Segunda-feira

Ai, os meus queridos me matam de preocupação! Eu estou aqui tão longe e todos estão sem paradeiro definido numa festa popular de um país violento e perigoso... Tomem cuidado, por favor!

E, enquanto ninguém me responde os e-mails que passei horas escrevendo no último sábado, nem comenta as novidades que eu conto no post aí debaixo, sigo contando um pouco do day-by-day espanhol.

Depois da maravilhosa experiência com a neve, passei um domingo de preguiça e fui ao cinema. Vi o Brokeback Mountain, filme que já estava em voga no Brasil quando saí e que pelas correrias dos últimos dias não pude ver. Maravilhoso. Gostei muitíssimo e tenho até umas teorias sobre o recente tratamento do amor homossexual (em comparação ao tratamento do amor heterossexual) na mídia. E, claro, estenda-se aí o conceito para o tratamento do sexo.

Mas vou poupá-los, cinco queridos leitores e eventuais visitantes ocasionais, de tão enfadonha exposição.

Em vez disso, aproveito para fazer um relato do funcionamento dos meus intestinos aqui nessas terras. Vós sabeis que falar das excreções me é tão caro quanto descrever a neve (aliás, não disse que o que mais me impressionava na paisagem nevada era o horripilante e delicado silêncio; a neve não faz o barulho terrível das tormentas tropicais).

Pois bem, o intestino anda mal. Pelo menos agora, depois de dez ou onze dias, ele resolveu desapegar-se de seu conteúdo e deixá-lo fluir. O problema é que ainda não está bem educado e anda sem horário para as evacuações - o que, por suposto, causa terríveis inconvenientes. Mas vou tratá-lo com linha dura, que é a única maneira de educar alguém, para ver o resultado.

Por falar em educação, ah, vejam só, não é que eu vim para esse país para estudar? Pois bem, depois de uma semana de apresentações e ausência de professores, hoje o dia começou quente (maneira de dizer, fazia uns 4 graus): aula de história do jornalismo na Espanha.

O curioso, em comparação ao Brasil, é o tamanho do objeto de estudo: o jornalismo começou na Espanha, pode-se dizer, durante o império romano. Ok. Por isso restringimos os estudos aos séculos XVIII, XIX e XX. E hoje vimos um pouco do século XVIII.

Só para comparação, o primeiro jornal diário da Espanha foi criado em 1756. O primeiro jornal do Brasil, primeiro at all, foi criado em 1804, se chamava Correio Brasiliense e era editado e impresso em Londres.

No mais, segue tudo igual: ainda não encontrei uma moradia, ainda não consegui abrir uma conta num banco e, vejam que coisa maluca, pode ser que eu tenha que trocar os traveller cheques que trouxe por euros em algum posto de troca oficial porque os bancos já não trabalham com esse sistema! A gerente, Rosana Quesada, me disse que é um sistema antigo, que eu deveria usar cartão de crédito ou Visa Travel Money ou qualquer coisa moderna e digital.

Ah, ¡hóstia!, como diriam aqui...

Com o tempo, tudo se ajeita. E que acabe logo esse carnaval, por Deus, que eu não agüento esse silêncio!

postado por: guilherme Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006
Palpites pelo mundo:



Domingo

Eu editei esse post para adicionar este primeiro tópico:

ESTÁ NEVANDO! Eu desliguei o computador e quando apaguei a luz para dormir vi uma chuva espessa pela janela. Uma chuva que caía devagar! Me vesti correndo e fiquei como uns 45 minutos na rua, vendo a neve, sentindo a neve... e, como esqueci o gorro, me congelou os cabelos! Que sensação adorável! Imaginem um idiota correndo e pulando na rua deserta entre 4h15 e 5 horas da manhã sem guarda-chuva nem nada! Os meus pés estão duros, meus dedos das mãos ardendo de queimados pelo gelo, minha garganta dói e eu estou maravilhado!

Tão maravilhado que abri de novo o computador para compartilhar! E estou com a ilusão de ver nevar por detrás do monitor, dentro do apartamento calafetado! Explêndido!

Agora sim o post original, cuja data verdadeira é sábado!

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Hunf! Depois de visitar o Prado, o Reina Sofía, o Parque del Buen Retiro e uns 80 cafés, bares e restaurantes, os dois amigos se foram de Madrid... E como ela ficou grande e vazia de repente! Contra isso, só há um antídoto!

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Hoje eu fiz uma coisa típica espanhola: He salido de bares! Salir de bares é coisa que, ainda bem, não fazemos no Brasil: fui eu com o amigo do meu pai que muito carinhosamente me acolhe na sala até um bar de parrilla argentina, bem no centro da cidade. Lá encontramos três amigos dele, dois espanhóis e uma argentina. Aí comemos chorizo, morcilla (que eu aprendi a gostar) e outras coisas menos boas. Tudo regado com cerveja!

Mas, quando parece que você está muito bem, dá um siricotico, um piti, uma saramandaia e eles pagam a conta e vamos a outro bar. Aí eu tomo uma caipirinha de vodka com morango (fresón) e eles de limão e cachaça, e não comemos nada. Parece que está muito bem, mas eles outra vez saem desse bar e vão a outro: esse é só para um aperitivo, uma bebidinha mais forte que serve de digestivo ao mesmo tempo em que abre o apetite. Deste bar, onde me divirto vendo os velhinhos jogando dominó, vamos a outro, para comer outra vez!

Aí eu como uma série de embutidos espanhóis, mais camarões, pão, bacalhau ao alho e óleo, salmón, batatas assadas com maionese, tudo uma delícia. E tomamos duas garrafas de vinho em 4 pessoas.

Aí saímos de novo para tomar um café. Quer dizer, pensei que íamos tomar um café, mas o tal Café del Mono se converteu num novo bar, com balcão e sem mesas (sem mesas, todo mundo fica de pé; e nada de bancos no balcão, pfff) e eu me rendo à coca cola. O povo segue tomando gin tônica! E a música aí é muito boa, standards do pop americano discretamente alternativos e tendendo ao rock suave (me fiz compreender?). Saio dali à 1h da manhã, para chegar em casa às 2h12... e encontrar gente na rua e o metro cheio... Povo impressionante e inquieto!

E tudo isso por uns muitos euros, ah, os mais bem gastos!

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Enquanto isso, no Brasil, o pessoal que dança tango comigo faz uma brincadeira como aquela da propaganda do Visa, acho. Lembram do rapaz que não pode viajar e levam um cartaz com a cara dele? Então, dêem (arrá!) ó uma olhada aí:



Bons amigos...

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E não é que mais uma vez eu sonho? Queria tanto sonhos disfarçados, sonhos que dependessem de interpretações... Não, eu sonho preto no branco, tal como é. Mierda!

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Ô, gente, mas quando é que as saudades passam? E como lidar com sentimentos tão intensos e surpreendentes à distância? (Pu, essa última frase vai gerar especulações, mas só você, linda, vai saber o que é de fato...)

postado por: guilherme Domingo, Fevereiro 26, 2006
Palpites pelo mundo:



Quarta-feira

Ok, fiquei uns dois dias sem deixar notícias aqui só para terem a discreta impressão de que eu finalmente cortei o tal cordão umbilical. Pfff... Mentira!

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Cinco minutos perdidos procurando os asteriscos no teclado espanhol...

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Eu sei não deveria, mas é preciso abrir o capítulo do El Corte Inglés. É a minha primeira paixão em Madrid, e olha que eu não sou de paixões desse tipo. Uma loja de departamentos gigantesca, com dezenas de lojas espalhadas por toda a Espanha, cada loja com diversos andares e com tudo o que você quiser comprar.

Por exemplo: lá tem um supermercado. No supermercado, há produtos da marca El Corte Inglés, os mais baratos. Foi lá que comprei pão, Nutella e o melhor refrigerante do país até agora: La Casera. Uma Sprite leve. Foi lá também que quase comprei meu celular. E fui procurar luvas. E há livros, Cds, bicicletas elétricas, roupas de todo tipo, aparelhos eletrônicos...

Foi lá que fui fazer cópias das chaves da casa, depois de procurar loucamente por toda a cidade por uma Cerrajería. E tente falar isso em espanhol da Espanha, senhor, que tortura. Só lá encontrei um chaveiro.

***
E dois lindos vieram aqui para a cidade passar ótimos momentos comigo! Quer dizer, quase sempre os momentos são ótimos e mesmo quando eles não são tão bons assim (algumas coisas são assim e pronto) o saldo é no mínimo o de conhecer melhor as pessoas. E as pessoas surpreendem! Como é lindo o ser humano!

Sabem, ontem fomos visitar o Prado, hoje o Reina Sofía. E os almoços, que delícia, cada dia mais tarde, cada dia num lugar diferente. Cada dia uma nova emoção. O almoço de hoje, por exemplo, durou quatro horas: das 17h20 até as 21h20. Claro que engolimos tudo o que pudemos nos primeiros minutos disso, e no resto do tempo simplesmente conversamos densamente.

A sensação de estar em casa que eles me passam é impagável, mas eu preciso me preparar: logo eles se vão e fica o frio, fica a procura por uma casa, fica o medo de não ter nem dinheiro nem emprego para continuar por aqui e aproveitar tudo o que posso desse continente...

E vão fazer tanta tanta falta...

***
Ok, é verdade que já decolei um pouco mais daí. Mas agora preciso pegar os pedacinhos do coração que ficaram cada um com uma pessoa diferente. Ufa! Quantas emoções em tão pouco tempo! Quanta coisa gostosa nas vésperas da partida... Quanta dúvida veio comigo! Pelo menos eu não trouxe a culpa... Essa já se enterrou!

postado por: guilherme Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006
Palpites pelo mundo:



Segunda-feira

Quanto tempo será que demora pra gente cortar o cordão umbilical?

Não, não se trata aqui, como em outros momentos já foi, de saudades da mãe. São saudades da pátria-mãe. Quer dizer, nem saudades são porque eu de fato ainda não saí!

Se passo o dia fazendo a conta das horas para saber que horas são em São Paulo (agora, por exemplo, são 7h45), se passo a maior parte do tempo entretido em pensamentos sobre as pessoas que deixei aí nestas terras ou naquelas que vêem aqui me ver - aliás primeira visita de ilustres amanhã, terça - se entro no e-mail umas mil vezes por dia, ou tantas quantas são possíveis, e fico deprimido 95% das vezes porque, evidentemente, não há nada de novo, é por quê?

Porque ainda não decolei. Acho que de verdade não cheguei nem ao aeroporto.

E para fazer tudo pior, parece que a faculdade aqui é séria demais - ai, saudades do vidão folgado!

postado por: guilherme Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
Palpites pelo mundo:



Sábado

Jogo rápido:

1. Nao há lugar como o nosso lar;
2. Mudei para a casa do amigo do meu pai, que fica bem longe do centro e onde as coisas sao um pouco mais baratas;
3. Estou num locutório de uns marroquinos que escutam música árabe;
4. O cara do meu lado está visitando sites em árabe e vendo fotos de coisas em chamas;
5. Em breve terei meu celular europeu.

postado por: guilherme Sábado, Fevereiro 18, 2006
Palpites pelo mundo:



Sexta-feira

Ufa! Agora sim estou mais tranqüilo aqui no velho mundo...

Ontem, devo confessar, passei por maus bocados. Imaginem-me chegando no aeroporto (suponhamos que seja Guarulhos, para se ter uma idéia) e seguindo direto por metrô e trem até a universidade (mais ou menos em Taboao da Serra, para se ter uma idéia) com todas as malas - a saber, 48 quilos de malas mesmo mais duas mochilas (uma cheia de pinga), uma pasta com documentos e endereços e uma sacola do Free Shop com duas garrafas de whisky. Céus!

Cheguei à faculdade e essa foi a visao: um semi-descampado seco com construçoes de tijolo, árvores secas e quase ninguém na rua. Os braços doendo de carregar as coisas. Tento ligar para o colega daqui que passou uma temporada no Brasil e ele nao atende. Céus!!!

Mas entao ele e o outro amigo que também viveu no Brasil me acham andando pelo campus e começam a me ajudar a carregar as coisas. Vou para a casa de um deles, durmo um pouquinho, vamos comer uma paella, umas bistecas e depois eu durmo de novo. Nao estava me sentindo bem e os catarros amarelos e verdes logo mostraram por que: doentíssimo!

"Estava eu na Espanha e de tanto andar pela cidade de Madrid fiquei com las amígdalas infectadas..."

Foi fácil pedir um antibiótico! Viva a internacional Amoxicilina!

Estou tomando esse remédio e outros mais, e já melhorei muito. Só por dormir já foi uma melhora sem igual.

E hoje, nobres cinco leitores de tierras lejanas, o dia amanheceu ensolarado. O céu de um azul quase intenso (invernal, suave) e uma luz como a de maio em Sao Paulo: clara, branca, ideal para boas fotos dramáticas.

E sim, faz frio.

Acabei de comer um pedaço de tortilla com um sanduíche de chorizo e um copo de leite com café (¿ 5,00) e estou usando o computador no subterrâneo aquecido de um café. Acho que vou conseguir logo encontrar um lugar onde morar para depois mandar o endereço, e estou de olho num bairro maravilhoso, Huertas, com predinhos do século XIX (estou hospedado em um agora mesmo, passei a noite lá e é mais comum do que se imagina). O problema é o aluguel, cerca de 800 euros por mês para dividir em duas pessoas. Eu nao pagaria um aluguel desses nem no Brasil!

Nossa, quantas novidades, hein? Hoje eu devo me mudar para a casa de um amigo do meu pai, onde nao serei um incômodo tao grande quanto estou sendo agora, ocupando completamente a sala do meu colega ibérico.

Ah, quase esqueço do melhor: estou vivendo na "Calle de Valgame Dios". Imaginem em Sao Paulo você virando à esquerda na rua do Valha-me Deus! Esse povo é anarquista! Quando estao bravos no trânsito, gritam palavras sacras como La Virgen, Hóstia! Sao palavroes mesmo!

Isso sem contar o impagável "Me cago en" qualquer coisa. Hoje o melhor exemplo foi o "Me cago en los apóstoles"! Me Cago en Diós, me cago en la Virgen, me cago en la Hóstia, se cagan en todo!

Obrigado pelo carinho! Dá para sentir até daqui! E logo novidades menos pernósticas!

postado por: guilherme Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006
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Quinta-feira

Ok, cheguei a Madrid. Horas e horas intermináveis em avioes e aeroportos... Um terror.

E está frio e nublado... Mas ok! Amanha parece que vai sair o sol... e eu volto com tempo e novidades.

postado por: guilherme Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006
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Terça-feira

Gostoso é que nem tudo que acaba termina definitivamente. E é bom viver os sonhos possíveis.

***
Que a mentira tem perna curta já é do conhecimento de todos; eu descobri ontem que além disso ela tem umas esporas, umas garras, um coice poderoso, um jato de veneno: é capaz de magoar a um só tempo a pessoa que acreditou na mentira e o tonto que compactuou com ela.

E deixa a gente com uma vergonha de não saber onde pôr a cara.

***
Diz o site que na quarta-feira que vem o tempo lá estará chuvoso. A temperatura vai de 1 a 12 graus Celsius. Predominantemente nublado.

postado por: guilherme Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
Palpites pelo mundo:



Sexta-feira

...Um pequenino grão de areia
que era um pobre sonhador
olhando o céu viu uma estrela
imaginou coisas de amor...

***
E hoje eu peguei o ônibus para vir ao trabalho pela última vez, acho. No caminho milhões de pensamentos atravessavam a minha cabeça e eu olhei pela janela no instante exato em que íamos passar por baixo da ponte dos Remédios. Aparece uma placa de rua enorme: "RUA DA DESPEDIDA".

***
Passaram anos muitos anos
ela no céu ele no mar
dizem que nunca o pobrezinho
pôde com ela se encontrar

***
Semana ocupadíssima, tanto em pensamentos angustiantes (ou não) quanto em termos de tempo. Segunda na festa, terça na happy hour, quarta dançando e bebendo, quinta jantando com o grande amigo que vai ser preso por cópias ilegais de CDs importados e hoje partindo em viagem ao litoral próximo. É a velha vontade de fazer tudo tudo tudo, e acabar não fazendo nada de coração.

***
Se houve ou se não houve
alguma coisa entre eles dois
ninguém soube até hoje explicar

***
Afora isso, voltam alguns amigos queridos, um das distantes terras européias, outro do nordeste mesmo. Uma se foi para o velho continente e volta quando eu já não estiver mais aqui neste solo - com um pouco de sorte encontro-a e a seu companheiro num café em Madrid. Quanta ansiedade: faltam 12 dias e eu ainda preciso ver um monte de gente...

***
O que há de verdade
é que depois, muito depois
apareceu a estrela do mar.

***
Quem sou eu de verdade?

postado por: guilherme Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006
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