônica dominante desse blog. E, cinco leitores, embora finjam serem mais, rá, eu os conheço a todos e sei o que buscam aqui: o mesmo.
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Ontem eu fiz amizade com um casal de aposentados brasileiros.
Tudo começou quando eu fui dar aulas de português a uma francesa que mora aqui em Madrid mas que passou 6 anos vivendo no México. Impressionante como ela é mais esperta com línguas que os espanhóis, pobrezinhos.
Depois de duas horas de aula intensiva - ela quer aprender alguma coisinha só para ir passar uns dias de férias no Rio, no dia 8 do mês que vem -, fui até o aeroporto trocar meus travellers cheques (também conhecidos como Palio Weekend de bolso) por euros de verdade.
Voltar no metrô com notas de 500 euros é uma experiência de tirar o fôlego. Imaginar que cada NOTA daquelas representava uma vez e meia o meu salário do último local de trabalho, ou 5 vezes o pago daquele outro emprego que eu tive, naquela empresa de difusão de informação por ondas... Nossa.
E, no metrô, ajudei um monte de gente a levar as malas pelas escadas não rolantes (sabem como é, solidariedade de quem sofreu por causa disso, com malas e metrô). Num momento qualquer, um senhor me perguntou se a rua Arenal ficava perto da porta do Sol. Percebi um sotaque, disse que sim e perguntei se ele era brasileiro.
Conversamos um tempão, ajudei-o e à sua esposa a levar as malas até o hotel, conheci a suíte onde vão passar uma semana e já convidei-os para uma xícara de café brasileiro no meu apartamento.
E assim vou conhecendo gente...
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Droga, o tempo de internet está acabando!
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E depois, à noite, fui com os amigos ibéricos e seus companheiros autóctones para um restaurante chinês, e depois para um bar. No bar, joguei um jogo de conhecimentos gerais, e foi uma tragédia: não sabia nada! Maldita cultura espanhola que eu não conheço! E a geografia!
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Estar sozinho é ir fazer compras no mercado mais barato (DIA%) e parar na internet no caminho. E ficar escrevendo num blog com duas sacolas de compras ao lado e um pacote-desconto com 24 rolos de papel higiênico.
postado por: guilherme Sábado, Março 25, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
Ai, que tédio! O post de ontem tinha 12 comentários (acho que três de cada pessoa, inclusive três meus) e esse aí de baixo, que tinha por intenção causar inveja e outros sentimentos baixos, tem só um gracejo. Meu.
Mas, tudo passa (como as uvas) e um dia vem depois do outro com suas exigências particulares. E hoje o dia é de certa amargura.
E por quê?, perguntam vocês nobres leitores.
Porque a empresa cancelou 3h30 de aulas que eu tinha por semana. Ou seja, me restam 5 horas e meia, o bastante pra pagar o aluguel e só. Triste isso, não! Justo no primeiro dia de trabalho... Mas logo começo a espalhar cartazes de aulas e a coisa esquenta um pouco.
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Aliás, comentário rápido sobre a aula: sabem o que é ter a cara de pau pra chegar de calça jeans e jaquetinha cáqui à Jânio Quadros numa empresa a começar a pedir a dois executivos transnacionais engravatados de seus cinqüenta anos que repitam pausadamente:
Eu sou, tu és, ele é, nós somos, eles são.
Faltou o vós? Bah, bobagem, isso não aparece mais nos livros de português para estrangeiros. Triste uma língua morrendo aos pouquinhos.
E não existe prazer maior no mundo que mostrar aos senhores o som do "não". E eles náo, e eu não, e eles náo... Terrível!
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Sobre ficar sozinho - e isso vai em pílulas diárias, ou quase:
Você sabe que está sozinho quando começa a prestar atenção no leve chacoalhar do corpo com os batimentos cardíacos. E quando liga a televisão mesmo num canal que não te interessa, só pra fazer companhia.
E sabe o que vai passar a cada noite em cada canal. Ó, senhor!
postado por: guilherme Quinta-feira, Março 23, 2006
Palpites pelo mundo:
Quarta-feira
É, clube dos cinco, os rumores se confirmam: amanhã, quinta, começo a trabalhar dando aulas de português numa empresa.
Mas, mais importante que isso é que ontem a Sharon Stone esteve em Madrid. Eu não a vi, que não sou tiete de porta de cinema (aliás, um cinema espetacular, o mesmo onde eu vi o novo filme do Almodóvar nesse final de semana).
Novo filme do Almodóvar???
Yes, sir!
Um elencaço, uma história deliciosa, tudo muito bom. Pena que eu não posso discorrer sobre os acontecimentos do filme... É impossível dar uma idéia de filmes de Almodóvar sem estragar a história, não é?
Não se preocupem, nobres leitores. Não vou ser estraga-prazeres a este ponto.
Sei que nos Estados Unidos a estréia será no dia 23 de junho. No Brasil alguém faz idéia?
Não percam o Transamérica, que estréia em abril!
E eu prometo tentar fazer dessa tribuna algo de leitura mais agradável, sim?
postado por: guilherme Quarta-feira, Março 22, 2006
Palpites pelo mundo:
Terça-feira
O bom de ser uma tribuna intimista é que dá pra criar bordões! Ou vai dizer que ninguém sabe o que vem depois dessa canção?:
"Agora é hora
de alegria
vamos sorrir e cantar
do mundo não se leva nada
vamos sorrir e cantar
lá, lá, lá, lá... lá, lá, lá, lá"
Obrigado a todos pela torcida e pelos votos - vejo que muitos me querem aqui distante por muito tempo, não?... Eu consegui um trabalho!
É, eu sei que não deveria cantar vitória antes de começar, mas é que a mulher para quem eu mandei um dos currículos me ligou hoje e disse pra eu passar na casa dela às 10h30 da noite (sim, isso é comum nesse horário louco desse povo louco, são 14h30 e eu ainda não estou me mexendo pra almoçar) para pegar os primeiros trabalhos... Dois em empresas e mais alguns pingadinhos aí, com alunos.
Que tal, hein? É, meus amores, digo, leitores, os ventos mudam e, dependendo das entradas de fundos na minha (UFA, CONSEGUI ABRIR) conta no banco, eu prolongo a estadia por essas terras... Ou faço da mesma estadia um reino de maravilhas, uma vida com os pés pro ar, mais ou menos como eu levava aí em terras tupiniquins.
Saudades do vidão!
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Agora o informe meteorológico: esse final de semana prolongado o tempo em Madrid foi uma loucura: a mais absurda inconstância, ora ventos gelados de fazer ouvir o coração apertado, ora um calorão sem tamanho desses de inundar o corpo (embora fosse só uns 22 graus, é um baita calor), um abre e fecha do céu, ora azul ora cinza ora branco ora preto...
O melhor é que essas condições meteorológicas inconstantes promovem a formação dos arco-íris. Lindos os arco-íris europeus, não? Quem já os conhece dentre vós, cinco leitores? hum?
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Pois, como o tempo ficou assim esquisito, eu não fui viajar nem pra Extremadura nem para Toledo. Que coisa triste! Vou ter que adiar tudo para o próximo final de semana! Ou o outro.
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Uma citação, para vocês terem idéia do que passa dentro dessa cabecinha que pode chorar com um Getúlio ou com um Allende. Neste momento estou mais para esquerda estudantil francesa.
Este pequenino trecho foi publicado no jornal espanhol El Conciso em 2 de setembro de 1810. (Mil oitocentos e dez, quando o Brasil abriu os portos às mercadorias inglesas, lembram? Brasil colônia, Portugal, pau Brasil, família real no Rio... passado distante):
"La falta de libertad opone obstáculos a que la opinión se manifieste, pero no puede quitarnos el don precioso de pensar. Si así no fuese, ¡desgraciado género humano!, gemirías eternamente bajo el férreo yugo de los tiranos. Mas, ¡oh, don celestial!, la opinión es un continuo roedor que, con terribles amenazas, recuerda su deber a los tiranos"
O que me lembra a discussão que eu tive com meu pai no carro, faz uns meses. Publiquei aqui, mas ninguém vai se lembrar. Papai me disse "não é porque estamos de mãos atadas que também vamos parar de pensar." O post está datado de 30 de setembro.
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Vocês nem imaginam o que passou hoje na aula: eu acabei sendo mais uma vez um bom aluno... Respondi com clareza a alguns questionamentos da professora sobre a história deste país - o que mais leio é a história deste país - e depois fiz um comentário, baseado em textos de jornalistas espanhóis do primeiro terço do século XIX, que deixou a professora sem palavras. E os seus elogios ao meu comentário me deixaram vermelho. E acho que toda a sala acredita que eu sou um babaca, só porque eu leio os textos, falo com a professora, sento na primeira fila e demonstro o meu verdadeiro interesse.
É, acho que eu sou babaca mesmo.
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Mas não se preocupe, nobre leitor. Nem você, estimadíssima leitora fiel, se alegre tanto. Eu não deixei de ser eu mesmo: durante essa semana que passou, eu dormi algumas vezes em cima dos livros, enquanto lia. E sabem por quê? Culpa do Whisky! Estudar, ouvir jazz, fumar e tomar whisky ao mesmo tempo não funciona.
Vou ter que parar de estudar.
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O comentário do último post me lembrou uma frase do meu avô, também conhecido como Big Fish (talvez alusão ao peixe que ele pescou no alto do morro do Pão de Açúcar, pescaria documentada em foto): se você não quer uma surpresa desagradável, não faça surpresas a ninguém.
Calma, calma! Estou só dizendo que se alguém resolve aparecer aqui assim, sem avisar, eu posso não estar na cidade, entendem? Rá, entendem! Pobre de mim, estou falando sozinho já a essas alturas do post... Posso começar a reclamar que ALGUMAS pessoas não mandaram pelo correio uma coisinha que eu pedi, que outras não respondem email, que outras somem pelo lago gelado do continente e não dão mais sinal, que outras ainda prometem visitas à Europa e não cumprem! Ha ha, ninguém chega até o final de um post como esse.
Eu mesmo já estou lá em cima, almoçando.
postado por: guilherme Terça-feira, Março 21, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
Chega de posts!
Só umas novidades: Talvez eu passe esse feriado prolongado (aqui é feriado o dia de S. José, domingo, e, automàticamente, a segunda vira folga - ê, país gostoso) em Extremadura, junto com o amigo espanhol!
Se eu não for com ele, vou pra Toledo! Hunf!
E na Páscoa, Lisboa.
E logo logo compro uma passagem de ônibus pra Paris, com descontos enormes pela antecedência de dois meses.
Tudo caminha, tudo caminha! Até Pero Vaz!
postado por: guilherme Quinta-feira, Março 16, 2006
Palpites pelo mundo:
Terça-feira
Parece incrível! Parece impressionante! Mas aconteceu! Preparem-se e, se você, nobre leitor, tem coração frágil, não siga adiante. Eu, no cargo de dono-redator-editor desta tribuna, não me responsabilizo. Aqui começa a fabulosa, quase insuperável (não se esqueçam do Hipoglós), estupenda
História Da Lavanderia De Madrid
Tudo começou no dia que eu cheguei a este país: a cada momento um pedacinho de pele ou pó se prendia num pedaço de tecido e eu tinha uma nova peça de roupa suja. Como sabem, cheguei aqui já faz algum tempo e assim a roupa suja vinha se avolumando.
Ontem ficou insustentável e, depois do agradável almoço com o Espanhol, fomos os dois até a lavanderia mais próxima de casa.
Nossa casa não tem lavadora.
Depois de caminhar por umas quatro quadras, ele com uma mochila dessas de alpinista e mais uma sacola, eu com uma das malas que trouxe, tudo cheio de roupa suja, chegamos à uma lavanderia automática: você põe as moedas, ela funciona. Nenhum atendente, nenhum emprego.
Eram já mais de 19h40, e um aviso dizia que às 21h as portas se fechariam automaticamente e as luzes se apagariam.
Pois bem, colocamos toda a roupa na maior máquina que eu já vi na minha vida (17 quilos) e compramos o detergente na máquina de sabão, depois coocamos as moedas, tudo perfeito. A roupa começou a lavar-se.
Enquanto isso um homem completamente atrapalhado conseguiu a proeza de colocar a roupa suja dele em uma máquina e ativar a outra máquina - ou seja, perdeu uma lavada e ficamos o tempo todo vendo uma máquina funcionando vazia. Esse mesmo homem tentava se comunicar em espanhol claro com um australiano radicado em Londres que estava ali ao lado, esperando civilizadamente, como sói, sua roupa.
Depois de meia hora olhando a máquina remexendo-se em cores, eram já quase 20h30, termina o processo. Vamos abrir a porta e... não abre!
Sim. A roupa ficou presa na máquina! Enquanto não sabíamos, eu e o espanhol, o que fazer, chegaram três rapazes. Eu cheguei a pensar que eram responsáveis pelo lugar, mas eram moleques. Tentaram abrir a lavadora com força, não deu certo, deram duas sugestões geniais (quebrar o vidro da tampa e pegas a roupa pelo buraco ou levar a lavadora inteira para casa) e depois foram até a máquina onde se paga pelas lavadas.
Mexeram um pouco daqui, um pouco dali, abriram a máquina, pegaram TODAS as moedas, inclusive os OITO euros que pagáramos por aquele mico e se foram.
Eu entrei em pânico! Iam voltar e roubar a minha roupa! Todos os pares de meia, todas as cuecas, tudo estava li dentro, preso.
Ficamos esperando até o fechamento automático das portas (que de fato aconteceu às 21h00) e depois fui pra casa.
Vi três episódios seguidos de CSI na televisão. Entre dois deles não agüentei e voltei pra lavanderia, só para ver se estava tudo bem.
Hoje acordamos pouco antes das 8h e fomos nós, chave inglesa e atuquês em punho, resgatar a roupa. Uns tapinhas de aqui, uns parafusos soltos de lá, um pouco de força, um estalido seco e pumba, arrancamos a porta. Parece grotesco, não? E foi. A roupa, úmida e guardada ali por uma noite, estava com um cheiro meio estranho, mas mesmo assim, nós a trasladamos para a secadora, que estava ao lado, e deixamos aí meia hora.
Agora está tudo na nossa casa, esparramado sobre camas, cadeiras, pendurados em portas e quinas de mesas, fechaduras, colhcão, malas... Tudo está forrado com roupas resgatadas com bravura, e eu estou aqui longe torcendo para que sequem!
E que ninguém pense que os vândalos que arrombaram a máquina de lavar são os mesmos que arrombaram a central de pagamento automático!
postado por: guilherme Terça-feira, Março 14, 2006
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
Olha só como é a vida! Às vezes isso aqui fica às moscas e ninguém nem se dá conta. Outras, como hoje, é só ficar um fim de semana sem dar notícias e pronto, começam os milhares de pedidos dos meus cinco leitores (ou no caso, de um deles) e forma-se congestionamento na minha porta, o povo pedindo novidades. Daqui a pouco começam a chegar as cartas e os faxes!
Às novidades!
Na sexta-feira passada chegou o novo morador da República (da) Argentina! Um Espanhol simpático chamado Norberto que, entre outras coisas, anda de bicicleta, toca acordeon (sim, já falamos sobre música caipira, não, Inezita ainda não está em pauta por aqui; ainda), trabalha como garçom num bar, é ator e bom papo! Levou três amigos e uma van para a mudança, a ainda assim não foi fácil: cama, mesa, bicicleta e acordeon, puff de temática árabe, abat-jour, cadeira, caixas de livros, caixa de panelas e comidas.
E, mal ele chegou eu fui ao cinema! Sim, ao cine Doré aí de baixo! Um filme chatíssimo, numa sala, a 2, que é igual a qualquer outra sala burocrática por aí.
Quando eu caminhava de volta para casa, sob um vento dos diabos, cruzo com ele a a namorada (outra argentina) na rua e vamos os três pra um bar, tomar umas cañas de cerveja. Saímos dali à meia-noite, que eu precisava dormir. (Calma que já explico por que. Esse post vai ser longo.
Em casa eu cozinhei enquanto ele organizava as suas coisas. E ficou uma beleza o meu risoto! Comemos e eu dormi, que no sábado...
Segóvia, lá fui eu! Peguei o trem bem cedinho, às 8h, na estação de Atocha e prrrummm, fui-me pra Segovia. 95 quilômetros, duas horas de trem (um trem espanhol, igual a esses que circulam pelas linhas C e D da CPTM de São Paulo). A cidade é linda, e esse aí em cima é o Alcázar, a residência oficial dos reis do reino de Castilla. E eu me dando conta do absurdo, reis de um reino e suas batalhas contra os mouros (rá, piada pronta! Alcázar é palavra árabe!), idade média - bizarro!
Mais bizarro foi seguir caminhando pela cidade e encontrar coisa ainda mais antiga: o acueducto construído durante os tempos de domínio do império romano. Século I, para ser mais preciso, por volta do ano 50.
E, ainda, do século XVI (pff, suuuuper nova) a catedral do lugar, impressionante!
Na volta eu estava podre de tanto andar em piso de pedra irregular (em Minas se chama pé-de-moleque o calçamento, aqui não sei) e vim cochilando no trem. À noite não me fiz de rogado: comi um pãozinho e fui ao cinema! De novo à Filmoteca Nacional. E, dessa vez, Paul Newman:
The Hustler em inglês, El Buscavidas em espanhol. Como se chama em português? N.P.I. Uma pérola! eu ficava emocionado com as tomadas das mesas de bilhar, com a trilha jazzística, com a fumaça dos cigarros, com o Minesota Fats, com tudo. Um filme muito legal, tolinho e envolvente, como sói.
O domingo, caros, foi entre a televisão com a corrida (¡¡¡Alonso!!!), o almoço (lentilhas, arroz, legumes guisados) e a história da Espanha, que eu resolvi estudar de verdade!
E a luta diária pra aprender a ser sozinho, viu?
Aliás, li um romance bacana, se chama Corazón tan Blanco, e agora estou lendo um do mesmo autor. Pois, nesse que eu estou lendo agora há uma passagem interessante em que se considera que morrer é deixar um monte de histórias incompletas: primeiro a sua própria, claro, porque o protagonista, por definição, só morre no final. (Machado, não se preocupe, meus cinco leitores são diferentes dos seus e não vão me questionar). As outras, e aí é que está, são as vidas daqueles que o protagonista conhecia. Ou seja, as histórias seguem, mas você não pode mais acompanhá-las.
É arrancar páginas de um livro. É roubar um rolo inteiro de uma projeção.
Viajar é um pouco a oportunidade de saber o que aconteceria caso você morresse. E tudo ia ficar mais ou menos igual.
Ai, que coisa horrível! Melhor comparar a morte com os aniversários!
postado por: guilherme Segunda-feira, Março 13, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
Eu sempre fui melhor com narrações que com descrições, mas acho que a guinada no estilo desse blog, de uma enfadonha viagem introspectiva com traços das pequenas curiosidades quotidianas para um enfadonho relato de viagem ao exterior, pede que se avolumem as descrições.
Em breve, Dé, vou colocar alguma coisa sobre cheiros. Os cheiros sempre me encantaram, quem me conhece sabe bem, mas eu nunca escrevi nada sobre eles! Como pode?
Deixemos os cheiros pra depois, porque ontem eu fui a um cinema que não tinha cheiro de nada.
Não que com isso eu queira dizer que era um cinema insosso, sem graça: não, simplesmente não tinha cheiros e é por isso que eu não vou falar de cheiros hoje.
Ontem eu fui ao Cine Doré! Tá, e daí? É a sala de projeção da Filmoteca Española! Deve ter uns 80 anos no mínimo, e está sabem como? Preservadíssima, originalíssima! Houve sim algumas reformas, claro, mas foram todas no sentido de restaurar, não de modernizar.
Arrumei no google duas fotos dele, um "antes e depois".
E essa é só a fachada. Dentro é uma sala não muito grande, mas longe de ser pequena! Um pé direito de mais de 10 metros, com certeza, com poltronas macias vermelhas, novas mas com o design adequadíssimo ao cinema - parecem importadas da época! O teto é todo desenhado em azul, o chão é pintado de vermelho... E eu vi o filme ontem no mezanino! Um senhor mezanino, com balaustrada trabalhada em metal e uma visão magnífica da tela: mais quadrada que retangular, com duas pinturas ao lado (uma é um navio chegando num porto, a outra eu não lembro) em tons de azul, uma coisa linda.
E quando vai começar a projeção, eles apagam as duas fileiras de lâmpadas incandescentes - dispostas em toda a volta da sala justo onde acaba o piso do mezanino para abrir-se, embaixo, a platéia - que se parecem a lâmpadas de camarim, dessas dos estereótipos, e a maior surpresa: uma pesada cortina azul se abr automaticamente e revela a tela branca onde mergulharemos na grande ilusão!
E a grande ilusão de ontem foi o filme Infâmia, no Brasil, Calumnia, aqui e The Laudest Whisper no original. É com a Audrey Hepburn e conta como uma escola, prestem atenção, é arruinada quando, a partir de uma mentira contada por uma aluna, todos passam a crer que as duas donas, sócias e professoras são amantes!
O filme é explêndido, e valeu a pena revê-lo.
Agora um Quiz-Guilherme: o que têm em comum os três filmes que eu vi aqui na Espanha? Hein?
postado por: guilherme Quinta-feira, Março 09, 2006
Palpites pelo mundo:
Terça-feira
Aí, ó:
Primeiro a Plaza Mayor, à tarde, vista desde o Arco de Cuchilleros e La Latina em direção à Puerta del Sol.
Agora, o arco de Cuchilleros visto de fora. Se a Plaza Mayor é um quadrado, essa é uma das pontas do quadrado, a quina da Plaza Mayor. E esse buraco vi dar dentro dela.
E, se você sair da Plaza Mayor por esse buraco, vai ver a minha rua. Tcharam!
Não dá pra ver o meu prédio, mas ele está à direita dessa rua, em frente à última sacada que se vê do lado esquerdo. Esse prédio marrom, meio tortinho pra foto, em frente dos carros estacionados abriga o restaurante Botín. O prédio taí desde 1725. O Restaurante, dizem que é o mais antigo do mundo. A ver!
postado por: guilherme Terça-feira, Março 07, 2006
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
É, acabei de descobrir que o filme sobre o qual eu queria tergiversar só estréia em São Paulo em abril... É o Transamérica, com a Felicity Huffman. Vejam, é terrivelmente emocionante e duro. Óbvio que eu chorei.
E em abril, ok, eu comento algumas coisas sobre a história.
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Adivinhem quem perdeu a hora hoje???
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Mandei currículo para uma escola de português aqui de Madrid. A ver no que dá!
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Ontem fiquei passeando por uma feira que se chama Feira do Rastro. Uma Benedito Calixto espichada, sem comida, sem chorinho, sem discos de vinil e com muita tranqueira. Depois entrei na Catedral de Almudena, a Sé da cidade, e reparei num negocinho incrível - já tinha visto no Brasil, mas aqui me chamou mais atenção: uma caixinha de acrílico com muitas velinhas de plástico dentro. Na ponta de cada uma, uma lampadinha.
E aí você, católico ortodoxo romano madrileño ou não se aproxima, enfia uma moeda de 50 centavos de euro e algumas lampadinhas se acendem. Pronto! Você já rendeu sua homenagem aos santos que estão no altar correspondente àquelas "velinhas".
Ridículo.
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Acabei de pegar o meu primeiro livro na biblioteca, de anotar o endereço de uma milonga pertinho de casa na quarta-feira depois das 23h (ai, esse fuso espanhol me mata!) e vou voltar para a cidade para descansar da meia aula que consegui ver hoje.
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Px, quase esqueço: emmer, preciso do seu e-mail.
postado por: guilherme Segunda-feira, Março 06, 2006
Palpites pelo mundo:
Sexta-feira
Antes de mais nada: hoje eu vi a Rainha da Espanha de perto. Detalhes, só depois de ler toda essa chatice que segue...
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Me mudei para a casa nova ontem! Foram duas viagens de metrô, carregando malas e tudo. Cheguei lá exausto, mas fui tão bem recebido pela Argentina (que me deu uns folderes de um bar com jazz, de um centro de artes, de uma mostra de curta-metragens... Me convidou a ir ao teatro neste final de semana, e à noite (leia-se às 2h da manhã) a um tablao de flamenco.
E depois de tudo colocado ali no roupeiro, o colchãozinho com os lençóis, a mesinha com cadeira, a luminária, as tranqueiras que eu trouxe... Se eu tivesse mais discos e mais livros, seria o quarto perfeito.
Olha, segredo, hein, não contem pra ninguém: no quarto tem um cinzeiro só pra mim...
---Nossa, de repente lembrei da Clarice Lispector---
Enfim estou me sentindo em casa. Se bem que agora estou num Cyber Café (aquele mesmo que eu citei dias atrás, que é um pouco mais barato, um euro por hora e sem marroquinos vendo bombas) no centro, ou seja, do lado de casa.
E a Praça Mayor é meu quintal! Hoje tomei café da manhã do outro lado da rua, junto com a turistada e vendo máquinas fotográficas e filmadoras desfilando na frente da minha casa... Como estou feliz! Vamos ver quanto tempo dura a felicidade.
***
E, para vocês não acharem que é tudo um mar de rosas, vamos dar uma olhada no lado escuro da lua, sim?
Para alugar um piso, bem sabeis, é preciso ter dinheiro. E fui eu trocar os Traveller Cheques. Na verdade venho tentando fazer isso, e abrir uma conta num banco, há muito tempo.
Pois bem, alugado o quarto fez-se mister ter dinheiro para pagar por ele. Fui até o Caja Madrid, o Bradesco daqui, pobrão, tem em todo lugar. Queriam 10% de comissão. Fui à internet procurar onde se trocavam os tais travellers, e lá diziam que em qualquer agência do Santander ou do Banesto (outro gigante aqui).
Fui ao Santander e ninguém sabia do que eu estava falando. Me disseram que eu teria que abrir uma conta, subemeter os travellers a consulta e esperar uns dois dias.
Hoje fui ao Banesto. O homem que me atendeu ficou surpreso com os travellers, procurou um livro de normas do banco, encontrou, fez o procedimento e o sistema não aceitou os meus cheques. Fui até a sede central do Banesto e... Sim, aí sabiam o que eu queria, sabiam como faz[e-lo, mas... só era permitido trocar 300 euros por dia por pessoa.
A moça do caixa, simpática, me orientou a ir até a agência central da American Express (e não vá embora ainda, leitor, que a melhor parte se aproxima), ao lado do parlamento ou que seja aqui da Espanha.
Caminhei e caminhei, e cheguei no suposto escritório da Amex. Suposto? Sim. Era da Amex até a semana passada. Agora eles cobram uma comissão de 1%.
Eu troquei aí mesmo, sabendo que poderei trocar os outros todos no aeroporto, sem comissão. Só que o aeroporto é tão longe quanto Guarulhos!
***
E, saindo daí eu vejo um aglomerado de gente numa rua. Pergunto o que é e me dizem que é uma missa especial da Quaresma. Vou atrás, turista que sou e me informo com as senhoras católicas: o aglomerado é para entrar na igreja, que estava fechada por conta da presença da rainha!
Claro que eu fiquei ali no gargarejo esperando que a Reina Sofía em pessoa saísse. Saiu: o povo aplaudia e saudava dando tchauzinho com a mão, e ela respondia também, muito simpática, saudando o povo.
Fiquei emocionado, embora nunca tivesse visto a tal Rainha.
Passou de carro do meu lado, janela aberta, mão para fora dando tchauzinho.
E se aquele ao seu lado era o Rei, pfff. Que impopular!
postado por: guilherme Sexta-feira, Março 03, 2006
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
"Agora é hora
de alegria
vamos sorrir e cantar
do mundo não se leva nada
vamos sorrir e cantar
lá, lá, lá, lá... lá, lá, lá, lá"
Ah, estourem as champanhas! Que soltem os fogos de artifício e que se calem as musas do pessimismo, que se cale Nietzsch! Que desabrochem flores e frutifiquem árvores, que brilhe o sol e aqueça corações!
Aluguei o quarto no apartamento que eu queria. Me mudo hoje à tarde.
E vou tirar umas fotos com minha máquina convencional, logo as revelo, mando por correio pro Brasil, alguém digitaliza e me manda por e-mail e aí eu ilustro aqui o que quero dizer quando digo que a casa está num lugar fantástico!
Uf! E não me lembrem que eu estou pagando mil reais de aluguel por mês por um quarto, hein?
postado por: guilherme Quinta-feira, Março 02, 2006
Palpites pelo mundo:
Quarta-feira
Eu detesto postar mais antes que as pessoas tenham lido o que já está postado. E qual a única ferramenta que eu tenho para aferir a leitura? Os comentários. Bom, o Carnaval também é um bom indicador de não-leitura.
Mas acho que vou criar um outro link ao lado dos comentários, um link que funcione assim como um contador manual: você lê e faz um tique, "lido".
Não queria escrever porque sei que quem lê um blog costuma ater-se ao post mais recente. Bem, que seja. Lastimo, porém, que aqueles que passaram o Carnaval fora vão ficar sem o relato da minha primeira nevada, da minha via-báris, das primeiras aulas, dos intestinos, do Brokeback Mountain, da história do jornalismo na Espanha.
Bah, e a quem interessa se não a mim mesmo? E assim me despeço da bendita promessa de ano-novo.
***
A busca por uma moradia continua! Imaginem vocês que na segunda-feira eu comprei um jornal aqui que se chama Segunda Mano (sim, igualzinho mas sem a maçã da versão tupiniquim) e comecei a olhar a única página com ofertas de quartos em apartamentos compartilhados. Acho que uns 80% eu já descartei de cara porque estão longe do centro da cidade, que é onde quero viver.
Sentei num banco de rua e fiquei com meu celular (ah, é, comprei um celular e isso não é mais novidade) ligando de um em um. A maioria queria mulheres e não fumantes, outros queriam casais sem filhos e por fim fiquei com três que tinham valores acessíveis e estavam bem localizados.
Preciso fazer uma pausa para explicar o que são valores acessíveis aqui em Madrid: busco algo de no máximo 350 euros por mês. Não estou falando de um apartamento, mas de um quarto num apartamento. Eu sei que vocês vão dizer que com esse dinheiro dá pra alugar uma casa fabulosa em São Paulo, ou um belo apartamento, embora pequeno. Mas é que São Paulo fica um pouquinho fora de mão pra mim.
O primeiro me chegou
Como quem vem do florista...
Fui visitar o primeiro lugar, de 390 euros por mês. Era um apartamento de 4 quartos com 3 estudantes, duas moças francesas e um moço mexicano. Uma sujeira sem tamanho em todos os lugares da casa, exceto no quarto por alugar, mobiliado profissionalmente pelo dono do apê que vive disso.
Disse que tinha gostado e fui ver o segundo lugar:
O segundo me chegou
Como quem chega do bar
A rua era estreita, cheia de obras nos arredores e com predinhos meio feios. O predinho aonde eu ia também era feio, e me abriram a porta para subir até o terceiro piso. Por dentro era a visão do inferno: um átrio para onde davam janelas e varandinhas de todos os apartamentos, cinco andares, creio, 4 por andar. Era sujo, cheio de roupas penduradas, um cheiro insuportável de comida.
Abri a porta e era outro mundo. Lindinho e tudo o mais, um dono jovem simpático que moraria aí também, uma sala muito organizada, a cozinha limpíssima. 320 euros. Parecia muito bom, mas a lozalização não me agradava nem um pouco.
E reparei em dois baldes pretos na sala, com plantinhas dentro. Num dos baldes uma etiqueta dizia "Ipe". Ah, quanta inocência! Pensei se tratar de uma muda da nossa ávore símbolo nacional e perguntei o que era. "Marijuana". E a etiqueta? "É que as minhas plantinhas têm nome".
Saí.
O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
E foi do nada mesmo. Já tinha ligado e a dona me mandara voltar ali no dia seguinte (no caso, ontem), mas resolvi na segunda mesmo dar uma passadinha na frente, só para ver o frontispício do prédio. E, já que estava ali, por que não dar uma tocadinha na campainha? Pois então, resultou que entrei no apartamento, a dona é uma argentina de vinte e poucos anos, atriz, e está sublocando os quartos para ter mais dinheiro e mandar para a família. No caso, sublocando por 350 euros.
Nesse lugar eu me senti em casa, apesar de ser o menos equipado dos apartamentos que visitei. Imaginem que logo comecei a falar com ela como se já tivesse alugado o piso! Acho que vou por a cama ali, uma mesinha acolá...
Mas ela ainda não se decidiu e não sabe para quem vai alugá-lo. Há mais pretendentes para o quarto, e ela vai me dar uma resposta amanhã, quinta. Se eu pudesse desenhar o lugar onde ele fica, a vista que tem, o aspecto do prédio... Ah, vocês iam se encantar!
Agora todo mundo torcendo, cruzando os dedinhos pra que nessa quinta-feira eu tenha sucesso e possa finalmente ter um endereço certo aqui nessa cidade!
***
Se eu não tivesse tido uma lição, decerto que estaria já cantando vitória, dizendo que vou morar num lugar boníssimo. Nunca se pode cantar vitória antes do tempo.
Lembram-se dos meus intestinos? Pois então, passou algo terrível! No processo de reeducação dos horários, ele resolveu fazer outra greve... Oxalá seja curta!
***
E como nem tudo é alegria, hoje eu tive uma aula razoável de ràdiojornalismo. Parece normal, não fosse a aula das 9h da manhã até as 3 horas da tarde! E todo mundo acha normal ir almoçar às 3h! Bom, por sorte hoje saímos mais cedo, como sói nessas aulas demasiado longas, e fui comer às 14h20. Lembrei-me de que numa hora dessas o bandejão da USP já está fechado! E aqui abre às 13h!
Mas o importante é que fiquei com saudades de muita coisa. Arroz e feijão, sem dúvida, mais carne moída, salada de almeirão ou alface que não seja a americana, farinha, temperos, suquinho, o sol, o calor, o verde, a umidade, gente pra te fazer companhia indo, voltando, alguém com quem tomar um café.
Eu bem que tentei, mas não sei ser sozinho. Eu preciso aprender a ser só?
***
A Rita Lee cantou no meu ipod pouco antes de eu sair pra caçar os apartamentos na segunda-feira uma música muito sintomática da semana:
Não sei se eu estou pirando
Ou se as coisas estão melhorando
Não sei se eu vou ter algum dinheiro
Ou se eu só vou cantar no chuveiro
[..trecho censurado...]
É que eu sei que não adianta mesmo a gente chorar
A mamãe não dá sobremesa
postado por: guilherme Quarta-feira, Março 01, 2006
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