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Sábado
Poderia fazer um post enorme sobre a viagem toda, mas deixo os detalhes para contar pessoalmente. Para não cansar os meus pobres cinco leitores, faço um rápido resumo:
Dia 14: saída de São Paulo e chegada a Lajes, em Santa Catarina.
Dia 15: de Lajes a São Borja, onde vimos os túmulos do Getúlio, do Jango e do Brizola.
Dia 16: de São Borja a Zárate, uma cidade muito legal a 100 km de Buenos Aires.
Dia 17: Buenos Aires, finalmente.
Dias 18, 19, 20 e 21: ficamos na capital Argentina passeando, comendo, bebendo e conhecendo todos os cantinhos da cidade, inclusive os túmulos de Evita Peron e de Carlos Gardel.
Dia 22: saímos de Buenos Aires e seguimos para Mendoza, aos pés dos Andes.
Dia 23: subida aos Andes para ver a neve - fascinante.
Dia 24: saída de Mendoza com destino a Rosário.
Dia 25: de Rosário a Colônia de Sacramento.
Dia 26: de Colônia de Sacramento, no Uruguai, até Piriápolis, próxima de Punta del Este.
Dia 27: de Piriápolis até Rio Grande.
Dia 28: de Rio Grande até Mostardas - o trecho deve ter só uns 100 quilômetros, porque ficamos encalhados na areia a maior parte do dia.
Dia 29: de Mostardas a Joinville.
Dia 30: de Joinville a São Paulo.
Agora me digam: como é que eu posso ficar feliz por estar de volta a São Paulo, com uma tonelada de trabalhos para fazer, as aulas recomeçando na segunda, sem dinheiro para nada e ainda sentindo um vazio dentro do peito, um vazio assustador no quarto na hora de dormir, um vazio no carro, um vazio cotidiano?
Como é duro voltar à rotina!
postado por: guilherme Sábado, Julho 31, 2004
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
Por rotas e pontes nunca dantes desbravadas, em dois dias nós quase atravessamos o continente sul-americano: estou agora no Uruguai, na bela cidade de Colônia do Sacramento. Amanha partimos para Montevidéo.
Desse trecho, algumas notas: Rosário, na Argentina, terra natal de Che Guevara, é horrorosa; a gasolina no Uruguai vale ouro - um dólar por litro: as relaçoes humanas sao muito frágeis.
Vejam que estou progredindo: neste teclado só falta o til.
postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 26, 2004
Palpites pelo mundo:
Sexta-feira
Houve quem duvidasse do sucesso da minha empreitada (confesso que eu mesmo duvidei em alguns momentos), mas uma coisa que nenhum de nos poderia imaginar e que ela iria ainda mais longe: escrevo agora direto de Mendoza, uma cidade vinifera da Argentina a 1100 quilômetros a Oeste de Buenos Aires.
Sim, Oeste. Estamos aos pes da Cordilheira dos Andes (onde, alias, subimos hoje e pela primeira vez na vida eu vi a neve, pisei nela, cheirei e comi).
Agora chegou a hora de apertar o cinto e tentar voltar para o Brasil gastando o minimo - ja estourei meu parco orçamento.
postado por: guilherme Sexta-feira, Julho 23, 2004
Palpites pelo mundo:
Sábado
Depois de dias negros de compreensoes atrasadas, estou vivendo um sonho: finalmente cheguei a Argentina, de carro.
O carro, meu ja famoso Super Palio Azul, esta otimo - eu diria ate que no melhor momento de sua existencia. E as companhias sao impagaveis.
Quando tiver mais tempo, e de preferencia um teclado que aceite a acentuacao, volto a escrever.
postado por: guilherme Sábado, Julho 17, 2004
Palpites pelo mundo:
Terça-feira
"Quem poderia fotografar, registrar, tatear o instante em que algo se rompe entre duas pessoas? Quando aconteceu? De noite, enquanto dormíamos? No almoço, enquanto comíamos? [...] O que posso fazer agora? Que refletor devo acender para encontrar nessa escuridão, nessa trama, aquele momento único, aquele milésimo de segundo em que algo cessa entre duas pessoas?"
Trecho do romance "Divórcio em Buda", do húngaro Sándor Márai.
Eu descobri o exato momento em que "algo se rompeu entre duas pessoas". Senti. Quase ouvi um laço se quebrando.
A lembrança não me deixou dormir direito. E esse pobre personagem do húngaro quer justamente encontrar esse momento que eu quero tanto esquecer.
postado por: guilherme Terça-feira, Julho 13, 2004
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
Acordei pouco antes de amanhecer. Estava um frio de lascar, mas eu precisava ir ao banheiro - e fui. Descalço, com uma calça de pijama e uma camiseta, entrei no banheiro, fechei a porta e fiz meu xixi. Depois, arrepiado de frio, lavei as mãos e abri a porta.
Ou melhor, tentei abrir a porta: o trinco quebrou. Estava escuro, todo mundo em casa dormindo e eu, morrendo de frio, preso dentro do banheiro. Que fazer? Liguei o rádio e comecei a ouvir as notícias do dia enquanto matutava um jeito de escapar.
"Madrugada mais fria do inverno em São Paulo - os termômetros registram agora 10 graus."
Com uma pinça, desmontei o fecho da porta. Não adiantava, o problema era lá dentro. Me enrolei na toalha seca, na esperança de me esquentar um pouquinho, fehcei o vitrô e abri o chuveiro, para ver se esquentava. Nada. O chuveiro quebrou na semana passada, e a chave seletora da temperatura ficou emperrada na posição "morno".
"No Rio Grande do Sul, os termômetros marcam 3 graus"
Espalhei a roupa suja no chão gelado do banheiro e sentei em cima, enrolado na toalha. O maldito chuveiro só desperdiçava água, não saía nem fumacinha. Meus pés começaram a ficar gelados demais, e tive uma idéia - esvaziei dois pacotes de papel higiênico e meti os pés lá dentro.
Vejam bem a cena: eu, descabelado, com pijama, morrendo de frio, sentado no chão em cima de uma pilha de roupas sujas, com os pés em sacos de papel higiênico, um monte de rolos de papel em volta de mim e a Joven Pan no rádio, informando: "são 6 horas e 15 minutos". Ah!
Às 6 e 40, mais ou menos, ouço um barulho na porta: "Quem está aí?". Era meu pai.
Pelo buraco da fechadura que eu desmontei, ele me passou um barbante. Joguei o barbante pela janela e ele amarrou um martelo e uma chave de fendas. Puxei de volta e, não sem muito esforço, soltei os pinos das dobradiças. Algumas pancadinhas e eu estava livre, finalmente.
Fiquei uma hora lá dentro, e foi horrível. Imaginem se isso acontece num dia em que estou sozinho em casa. Quantas horas lá dentro? Dias?
Sugestão para a vida: não tranquem os banheiros. Ou, por garantia, levem sempre um telefone junto com vocês.
postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 12, 2004
Palpites pelo mundo:
Sábado
Andei evitando o assunto ao máximo, mas agora não posso mais: não vejo a hora de ir para Buenos Aires!
Já está quase tudo organizado (aliás, seria engraçado se não estivesse - partimos na quarta-feira): carro em ordem, documentação em dia, seguro feito, albergue reservado, rota traçada em três mapas diferentes (vai que um deles se perde no caminho), rádio funcionando, blusas de lã e cachecóis.
Descer de São Paulo até Buenos num carro já é um sonho antigo, reforçado pela viagem de ônibus que fiz para o Chile. Conseguir realizar esse sonho tão cedo e ainda com mais três amigos tão queridos... parece mentira. E muita gente achou que não ia dar certo (confesso que há dois meses até eu estava com um pouco de medo).
Faltam 3 dias - já é noite de sábado - e eu não me agüento.
"Não dá mais pra segurar
EXPLODE CORAÇÃO"
postado por: guilherme Sábado, Julho 10, 2004
Palpites pelo mundo:
Segunda-feira
Engraçadas as peças que o tempo nos prega!
Outro dia, vi o Tinoco, da famosa dupla Tonico e Tinoco (os favoritos da minha avozinha) numa filmagem feita nos anos 70. Dizia ele:
"Quando veio o Long Play, ninguém acreditou que ele fosse superar o disco de 78 rotações. E agora, olha aí, o LP está com toda a força!" - quantos dos meus queridos 5 leitores saberão hoje o que é um 78?
E, ouvindo um belo vinil da Edith Piaf lançado nos Estados Unidos em 1962, leio a seguinte inscrição na contracapa:
"This monophonic microgroove recording (disco, em bom português) cannot become obsolete. It has been carefully engineered to provide the finest monophonic performance from any phonograph - old or new, monophonic or stereophonic. Like all high-fidelity albums from Capitol, it is a top-quality product of the recording art, and will continue to be a source of outstanding sound reproduction, now and in the future."
Rirão de nós daqui a apenas 42 anos?
postado por: guilherme Segunda-feira, Julho 05, 2004
Palpites pelo mundo:
Sexta-feira
"A mentira é como um grão de poeira. Eu esperava que se diluísse no ar. Em vez disso, está-se avolumando cada vez mais. Aguardo os acontecimentos com verdadeira ansiedade."
Dezsö Kosztolanyi, escritor húngaro
postado por: guilherme Sexta-feira, Julho 02, 2004
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