|
Terça-feira
Eppur si muove!
Depois de todas as suas aventuras, a Palio Weekend mais uma vez dá uma prova do seu fim próximo. Submetida a 1000 quilômetros de asfalto no último final de semana (até São José do Rio Preto e volta), dessa vez foi o escapamento que não resistiu: no começo era o ronronar típico de um pequeno furo, mais o ruído metálico das presilhas mal presas, das sapatas de borracha ressecadas, dos parafusos um pouco frouxos. Com o tempo e o esforço, o que era um ronronar de gata mansa foi crescendo e se tornando mau, agressivo como um rugido de leão faminto, como o grito de um urso desesperado: a vibração do escapamento se transmitia a todo o carro, o ruído ensurdecia a passageiros, motorista e eventuais passantes externos.
Na cidade, a sensação de ser o maioral, de ter 18 anos com carro envenenado, de ser o centro das atenções.
Na volta, o rugido se tornou insuportável, o barulho, intolerável.
Muitos reais na segunda-feira e ela voltou a trabalhar em silêncio, quieta e calma como devem ser os corações dos mais velhos.
***
"A gente já passou do patamar da amizade há muito tempo". É gostoso ouvir isso, sentir isso - parece o texto da Marta Medeiros publicado aqui e tão duramente criticado.
***
Hoje no almoço um encontro casual e uma pergunta insólita: ouvi dizer que as aulas começam na segunda-feira, é verdade? Claro que era... mas a surpresa com a constatação foi minha também.
O tempo passou, voou. Metade das coisas que eu deveria ter feito não as fiz, metade das músicas que deveria ter ouvido ficaram quietas nos seus discos de plástico, todos os livros que deveria ter lido, fechados.
Mas como eu vivi bem...
***
Alejar. Em espanhol, quer dizer distanciar, afastar. Curioso como, em português, a distância de algumas pessoas se parece com a sensação de perder um pedaço de si, de tornar-se aleijado.
Não sou aleijado; estou alejado.
postado por: guilherme Terça-feira, Julho 26, 2005
Palpites pelo mundo:
Quarta-feira
Combinei com ela no Frans Café, às 23h, depois do tango.
Às 18h ela me liga: iria acompanhada, teria algum problema? Ora, claro, dependia de quem era a companhia.
Era quem eu pensava, quem eu queria que fosse: meu antigo chefe. Deliciosamente louco, perigosamente franco, apaixonadamente jornalista.
O que era para ser um encontro casual num café se transformou num grande novelo de conversas que vão e vêm, que duram, que se prolongam e que são interessantes - quando com ele, fico quieto; escuto. Olhei só três vezes para o relógio: na primeira, eram 23h25. Na segunda, 1h40. Na terceira, 2h50!
A cada meia hora ele se levantava da mesa e buscava uns livros nas prateleiras do café; pousava-os todos sobre uma cadeira vazia. Bebeu whisky, contou da vida, contou causos, narrou histórias, recitou poemas, cantou.
No final do rendez-vous, declarações sinceras e mútuas de apreço e amizade. Promessa de novo encontro, na casa dele, com a música dele e a bebida dele.
Dois dos livros pousados sobre a cadeira eram para mim, com direito a dedicatória...
postado por: guilherme Quarta-feira, Julho 20, 2005
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
E o velho Pierrot aposentado, andando pela rua, olhava para o céu, via as estrelas, sonhava - que sonhar era o que melhor sabia fazer na vida.
E veio a música:
"Eu sei que a cor do teu amor é muito escura
E sem poder te dar a luz meu coração
Eu durmo cedo, e só te peço amor
Não me abandone mais"
Dormiria cedo de novo.
***
E mais: no seu sonho, de dança, bebida, cigarro e noite, um sussurro pegou forte:
"...Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto)
Sou perfeita porque
Igualzinha a você
Eu não presto
Eu não presto
Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus..."
Cala a boca, Pierrot. Vai dormir que isso passa - cansei dessas lamúrias tolas de todo dia, de lua branca de queijo sem gosto. Quero a gordura no céu, quero cama quente - sai Pierrot tristonho.
***
Dançar tango é muito gostoso; ir a um bom baile de tango, melhor ainda!
postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 18, 2005
Palpites pelo mundo:
Sexta-feira
Uma fábula:
Era uma vez uma cidade onde todos comiam purê. Purê era a preferência natural, todo mundo nascia e a família já esperava um belo comedor de purê de batatas. Corriam pela cidade alguns boatos de que um ou outro desviado (diziam até do padre!) comiam não purê, mas polenta de milho!
E um dia nasceu um menino que logo cresceu. Provou o purê, mas parece que não lhe caía bem. Curioso, leu sobre o passado: descobriu que, em tempos antigos, primevos, de barbaríe e assassinatos, o comum era comer a tal polenta; o purê era como uma obrigação, um elixir da vida eterna, acreditavam. O esforço de comer o purê era terrível - o que os fazia feliz mesmo era a tal polenta.
E o menino, despido dos valores da sua comunidade, mente e coração abertos, roubou um dia um pedacinho de polenta de um comedor conhecido da cidade. Só um pedacinho, mal sentiu o gosto - mas gostou do que sentiu. Chegou mesmo a afirmar que era quase o mesmo, que o importante era alimentar.
Passou mais um tempo e a polenta, embora o apetecesse, não lhe caía nas mãos.
Até que um dia caiu. Provou um pedacinho só, quis mais. Voltou para se refestelar, se refestelou e depois... depois nada. Descobriu que gostava mais era de purê, mas não do purê em si. Gostava de prepará-lo, de sentir o cheiro, a consistência, ver-lhe a cor e sonhar com ele.
Dizem que passou a vida sem nunca mais comer nem purê, nem polenta.
***
Trechos para o final de uma semana que passou rápido, muito rápido - mas que vai deixar lembranças. Escolho-os não por senti-los já há anos, mas por tê-los provado nesses últimos dois meses.
São do poema Máscaras, do Menotti Del Picchia:
"... PIERROT
Aconcheguei-me dela, a alma vibrante louca, o coração batendo...
ARLEQUIM
E beijaste-lhe a boca.
PIERROT, cismarento:
Não...Para que beijar? Para que ver, tristonho, no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho... Beijo dado, Arlequim, tem amargos ressábios...
Sempre o beijo melhor é o que fica nos lábios,
esse beijo que morre assim como um gemido,
sem ter a sensação brutal de ser colhido...
ARLEQUIM
E que disse a mulher?
PIERROT
Suspirou de desejo...
ARLEQUIM , mordaz:
Preferia, bem vês, que lhe desses um beijo!
PIERROT
Não. Ela olhou-me. Olhei... E vi que, comovida, sentiu que , nesse olhar, eu punha a minha vida..."
E mais, meu favorito:
"...ARLEQUIM, escarninho:
Esse amor tão sutil que teus nervos reclama só se aplica aos Pierrots?
PIERROT
Não! A todos os que amam!
Aos que têm esse dom de encontrar a delícia na intenção da carícia e nunca na carícia...Aos que sabem, como eu, ver que no céu reflete a curva do crescente, um vulto de Pierrette..."
postado por: guilherme Sexta-feira, Julho 15, 2005
Palpites pelo mundo:
Quinta-feira
A preguiça tomou conta de mim.
Não uma preguiça dessas de dia inteiro, de não querer sair da cama, dessas que se confunde com depressão. Não. Uma preguiça localizada no horário entre o almoço e o jantar, bem na hora do trabalho, na hora em que mais precisamos de energia e fôlego.
***
Meus estudos de espanhol seguem de vento em popa: a cada dia aumento meu vocabulário em muitas palavras, e meu cabedal de regras gramaticais está crescendo naturalmente, sem esforço, sem decorebas. Tudo natural e saudável.
Comprei um dicionário espanhol-espanhol, desses que explicam o sentido da palavra antes de nos dar a tradução direta para o português. Estou insuportável nas aulas, perguntando tudo e querendo saber mais e mais.
Como é gostoso estudar uma língua que se aprende... Mas, desesperar jamais: em agosto volta o russo maldito.
***
O que a gente faz quando não sabe o que fazer?
postado por: guilherme Quinta-feira, Julho 14, 2005
Palpites pelo mundo:
Terça-feira
Poderia falar do belo final de semana que passei viajando, mas um assunto se impõe: a morte. E essa, hã, não dá para agendar para um dia ou outro. Mais uma vez retomo a tradição do blog obituário.
Ontem de manhã morreu o Narciso Vernizzi, o Homem do Tempo da Jovem Pan. Fiquei triste ao saber, por uma mensagem de celular que me chegou sem assinatura e sem remetente no meio da tarde: "O homem do tempo morreu". Duvidei, pesquisei na Folha Online e achei a notícia. Na nota, vi pela primeira vez o rosto daquela voz de 86 anos.
Voz que eu ouvi desde muito pequeno: meu pai tomava o café da manhã junto comigo e com a minha abuela todos os dias às 7h, antes de ir trabalhar. O rádio sempre estava ligado, e sempre na Jovem Pan. Faltando dois minutos para as 7h em ponto, a Paulistana do Billy Blanco entrava no ar, "sempre ligeiro na rua, como quem sabe o que quer, vai o paulista na sua para o que der e vier". Um giro rápido de manchetes e finalmente a vinheta: "O Homem do Tempo". Vinha o Vernizzi.
Sempre falava de Córdoba. Explicava a meteorologia como um sistema global, que passou a estudar profundamente para melhor orientar os ouvintes. Foi o primeiro a fazer esse tipo de prestação de serviços e, na minha opinião, era o que a fazia melhor - a Jovem Pan dedicava vários minutos à previsão do tempo, desde Córdoba até Paris.
Lembro de ouvi-lo indo para o colégio, já grandinho, com meus 12 anos. Na verdade dos 12 aos 17, todos os dias.
E aí fui trabalhar em rádio - a Bandeirantes, sem homem do tempo - e peguei dias de chuvas terríveis. Comecei a estudar um pouco a meteorologia, por conta própria, perguntando aos técnicos do CGE de São Paulo, aos gerentes de tráfego da CET, à Defesa Civil. Entendi um pouco os sistemas, cursei uma disciplina na USP só com fundamentos teóricos da meteorologia. Vivi um momento mágico oferecendo aos ouvintes da Bandeirantes uma das melhores coberturas sobre o furacão Catarina, que destruiu algumas casas na região de Torres, no RS, e no sul catarinense. Quis porque quis colocar sempre diversos meteorologistas no ar, discutindo o fenômeno e alertando as pessoas.
E ontem o homem do tempo morreu. Me dei conta da importância que ele tinha, a voz, a maneira de dar a informação ("hoje não é dia de lavar roupa, porque vai chover já já"), o carisma.
A Pan fez uma programação especial em sua homenagem. Era lembrado a cada minuto - e eu me lembrava dele a cada minuto. Nessa madrugada, uma série de depoimentos gravados de ouvintes da rádio quase me fez chorar - senhoras e senhores cantando os jingles antigos, dizendo que não poderiam mais sair de casa tranqüilos sem a informação precisa do Homem do Tempo. Um senhor chorava, perdia o controle da voz.
Eu me mantive firme.
Na manhã de hoje, dirigindo para o curso de espanhol, ouvia o Jornal da Manhã. Entre 6h40 e 6h55, mais ou menos, um imenso boletim retomava toda a sua carreira na rádio. Trechos de transmissões, depoimentos de colegas. Ao final, o texto preparada em sua homenagem foi lido em ping pong pelos locutores; meus olhos estavam já vermelhinhos, uma lagriminha ensaiava no canto do olho. Falaram da importância dele na rádio, do amigo que era, da falta que faria... e um dos locutores começou a chorar; a voz embargada, o nariz entupido, cada frase sentida.
Chorei, solucei no carro, sozinho. E o tempo está bom em São Paulo.
postado por: guilherme Terça-feira, Julho 12, 2005
Palpites pelo mundo:
Sexta-feira
"Eppur si muove!"
Faz uns quatrocentos anos que Galileo Galilei disse "E no entanto ela se move". Fazia referência à Terra girando em torno do Sol, e disso todo mundo sabe.
Mas eu vou mandar fazer o adesivo, letras garrafais - EPPUR SI MUOVE - e colar na traseira da minha Palio Weekend. Imaginem que essa semana eu mandei consertar os freios, já velhos e gastos. Ignorei o escapamento, que está furado e um pouco frouxo, fazendo um barulho descomunal. Parecia um bom carro, apesar do puta-que-pariu do passageiro estar quebrado, apesar de ela teimar em não ligar na primeira batida de chave, apesar da espuma dos bancos estar um pouco deformada, apesar do distribuidor de ar estar quebrado (o ar sai por todos os lugares ao mesmo tempo, é impossível direcionar ao vidro, aos pés ou ao rosto). Mas então eu sofri um duro revés.
Passo o ano inteiro morrendo de calor lá dentro, sem o ar-condicionado. Minha glória é o inverno, quando ligo o aprazível ar quente e, refestelado, dirijo confortavelmente. Pois ERA minha glória: ontem pifou o ar quente também.
E, no entando, ela se move!
postado por: guilherme Sexta-feira, Julho 08, 2005
Palpites pelo mundo:
Quarta-feira
Vamos castrar a gatinha lá de casa.
É melhor. Os gatos, quando não são castrados, têm essa libido quase incontrolável. A cada cio, uma cantoria - não é o caso da minha, mas da maioria das gatinhas. Elas são mais agressivas, mais ariscas, têm essa vontade de sair de casa, de escapar por cada vão aberto das portas.
Castrada, vai deixar de pensar em machos, vai ficar mais caseira. É capaz até de gostar mais de mim - ok, eu admito: é por um pouco de egoísmo que eu aguardo ansiosamente essa castração.
Mas tudo bem: eu sei que depois das suas escapadelas ela volta para mim, faz de conta que eu sou o paizinho dela, vem procurar na minha porta o carinho que o mundo não lhe deu.
***
Comecei as aulas de espanhol essa semana, no Instituto Cervantes. Apesar de nunca ter feito curso, a minha familiaridade com a língua (riam, riam do meu portunhol! Pensem no Hipoglós chileno) me conduziu, após o teste, ao intermediário 1 do curso - maravilha, economizei um ano inteiro de curso. Mas, um minuto: começar curso de espanhol em julho? Sim, e terminá-lo também em julho - é um intensivo, todos os dias, das 7h30 da manhã até as 10h, por quatro semanas. Voy hablar como un porteño, una vez que mi maestra é argentina!
***
E, como nem só de alegrias vive o homem, ando na fossa. Tem coisa mais gostosa que curtir uma fossinha leve, ouvindo músicas dessas de doer os dois cotovelos? Muito dessa fossa é culpa minha, eu que adoro dramatizar cada aspecto do dia-a-dia. Mas o start foi, acreditem, o Roberto Jefferson. Ele, o Bob do mensalão de Brasília. Lembram que na semana passada ele apareceu com um hematoma no rosto, dizendo que um armário tinha caído quando ele escalou para pegar uns CDs? Então, os CDs eram do Lupicínio Rodrigues:
Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
O teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia
A Elis cantando essa é de matar, de rasgar o coração. Ainda mais para mim, um eterno apaixonado idiota que não sabe, não aprende e não consegue entrar, manter ou sair de um relacionamento amoroso. Nasci para ser platônico.
Já comi no teu prato
Já bebi tua cerveja
Eu conheço o teu cheiro
Eu te encontro qualquer dia
Essa é do Ivan Lins, está no mesmo disco da Elis e é demais. "Eu conheço o teu cheiro", dá pra sentir a intimidade?
Preciso de um drink.
Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que sou teu paizinho
Que há tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu
Voltaste, estás bem, fico contente
Só que me encontraste muito diferente
Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar podes comer meu pão
postado por: guilherme Quarta-feira, Julho 06, 2005
Palpites pelo mundo:
|
De Mel
Mind the Gap
Em Preto e Branco
Torre de Papel
Poluição d'Idéias
suco
Tabacaria
La vie en rose
Retalhos do Mosaico
Atual
Arquivo
|